Pensamentos By Anne Diogo

21 E se a Dindi soubesse?


“Ah, Dindi! Se tu soubesses como machuca, não amaria mais ninguém…” (Pelo Interfone — Cícero)

Se apaixonar é uma sensação muito gostosa, desde aquela ansiedadezinha antes de ver a outra pessoa até os momentos que se passam juntos. Gostamos de sentir e proporcionar essas sensações, gostamos de que nos façam bem e de saber que fazemos bem a alguém. Porém lidamos bem com “O importante é estar feliz” quando a pessoa que amamos está apaixonada por outra? A maioria das pessoas, não. Machuca. Não deveria, mas incomoda. Queríamos ter autoria nessa felicidade. Sinceramente, nos acho um pouco egoísta por conta disso.

Amar alguém não lhe garante nada além do seu sentimento, também não te impede de curtir, gostar ou se apaixonar por outro alguém. Amor não tem nada a ver com relacionamento, os dois podem ocorrer de estar juntos, mas não significa que irão estar (assunto pra outro texto). O que quero dizer é, basicamente, se amamos alguém, o queremos bem, então essa pessoa estando feliz, independente da companhia, deveria ser motivo da nossa satisfação. DEVERIA, mas na prática, entre esse pensamento racional e o sentimento “AMOR”, muito dessa satisfação se perde pois existem as incertezas, ciúmes, inseguranças e uma lista enorme de coisas irracionais que exigem da gente um esforço para fazer a ligação entre a razão e o coração.

Essa música do Cícero, mostra os sentimentos de alguém que ama a Dindi e sofre por quê ela ama outro. Não é um simples amor platônico, é um amor que já foi correspondido e agora é de outro. O trecho citado me faz ter o flashback de um problema que tive, mais precisamente me lembra uma conversa.

Éramos um casal de idas e vindas, LONGAS idas e vindas. Numa dessas, entre um término e a volta, ele teve um relacionamento. Durante esse período, me distanciei de toda e qualquer informação. Eu que nunca fui de bloquear ou excluir ninguém do meu Facebook, o tirei dos meus amigos e bloqueei seu número no whatsapp. Não fiz isso por causa dele, fiz por mim, queria espaço das informações que eu não sabia lidar, do que eu não conseguia absorver e entender. Queria não saber de nada, só desejava que ele estivesse feliz, dentro daquela contradição: desejo felicidade, mas não consigo lidar que é outra pessoa que esta proporcionando isso.

Então voltamos. Eu não falava, mas eu me sentia extremamente magoada com a situação que havia ocorrido, ele ter se relacionado e voltado. Sentia como se tivesse saído pra testar o sentimento. Eu não falava porque sabia que o que me deixava magoada era o ciúme, o sentimento de posse, fora isso, não haviam motivos para esse tipo de mágoa, ele não havia me traído, tínhamos terminado e se eu o queria comigo, voltar deveria estar sendo algo bom. Se não mostramos para alguém que queremos que a pessoa fique, ela não vai adivinhar. Temos que demostrar. Estar magoada me travava dessa demonstração. Era uma mágoa que desenvolvi e EU tinha que lidar, mas não lidava. Constantemente, mesmo sem querer, eu evidenciava a dor que sentia como se alguém além de mim pudesse resolver. Acabava tacando nele tudo que havia passado. Ele se sentia mal por ser o protagonista da minha dor, mas ser o protagonista não o tornava culpado. Se soluciona um crime achando o culpado, mas não havia culpado. Como resolver?
Não sou uma pessoa que perdoa com facilidade, o perdão acontece em mim como um processo, começa quando volto a falar normalmente com a pessoa pois minha raiva passou, o resto do caminho é feito com um mantra: “Se me comprometi em perdoar, não devo ter ressentimentos”. Então eu estava tentando solucionar um crime com o suspeito errado, eu não tinha que perdoar nada.

Durante uma das nossas conversa sobre o que tava me afligindo, ele me disse, em um tom calmo, como se pedisse desculpas por algo que não poderia fazer: “Você não perdoa eu ter me apaixonado”.
Vrá! Nocaute! Fui nocauteada com três golpes, não sei qual foi o mais forte: Ouvi-lo dizer que se apaixonou por outra, eu não perdoar algo que não precisava de perdão ou o tom calmo no qual ele dizia aquilo.

Eu não estava resolvida com o que ocorreu com ele na minha ausência. Tal atitude era uma involução minha. Ele tava confuso sobre o que fazer para acabar com esse mágoa tanto quanto eu. O que eu não via, era que eu não estava magoada com fato de ter existido outra pessoa, mas por eu não ter conseguido me abrir para ninguém nesse período por conta do que sentia por ele. Isso me fazia pensar que por ele ter conseguido e querido se abrir, ele não sentia o mesmo. Eu achava que ter um namoro, era algo que acarretava muita platéia, muitos expectadores e torcedores, me machucava não ser uma das protagonistas. Sempre achei que sentir fosse mais importante que ser namorada, mas não reagia bem ver outra sendo por que gerava dúvidas sobre o sentimento.

Ele era a minha Dindi, no fundo, eu só queria que ele se privasse de apaixonar ou amar outras pessoas, era ciúme, egoísmo e medo. Não é a Dindi que tinha que se privar de amar mais pessoas, ela não tinha que se sentir culpada por isso.

Ver quem a gente ama, sendo feliz com outras pessoas, só nos machuca por puro egoísmo. Se estivermos abertos a essa sensação ao invés de sofrendo por outra pessoa estar, o entenderiamos. Se eu tivesse me dado a mesma chance que ele se deu, naquela época o relacionamento teria fluído, eu não estaria tão confusa, eu entenderia que se apaixonar não muda o amor que sentimos e que podemos amar mais de uma pessoa, que caminhar com alguém é mais feliz do que caminhar só. Eu estava cega, pois era “um pote até aqui de mágoas” e não via que o valor de cada pessoa na nossa vida, não muda o valor de outra. Amar alguém não significa que você ficará junto para sempre, isso nos faz ver que términos acontecem. Reconhecer o que sentiu, que foi especial, que passou e que é preciso seguir em frente sem estragar as lembranças é uma atitude de um sentimental maduro.

Quando conhecemos alguém um pouco dele é deixado em nós e vice-versa. Nos marca e nos deixa fragmentos, nunca vamos esquecer, mas isso não significa que temos que ficar parados. O tempo de vocês podem ter acabado ou ainda não é o momento. Independente do que acontece, temos que viver. Devemos aprender seguir em frente sem precisar, manchar essas lembranças com desentendimentos e nessa tragetória, quando nos damos oportunidades, nos apaixonamos e entendemos perfeitamente o que é estar apaixonado. Não devemos nos sentir mal por termos nos apaixonarmos, não precisamos pedir perdão por isso.
Eu não o entendia e ele não me entendia. Tem certas situações que requerem vivência da nossa parte para entendermos. Agora...EU O ENTENDO. Não há o que perdoar, talvez só as feridas causadas pela ignorância.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.