Notas iniciais
Pensamentos de Emília quando ela está em coma.


—Eu não sei bem onde estou, mas tudo dói, não consigo abrir os meus olhos ou mover qualquer parte de meu corpo, não ouço nada, devo estar só pois o silêncio é grande, permaneço alguns instantes buscando algo que nem eu mesmo sei, então tudo se apaga novamente_.


—Não sei quanto tempo passou, mas sou despertada, será essa a palavra a usar, porque ainda não consigo abrir os olhos, mas tudo bem falarei assim... Fui despertada por uma picada em meu braço, então diferente da outra vez há alguém aqui, tento me mover, mas a dor é maior, principalmente na cabeça, tento mover os lábios mas parecem colados, essas tentativas me cansam e apago mais uma vez_.


—Horas depois, sinto um toque suave em minhas mãos, e consigo sentir um doce perfume, bom pelo menos meu olfato funciona, o cheiro parece familiar, mas não consigo reconhecer de quem seria, mas gosto da sensação de não estar só, até faço perguntas mentalmente “Onde estou?” ou “O que aconteceu?” “Quem é você?”, mas claro que a pessoa não ouve, ela continua a acariciar minha mão e como um criança acabo “dormindo” de novo_.


—Novamente uma picada me acorda, não sei quanto tempo passou, se horas ou dias, e enfim consigo ouvir uma conversa, não consigo entender muito sobre o que falam, mas as palavras *hospital* e *acidente*, faz um turbilhão de imagens surgirem em minha cabeça e me desespero com as coisas que vejo, ouço máquinas apitar, alguém grita por um médico, algo caiu e fez um barulho enorme, tudo parece estar uma confusão não só ao lado de fora, onde estou, como em minha cabeça, mas acima de todo esse caos eu consigo ouvir uma pessoa chamando por mim e era a voz que sempre queria ouvir com a palavra que queria ouvir “Emília, minha filha”, e a escuridão tomou conta de mim mais uma vez_.



—Aquele mesmo toque suave em minha mão me despertou tempo depois, sinto uma pequena alegria por saber que não estou sozinha, sei que é a mesma pessoa pelo perfume que sinto, não vou gastar energia tentando me movimentar pois seria desnecessário, sei que estou em um hospital por causa do acidente de carro que sofri, desci ladeira abaixo, lembrando agora devo ter tido muito sorte em ter sobrevivido, ou teimosa demais para morrer, mas o quê ainda não entendo pq não posso abrir os olhos, se minha cabeça parece estar funcionando, eu não sei porque o resto de meu corpo não me obedece, queria saber quem está aqui comigo e parece que por encanto a pessoa leu meus pensamentos, sinto uma aproximação e colada ao meu ouvido ouça a voz dela_.


ーMilly é a mamãe quem está aqui, será se você me ouve meu amor- _eu não posso crer minha mãe, sim já consigo chamá-la assim, minha mãe está aqui, então era ela das outras vezes aqui comigo, algo em mim se agita, mas tento manter a calma para poder ficar “acordada”, ela faz uma pausa, ouço um soluço, ela chora, isso me deixa triste, queria dizer tantas coisas a ela, mas neste momento só queria dizer que a escuto sim, mas ainda não consigo e ela continua a falar_ — Por favor minha filha, volta para mim, preciso pedir perdão olhando em seus olhos, minha Milly.



—Ela chora e sinto querer chorar também, eu quem deveria pedir perdão, não ela, a suavidade de suas mãos chegam em meu rosto, como ansiava por esse carinho tão maternal, quantas noites chorei desejando ter esse toque e agora que tenho não posso retribuir, mas desfruto da delicadeza de seus dedos em minha face, como queria poder vê-la, sei que se estivesse “acordada” estaria chorando, sinto que do nada ela parou, ficou imóvel, se é que possível, espero ela voltar a acariciar, mas ouço a porta bater, ela saiu voltando segundos depois, um homem fala, deve ser um médico ele brevemente me examina e diz_.


ー Senhora Ventura ela ainda não está despertando, foi apenas um movimento involuntário.
ーMas Doutor ela chorava veja, — _sinto seus dedos limpar minhas lágrimas._


—Eles continuam a conversar mas não consigo ouvir, acho que se afastam de mim, claro que eu estava chorando, quem não iria chorar ao ter a sua mãe presente segurando a sua mão e fazendo carinho em seu rosto depois de tantos anos, depois de tudo o que fiz e disse a ela, de todo o mal e ódio que eu despejei sobre ela, não fico admirada de ter sofrido esse acidente, se eu tivesse parado o carro e ter conversado, talvez eu não estaria nesta situação, como eu queria voltar no tempo, novamente sinto a sua mão pegar na minha, como é bom ter ela assim, e não posso deixar de pensar as inúmeras coisas que fiz elas passar, com aquele toque suave acabo dormindo de novo_.


—Um bom tempo depois desperto, mas sem abrir os olhos, alguém toca em meu rosto, pelo perfume percebo que não é Vitória, ops minha mãe preciso me acostumar a voltar a chamá-la assim, não vai ser difícil, mas esse cheiro eu conheço, ah como eu conheço, sonhei com esse perfume muitas noites, jamais esqueceria a quem pertence, mas pensei que ele não estaria aqui, por causa da nossa briga, Bernardo estava com muita raiva de mim e com razão, briguei com todas as pessoas que amo, preciso acordar e resolver todo os problemas que causei, fico aflita ao lembrar de tudo que fiz, ouço a máquina apitar deve ser por causa dos batimentos cardíacos que sei que aceleraram, ah Bernardo mesmo em coma você consegue mexer comigo, e a voz de Bernardo bem pertinho de mim, sua barba arranha de leve minha orelha_.


ーMeu amor, por favor volta pra mim, preciso de você ー _ele beijou meu rosto, mas não solta a minha mão, fica em silêncio, lembro dos nossos encontros dos bons e dos ruins, como sofri quando brigamos, senti perder o chão quando ele saiu irritado, não, decepcionado da minha sala, mas se ele está aqui é porque não está mais bravo, Bernardo deve ter pegado no sono, sinto um leve peso cair sobre minha barriga, penso em estar alisando aqueles cabelos negros e rebeldes,penso tanto em estar retribuindo esse carinho que também acabo dormindo_.


—E assim passei um bom tempo, sabia quem estava ali só pelo perfume, Lívia esteve tão presente quanto os outros, minha filha_.


—Lívia e minha mãe decidiram me levar de volta para casa, e lá não são poucas as vezes em que ouço Lívia e Bernardo pedido a minha mãe para descansar um pouco, fico pensando em quanto ela sofre, ela diz várias vezes que se culpa por tudo, mas não queria que ela pensasse isso, todos nós temos nossa parcela de culpa, eu mais que todos_.


—Em uma tarde logo após Bernardo ter ido, minha mãe está novamente comigo, sinto seus lábios em minha testa, fala próximo ao meu ouvido_.


— Minha filha, quero tanto pedir perdão olhando em seus olhos, se você não quiser que eu fique ao seu lado vou entender e aceitar, mas ainda assim preciso falar do quanto eu sofri ao perdê-la, e do quanto fiquei feliz por saber que estava viva, eu te amo tanto, mas tanto. — _suas lágrimas molham meu rosto, não gosto de saber que ela chora e por minha causa_.


—Sua mão pega na minha, e posso abrir os olhos, demoro um pouco a focalizar por causa da luz, minha mãe está com a cabeça baixa, acho que reza, tento mexer a mão e consigo apertar a dela, acho que ela não tem certeza e aperto mais uma vez, lentamente ela levanta a cabeça para mim e ao ver que estou acordada ela chora, e não diz nada, pra mim faltam palavras e só consigo pensar em uma_.


— *Mãe*…

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.