Notas iniciais
Esta história foi revisada e expandida 11 anos após sua publicação original. Muita coisa mudou desde então: a Ana que escreveu estas linhas pela primeira vez agora é esposa e mãe. Revisitar os pensamentos de Lily sob essa nova perspectiva foi uma experiência infinitamente mais intensa e dolorosa. Hoje, compreendo o peso de cada escolha dela de uma forma que a versão de mim mesma de uma década atrás não conseguiria. Espero que esta nova versão toque o coração de vocês tanto quanto tocou o meu ao reescrevê-la.

O som da madeira rangendo sob os pés dele é o metrônomo do meu fim. A cada degrau, uma possibilidade morre.

Poderíamos ter fugido. O pensamento é um veneno doce. Poderíamos ter atravessado oceanos, mudado de nome, vivido em uma vila esquecida na Bolívia como trouxas comuns, preocupados apenas com o preço do pão. Poderíamos ter ido para os polos, morado entre os pinguins e o gelo eterno, onde o frio seria o nosso único inimigo. Poderíamos ter sido qualquer coisa, menos alvos.

Eu devia ter amolecido meu coração antes. Devia ter parado de lutar contra o óbvio e cedido aos encantos de James anos antes de Hogwarts terminar. Se eu tivesse sido menos teimosa, teríamos tido mais verões. Mais domingos preguiçosos. Mais dele.

Ele. O motivo de eu carregar essa criaturinha trêmula nos braços. O homem que me fazia acordar sorrindo como uma adolescente boba, mesmo no meio de uma guerra. James, meu amor, minha vida.

Morto. O som da palavra no meu pensamento é mais letal que qualquer maldição.

As vozes das minhas amigas ecoam no quarto, misturando-se ao cheiro de mofo e magia negra que invade a casa.

Marlene ria, dizendo que o nome Potter já estava escrito no meu destino antes mesmo de estar nos meus documentos.

Dorcas provocava, jurando que minha implicância era a única forma que eu encontrava de não explodir de tanto amor.

Alice me xingava baixinho quando eu murmurava o nome dele entre sonhos, no dormitório feminino.

Eu mandava todas calarem a boca. E agora o silêncio delas é o que mais dói. Estão mortas, ou perdidas em destinos piores que a morte. E eu estou aqui, com o medo congelando meu sangue, um filho nos braços e outro, minúsculo e secreto, no ventre.

Um segundo filho que o pai nunca conhecerá. Uma vida que jamais verá a luz do sol porque eu quis esperar pelo momento perfeito para contar. "Vou fazer uma surpresa", pensei. Tola. Romântica e condenada. James morreu sem saber que o nosso amor tinha multiplicado mais uma vez.


Dumbledore e Lupin deveriam estar aqui. Notícias, visitas, ordens... qualquer coisa que preenchesse o vazio desta noite. E Sirius... ele jurou que Peter seria a nossa sombra. Onde está Peter agora? Estará sendo torturado? Estará morto em algum beco por nos proteger? Rezo para que ele esteja bem, pobre Peter, tão pequeno diante de tanta maldade.

Deixo para pensar nos meus filhos por último. Se eu focar neles agora, meu coração para antes que o feitiço me atinja. Eu mal os conheci. Harry me encara, os olhos verdes — os meus olhos — nublados por lágrimas que ele não entende, mas sente. Ele sabe. Menino esperto, esperto demais. Ele percebeu que o herói da casa caiu e que o monstro atravessou a porta.

Eu queria que ele fosse ignorante. Queria que ele achasse que era apenas um jogo de luzes.

Cada rosto, cada risada, cada briga de escola... tudo passa por mim agora como um filme queimado. Se me lembro deles agora, é porque foram o meu mundo. E o mundo acaba em um estalo.

A porta do quarto voa, reduzida a lascas. O ar esfria. A sombra dele é longa e cheia de vácuo.

Voldemort.

Notas finais
Perdão pelos erros, estou digitando no tablet. Eu não acho que lily desconfiaria que Peter havia traido eles tao descaradamente. Ana.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!