Notas iniciais
O Céu era de um azul límpido, o mar parecia calmo enquanto ela olhava para ele. Engraçado como as aparências podiam enganar. O mar de Alexandria poderia parecer calmo, mas havia algo nele que sempre trairia sua natureza selvagem. Cleópatra sabia bem disso. Passara sua vida inteira praticamente admirando aquele mundo azul e branco. Ela ainda se lembrava de Roma, tão distante, tão diferente de sua Alexandria. O Nilo lhe dava uma paz que o Tibre ou nenhum outro rio do mundo poderia lhe dar.
–Majestade- Disse uma voz atrás dela.
Athalaya, sua serva mais fiel, a mais querida e também a mais esperta. A Rainha nunca imaginou que poderia se afeiçoar tanto a uma grega. Deveria ser seu sangue de Ptolomeu. Sangue chama sangue, como seu pai lhe ensinara.
–Athalaya- disse ela com a conhecida firmeza, sem trair apreensão ou qualquer outro traço de emoção- Traz alguma notícia de Antônio?
Antônio. Era impressionante como apenas um nome poderia fazer suas pernas tremerem. No princípio era apenas como fora com César. Ela apenas estava tentando sobreviver. Não demorou muito para que percebesse que seria diferente com Antônio. De repente se viu tão ligada ao romano que já não sabia separar estratégia de companheirismo, sobrevivência de paixão. E o pior de tudo é que ela não conseguia separar a palavra amor de Antônio.
Athalaya mordeu os lábios parecendo consternada. A serva parecia temer dar uma notícia ruim a sua Faraó.
–Ele se casou com a irmã de Octavian .
As marés podem mudar, pensou Cleópatra, elas sempre mudam. A Rainha respirou um pouco, precisava se concentrar, precisava arrumar os pedaços de seu palácio caído. Sem pestanejar, ela foi até a bancada onde guardava um rolo de pergaminho. Começou a escrever. Em grego. Antônio, sabia a língua e assim seria mais difícil para outros olhos se apoderarem da mensagem. Assim que terminou ela entregou o pequeno bilhete a Athalaya.
–Envie isso ao Triunviro.
– Minha senhora, do que se trata o carta?
– É uma carta de congratulações e um convite.
– Um convite Majestade?
–Sim, para que ele venha para o Egito conhecer seus filhos.
O suor escorria pela sua testa vertiginosamente. Essa era sempre a pior parte. Acordar e se sentir impotente. Os sonhos vinham toda a vez que ela fechava os olhos. Ela já estava quase cogitando não dormir por que toda vez que acordava era como se tivesse corrido uma pequena maratona.
Sonhar com Cleópatra e Antônio já se tornara corriqueiro. Se ela não tivesse tão cansada teria rido do quão irônico isso tudo se tornara. Ela sempre amara história, e agora não suportava ler nada sobre antiguidade ou que se referisse ao casal 20 do mundo antigo. Sem contar os outros sonhos que tinha que sempre terminavam em tragédia. Um casal apaixonado morto por ousarem se amar, um garoto sendo separado da mãe, irmãos contra irmãos. Era triste.
Mas, lembrou Penny com desgosto, não era mais triste do que ter que lidar com Octavian todos os dias. Ela duvidava que a punição no Tártaro fosse muito pior do que ela estava vivendo junto aos Menelaus. Sem contar Petúnia. A romana parecia muito interessada em tornar Penny seu projeto e vivida dizendo que ela era com uma irmã mais nova (Penny nascera dois meses antes dela, mas isso não contava muito por causa dos malditos dez centímetros a mais de Petúnia).
–Penny que bom que você já está de pé- Disse Homero entrando no quarto.
A garota sorriu ao ver o tio entrando no quarto. Penny tivera seus problemas com Homero é verdade. Ele quase ocasionara a morte dela e de seus amigos. No entanto, o homem ajudara Penny a se entrosar com os Menelaus e ele vinha deliberadamente a protegendo. Além do mais, ele parecia totalmente arrependido. Fora difícil confiar nele, mas ele deixou claro que pretendia ajudá-la a acabar com o bando de Octavian.
–Alguma novidade?- Disparou Penny.
A garota sentia necessidade de perguntar isso a Homero toda vez que o via. O velho poeta estava em constante contato com Sócrates que, por sua vez, fazia parte de espião dos dois no acampamento meio-sangue. Infelizmente, desde que se juntara aos Menelaus as notícias iam ficando cada vez mais escassas. Quando Homero soltou um longo suspiro ela logo percebeu que ia ficar desapontada mais uma vez.
–Você sabe o que dizem- falou Homero com um sorriso triste- A falta de notícias é uma boa notícia. Eles estão bem.
Penny apenas assentiu com a cabeça, ela sabia que o tio tinha razão. Se pelo menos ela não tivesse tido que entregar a espada como garantia a Octavian... Ter entregado a espada, o último elo que ela tinha com sua família tinha sido doloroso demais, mas foi necessário. O romano jamais teria confiado nela de outra maneira. E ela teria a espada de volta.
–Penny, você está bem?- Perguntou Homero pelo que pareceu a milionésima vez naquela semana.
–Estou só...
–Com aquela dor novamente. Penny tem que haver algum jeito.
Penny apenas sacudiu a cabeça. A dor onde a espada de Brutus a tinha atingido ficava cada vez maior e ela sabia que era por que seu tempo estava acabando. Homero estava tentando ajuda-la, tentando descobrir um modo de livrá-la da maldição. A garota era extremamente grata a essas tentativas, mas ela sabia que eram todas infrutíferas. Ela preferia gastar seu parco tempo tentando fazer alguma coisa que os ajudasse a vencer a guerra. E, ela vinha tendo algumas ideias quanto a isso há algum tempo.
–Bom, se não temos notícias deles, ao menos me diga como anda a nossa posição. Ficar no escuro está me deixando louca- reclamou.
A garota achou que se juntar aos Menelaus a daria um maior acesso aos planos de Octavian, embora tivesse facilitado com certeza, Penny ainda sentia que haviam muitas coisas que ela precisava entender.
Ao que parecia ainda estavam tentando recrutar aliados. Octavian era um bom estrategista, Penny tinha que admitir. Ele havia recrutado antigos heróis, monstros e inclusive terríveis reis da Grécia antiga como Ixion. Penny tinha arrepios toda vez que encontrava o homem. Ironicamente Octavian parecia estar se cercando dos primeiros argonautas, o que só provava o quão obsessivo com os 7 ele era.
Eles estavam em algum lugar da Carolina do Sul, em uma fazenda cheia de casas menores ao redor. Octavian dizia que queria se manter perto da praia e da origem dos verdadeiros romanos. Os gregos que eram leais aos menelaus gostaram do clima e não reclamaram muito. Na verdade, o único soldado que parecia entender alguma coisa da história dos dois povos era Octavian.
–Bom, infelizmente parece que os Menelaus conseguiram um novo aliado.
–Novo aliado?
–Você vai ver- disse Homero dando um suspiro desanimado- Mas, com o que você tem que se preocupar é com o Livro Sibilino. Octavian não acredita na história que você inventou. Ele acha que você seria incapaz de queimar um livro.
O Livro sibilino...caramba, pensou Penny, esse cara não desiste! A garota deu de ombros. Octavian não poderia ter esse livro. Sócrates estava com ele bem protegido.
–Nenhuma novidade- comentou Penny, arrumando distraidamente seu quarto enquanto conversava com Homero. Ele não era muito grande. Mas ela ficara feliz que, sendo grega, não tinha que ficar em uma tenda coletiva como os romanos.
Petúnia, que era a responsável pelo treinamento da garota vivia afirmando que Penny era desleixada, que o quarto onde ela dormia mais parecia um lixo. Essa era só uma das enormes “queixas e apontamentos que eu devo fazer para nosso César”, dizia sempre Petúnia com um ar de superioridade que fazia com que Penny quisesse por querosene nas vestes da romana, e acidentalmente acender um fósforo perto.
–Eu acho melhor você estar preparada- avisou o poeta- Octavian pretende atacar os acampamentos logo. O que você irá fazer quando isso acontecer?
Penny tinha pensado muito nessa possibilidade. Ela não poderia se esconder quando Octavian atacasse sua família, tão pouco pretendia lutar contra eles.
–Vamos ver como vão ficar as coisas. O que temos que fazer é cuidar para que Octavian tenha tantos problemas que não consiga pensar em atacar os acampamentos-afirmou Penny com uma confiança que ela não tinha. Além disso, ela tinha que torcer para se manter viva até o final da guerra.
A porta do quarto se abriu de repente e Petúnia entrou sem ser convidada. Penny não entendia como uma pessoa que demandava sempre boa educação agia daquele jeito.
–Ah Penny, vejo que você ainda não está vestida apropriadamente- disse ela dando um suspiro como se Penny fosse uma criança travessa que ela tivesse que cuidar durante uma tarde de sábado.
Penny encarou a garota.
–Estou vestindo Jeans, estou vestindo uma camiseta dos Ramones e estou vestindo meu All Star preto. A rainha da Inglaterra teceria um elogia sobre minha classe se ela estivesse aqui na minha frente agora.
Homero fez um som estranho com a garganta como se estivesse se afogando, Penélope sabia que ele estava sufocando uma risada. Infelizmente isso só aumentou a raiva de Petúnia.
– Alex tinha razão quando disse que você era impossível. Octavian quer falar com a gente, então...tente pelo menos ser mais apresentável. Ajuda se você não abrir a boca- disse ela saindo apressada.
Penny sentiu uma pontada quando Petúnia falou sobre Alex. Ela odiava toda a vez que a romana fazia isso. A garota parecia acreditar que os dois ainda estavam namorando ou coisa assim. Essa crença só era vencida pelo fato de Petúnia acreditar que um dia Alex se juntaria aos menelaus. Penny soltou um longo suspiro.
Antes de sair do quarto no entanto Homero, a puxa de modo que ela possa olhar diretamente nos olhos dele.
–Ei... não ligue para ela ok? Penny... vamos dar um jeito. Vamos encontrar uma saída para essa droga de maldição.
Penny sorriu para o tio.
–Vamos, Octavian está esperando por nós- disse ela simplesmente.
Octavian ficava em uma casa grande, que era o centro do acampamento. Ficava perto, mas os dois tinham um bom caminho até lá. Felizmente a novidade sobre a chegada de Penny passara há muito tempo. Todos agora pareciam vê-la apenas como uma menininha idiota que tinha uma grande dificuldade de seguir ordens de seus superiores Octavian, o grande César (urgh!) e Petúnia como responsável pela sua corte (Urgh em dobro).
Assim que chegaram na casa, eles perceberam que havia um burburinho. Octavian estava na sala com vários soldados e monstros. Todos eles reunidos em volta de dois homens que carregavam um garoto e uma garota. Aparentemente eles tinham a idade de Penny.
–O que está acontecendo aqui? — perguntou ela se aproximando dos soldados e tentado observar os dois jovens mais detalhadamente.
O menino tinha cabelos negros que pareciam precisar de um corte. Os olhos eram de um azul-esverdeado que ela já tinha visto em algum lugar mas não conseguia lembrar de onde. Quando ela olhou a garota percebeu que já a conhecia. Os cabelos ruivos, os olhos castanhos... Sim, de um sonho. Agora Penny lembrava: de um sonho que ela tivera no mundo inferior.
–Ora, ora-disse Octavian voltando sua atenção para Penny- Como sempre, atrasada Penélope. De qualquer maneira, eu tinha que apresentar você a alguém.
Penny sentiu o estômago embrulhar. Toda vez que Octavian dizia que queria apresentá-la a alguém era por que tinha um novo aliado.
–Mas, como eu ia dizendo antes de ser tão rudemente interrompido- disse Octavian olhando feio a garota- O que está acontecendo aqui?
– Bom- disse Penny se postando do lado de Octavian- Se você vai repetir minhas frases então tecnicamente não interrompi- disse Penny. Um dos únicos divertimentos da garota junto aos Menelaus era irritar Octavian, felizmente ela era muito boa nisso.
O augúrio apenas ignorou a garota e continuou esperando uma resposta dos soldados.
– A mestiça estava com isso em uma mochila- disse um dos homens entregando um livro a Octavian- Quando a pegamos o menino tentou protegê-la.
–Então você está interessada nos heróis da antiga profecia? — perguntou ele numa perigosa voz controlada- Você sabia que isso pode ser considerado um ato de traição não?
Penny sentia sua curiosidade sobre os dois garotos aumentar a cada minuto e quando ela percebeu que a garota estava interessada nos 7 heróis, na sua família, essa curiosidade atingiu níveis insuportáveis.
– E você garoto? Tenho certeza que sabe que o contato entre romanos e gregos é proibido. Ainda mais com uma mestiça. Ainda mais com uma que está aqui apenas para servir.
“Apenas para servir”. Octavian adorava esse eufemismo para escrava.
–Bom expulse o garoto do acampamento. Quanto menina... ela deve ser presa. Até que sua sentença seja decidida.
–Seu cretino, me deixe em paz- Disse a menina.
Observando os dois paralisados ali, Penny teve uma ideia. Ela não tinha pensando nisso até aquele momento. Conseguir aliados entre os menelaus era um luxo que ela achou que não poderia ter. Mas aqueles dois...
–Eu fico com eles- disse Penny de repente.
–Como? — Perguntou Octavian olhando com uma centelha de irritação para Penny.
–Você não precisa deles. Você ia colocar a garota numa tenda com outros prisioneiros, e mandar o garoto embora. Posso ficar com eles.
Octavian a encarou incrédulo.
–Não, isso não é possível. Você não está...
–Tentando montar um exército? Por favor, olhe para eles. Se eu fosse montar um exército usaria algum dos seus soldados romanos idiotas. Talvez eu procurasse no Egito. Sabe, as coisas estão ficando meio entediantes só com deuses de duas mitologias me odiando.
Octavian olhou para a garota incrédulo.
–Isso está fora de cogitação.
–Octavian não seja idiota. Eu não troquei de lado para perder –disse Penny veemente, no seu melhor tom arrogante- Se você começar a desperdiçar bons soldados...
–Penny tem razão- disse Eris entrando na sala. Toda a vez que ouvia a voz dela era como se uma dúzia de diabinhos começassem a zumbir no ouvido de Penny mate-a.
Octavian já estava ficando cada vez mais vermelho.
–Eris, você não pode concordar com isso. Esses dois são traidores. Mantê-los perto de Penny é perigoso- disse Octavian olhando com desprezo para a garota- E quem lhe deu autorização para falar comigo nesse tom mocinha?
Penny deu de ombros, em uma atitude rebelde.
–Não se preocupe Octavian. Tenho certeza que Penny não está tentando montar um exército. Além disso, ela tem razão. Os dois são patéticos, mas não deve serem desperdiçados.
–Patéticos-grunhiu a garota- Eu vou....
Penny deu uma cotovelada que fez a garota se calar.
–Ai!- disse ela com raiva.
–Viu- sorriu Penny para Octavian- posso mantê-los na linha.
–Tanto faz- disse Octavian irritado- Mas não quero vê-los perto dos outros.
–Ótimo- comemorou Penny- Homero leve-os para o meu quarto e explique sobre nossa causa. Acho que eles vão ficar mais calmos depois de conversarem com você.
Homero lançou um olhar significativo para Penny e saiu com os dois soldados carregando os garotos.
–Então- Penny voltou-se para Octavian- Você não tinha que me apresentar alguém?
–Ah sim... Tântalo- falou Octavian se virando para um velho mal encarado do lado dele- Essa é nossa arma secreta.
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