Charles esfregou os olhos azuis e virou o corpo na cama. Não estava dormindo—na realidade, fazia alguns dias que não dormia bem. Pensou que, estando em sua casa, talvez fosse capaz de conseguir ter uma noite de sono melhor. Entretanto, não foi bem isso que aconteceu logo na primeira noite na mansão.

– Pode entrar – ele disse, porque as batidas repetiram-se. Erik empurrou a porta e espiou dentro do cômodo de decoração sóbria e quente. – Erik? Algo errado com seu quarto?

– Não. – Foi entrando, fechando a porta atrás de si. Charles se ergueu na cama e acomodou-se melhor, observando Erik ir até a janela. Ele estava com roupas casuais, o que indicava que provavelmente nem sequer havia deitado na cama. – Só não consegui dormir.

– Eu também não. – Charles empurrou o pesado edredom e desceu da cama, o corpo coberto por um pijama gelo de camisa e calça compridos. Ele caminhou descalço pelo quarto e foi até o sofá. – Seus pensamentos estão te impedindo de adormecer? É mais ou menos o que acontece comigo. É uma pena eu ser obrigado a ler meus pensamentos. – Ele deu um sorriso.

– Seria bom poder bloqueá-los – Erik virou-se e olhou Charles, estreitando de leve os olhos. Não sabia exatamente o motivo de sua pequena insônia. Nos campos de concentração, ele tinha sérios problemas para adormecer, porque ficava em alerta constante. Mas, naquelas circunstâncias, não havia motivos ou medos para dormir mal. Verdade que, às vezes, ele tinha pesadelos, mas sequer teve tempo para isso naquela noite, porque, de fato, não havia sequer sentado na cama.

– Infelizmente, meus pensamentos não fazem parte da minha mutação. Fazem parte de mim, meu amigo. – Charles fez uma pausa. – E você, o que anda pensando, Erik?

– Por que não descobre por si mesmo?

Xavier riu baixinho, achando graça. – Não saio por aí lendo os pensamentos dos outros indiscriminadamente. Pelo menos, não sempre... Nesse caso, é melhor ter autorização.

– Nesse caso, então, é melhor deixar para lá. – Erik desencostou-se da parede ao lado da janela e andou um pouco pelo quarto. A cama era grande e confortável, havia muitos livros e a luz quente inundava o ambiente cuja decoração escura proporcionava um clima agradável.

– É algo que eu não posso saber?

Erik passou os dedos nos cantinhos da boca, um sorriso o denunciando.

– Pelo jeito. – Xavier o olhou de lado, tentando desvendá-lo sem ser obrigado a usar da força bruta. Ou algo do gênero. – Vamos lá. Me conte. Ou acha que posso ler seus pensamentos? – Sugeriu com ironia.

– É uma pena eu não poder ler os seus. Seria mais fácil. – Erik sentou-se no sofá de três lugares, deixando um espaço entre ele e Charles. – Mas você nunca leu minha mente, antes?

– Depois que te conheci melhor, apenas com sua autorização. – Ele se mexeu um pouco. Estava com vontade de tomar chá, mas faltava um pouco para ir fazê-lo. – Normalmente sou assim com as pessoas mais próximas. Veja a Raven. Eu nunca li a mente dela.

– Hum... E nunca se interessou em ler minha mente sem pedir?

– Uma vez ou outra peguei fragmentos, mas foi acidental. Nada relevante, então acho que não conta.

– Como o quê?

Charles apoiou-se no encosto do sofá e segurou a cabeça com os nós dos dedos. Erik estava peculiarmente curioso quanto aos seus poderes. Já havia feito uma ou outra pergunta anteriormente, mas nunca havia se deixado levar pela curiosidade. Se bem que, Xavier sentia um certo “quê” de pessoalidade naquelas perguntas. Lensherr queria saber sobre ele mesmo, não sobre os poderes em si.

– Nada importante.

– Acho que está mentindo.

– Oh não, não, Erik. Não estou mentindo. – Charles se ajeitou mais confortavelmente no sofá. Lensherr estava sentado de lado, com um dos joelhos para cima, dessa forma, capaz de olhar Xavier de frente. – Veja bem. Existem algumas mentes com uma força extraordinária. Tão grande, que seus pensamentos às vezes são captados pela minha cabeça acidentalmente. Talvez eu ainda precise controlar melhor meus poderes para poder bloquear tudo, mesmo as mentes mais poderosas...

Erik ficou ligeiramente feliz com aquela observação. Não demonstrou através das expressões, mas aquele era um bom elogio.

Charles estava mentindo. Mas, só um pouquinho. Digamos que ele estava “omitindo”, não porque achava que os pensamentos de Erik eram irrelevantes, mas porque a força daqueles sentimentos era muito grande para entrarem em pauta num momento sério como o que estavam enfrentando. Iria começar a treinar os jovens mutantes logo pela manhã.

Comentar com Erik o tipo de palavras aleatórias e comprometedoras que escapavam da mente dele de vez em quando não parecia a melhor opção no momento.

Azuis. Sorriso. Maldito. Lindo. Bondade. Incrível. Tentativa. Irmãos. Confuso. “Eu queria que...”, sem nunca saber o final.

Obrigado.

Obrigado...

Charles piscou os olhos, distraído, na direção de um Erik bastante concentrado em olhar em sua direção.

– Uma moeda por seus pensamentos? – Disse Lensherr.

Xavier sorriu. – Nada, meu amigo. Estou apenas pensando no quão agradável é ter sua companhia.

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