Penas Negras
1 Capítulo 1
Notas iniciais
UM
Os olhos de Victoria fitavam o vazio do horizonte, seus imensos olhos azuis procuravam a razão daquilo tudo, mas só encontrava o silêncio como resposta. Uma mão afagou seu ombro e disse-lhe “Filha, está na hora de ir todos já se foram.” Irmã Joana estava a seu lado confortando-lhe.
“Eu sei que ela vai aparecer irmã, eu sei disso”. Disse Victoria com um sorriso fraco no rosto, a irmã limitou-se à fitá-la com um olhar desesperançoso.
“Sim minha querida é o que todos queremos.” Atrás os sinos da igreja badalaram a fabulosa igreja de São Miguel Arcanjo, aos poucos os fiéis deixavam a longa escadaria e davam passos rápidos ao perceberem a chuva se formando sobre eles. Entre eles um casal jovem a mulher era alta magra e o homem também, estavam de braços dados e se dirigiram à Victoria.
“Victoria!”, disse a mulher seu nome era Carla.
“Carla... eu...”
“Tudo bem, não precisa dizer nada eu só queria ver como você está.” Carla afagava as mãos de Victoria e seu marido apenas lhe dava uma olhar aconchegante.
“Obrigada Carla, Leandro, eu estou bem na medida do possível.” Victoria baixou os olhos como se tentasse esconder algo. “Bem.. huh, eu sei que vocês gostam muito da Clarissa e eu entenderia se...”
“Shhhh, não vamos falar sobre isso agora, por favor. Ainda é cedo quando você estiver pronta poderemos conversar, mas saiba que sempre a ajudarei em tudo que for possível, pode contar conosco”
“Carla está certa. Victoria você tem nosso número, se precisar de nós, estaremos à disposição” disse Leandro. Os olhos de Victoria continuavam impassíveis como se estivessem cristalizados, como se em algum lugar lá dentro ela não desse a mínima para o que diziam. Mas com algum esforço conseguiu falar. “Hum.. obrigada por tudo”. E virou-se com irmã Joana para ir embora.
O orfanato estava vazio agora. O pátio vazio, algumas crianças no corredor outras na cozinha. Não passavam de dez no total, para um orfanato que antes abrigava 50 a 60 crianças. Victoria passeava nos corredores com irmã Joana. “Isso tornar as coisas mais tristes ainda, não posso acreditar que esse lugar... esse lugar vai virar pó.”
“Eu não seria tão pessimista, acho que eles vão aproveitar a casa, talvez tirem o piso velho e essas madeiras podres”. Disse irmã Joana tentando ser otimista. O orfanato era mantido pela congregação d e irmãs há mais de 70 anos, era uma imensa casa com 20 quartos de hóspedes, corredores infindáveis, duas copas, uma cozinha, um lindo jardim, tudo em dois andares. Sempre fora cheio de crianças, agora estava silencioso e calmo.
“Irmã, acha mesmo isso? Desde que essa casa foi vendida já sinto como se não existisse mais.” A casa agora parecia escura podia-se ouvir os passos dos outros a metros de distância, a casa era um eco enorme. Victoria subia as longas escadas enquanto a irmã ia à cozinha ajudar no almoço. Seus olhos procuravam despedir-se de cada centímetro daquele lugar do ultimo batente que tinha um piso solto, do cheiro de madeira das escadas. Passara toda sua vida ali, nunca conheceu os pais, a única família que tinha era sua irmã Clarissa de nove anos.
Victoria entrou no seu quarto era uma das poucas que tinha quarto único sua cama estava impecável como sempre a janela com as cortinas abertas revelava a chuva ainda se formando lá fora, ela abriu a janela sentiu o cheiro da chuva e fechou novamente. O relógio da cabeceira marcava onze horas, o calendário logo acima marcava o dia quinze de outubro fazia exatamente três meses do desaparecimento de Clarissa . Um nó se formou em sua garganta e Victoria se jogou sobre sua cama abafando um grito, seus olhos ficaram vermelhos e não pôde conter seu choro, a culpa e sensação de impotência tomaram conta de sua alma. Seus dedos apertavam o travesseiro com força como se fosse aliviar sua dor, no fundo ela sabia que as chances de ver Clarissa novamente eram mínimas. Nos primeiros dias não suportou, chegou a beira da loucura, todos estavam preocupados com ela, mas ao perceber que estava sozinha no mundo e que logo ia perder seu lar, decidiu se fazer de forte. “Dezesseis anos, dezesseis longos anos...” sussurrava para si mesma. O limite de idade do orfanato era doze anos, mas por motivos de força maior Victoria conseguiu passar mais quatro e teria passado mais senão fosse à venda da casa. As irmãs não tinham mais como sustentar as despesas, então venderam e aos poucos as crianças foram saindo umas adotadas, outras para outros orfanatos, dali à um mês tinha que estar tudo entregue e as poucas crianças que restaram seriam enviadas também para outros orfanatos.
Victoria ainda soluçava quando se levantou e foi tomar banho, só tinha um banheiro naquele andar era enorme e todo branco estava limpo e com cheiro de cloro ainda, Victoria escolheu uma ducha fechou a porta e abriu o chuveiro enquanto se molhava seus olhos se fechavam e todas as lembranças de três meses atrás voltavam. O grito de irmã Dolores. “Você não pode Victoria você não pode” dizia Clarissa enquanto andava pelo jardim. “Não posso o quê?”
“Não pode entender o que vejo” ela disse com um sorriso. “Chega de brincar Clarissa tenho que ensaiar com o coral” e Victoria caminhou até à capela com seu violino a música soava fina e triste, enquanto as crianças do coral se ajeitavam Victoria ouviu o grito de Irmã Dolores algo como “Aiiiaaa!!”, ela correu para fora onde era o jardim, mas não havia sinal de irmã Dolores nem Clarissa. De repente um click. Um click?
Victoria abriu os olhos a água estava mais forte, ela tentou fechar mais a torneira do chuveiro, em vão, estava emperrada. Tentou mais uma vez com mais força então começou a diminuir, quando ela viu uma sujeira no seu dedo, limpou, mas tornou-se a sujar. Então percebeu que não era bem sujeira olhou para cima, o chuveiro jorrava uma água negra da cor de petróleo. A principio ela pesou que fosse sujeira, mas a tal sujeira simplesmente não acabava, era uma cor muito densa. Seus olhos se arregalaram e a água foi ficando grossa espessa, seu coração palpitou , Victoria deu um grito e saiu para se enrolar na toalha e correr dali. Com alguma dificuldade conseguiu abrir a porta da ducha, agarrou-se a toalha branca que ficou preta quando ela tocou nela. Victoria ficou apavorada, mas não tinha escolha, no desespero enrolou-se e já saia do banheiro quando irmã Dolores à viu com uma cara assustada. Victoria já estava correndo no corredor arfando e branca como papel. “Victoria!” gritou Dolores. E de repente bum! Victoria caiu na porta do seu quarto.
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