Penas Brancas
1 Penas Brancas
Notas iniciais
i.
Eu caminho lentamente pela velha cidade abandonada nesse meio de nada. Mais uma vez, a tarde estava fria. O resultado do inverno que chegou e que em breve me faria ausentar do velho vilarejo que eu tanto gosto. Eu não lembro exatamente como e nem quando eu cheguei aqui. Não sei como encontrei esse lugar ou como foi quando eu o conheci. Sei apenas que é o lugar que eu mais amo nesse mundo inteiro. E que nada poderia me afastar dele. Um dos pontos positivos de ser uma criatura amaldiçoada, como eu, é que às vezes a maldição pode lhe render surpresas agradáveis. No meu caso, não envelhecer ou não poder morrer de causas naturais me rende tempo. Algo que para mim se tornou precioso desde que encontrei o cara no topo da abadia.
Caminho descalça por entre as ruínas da entrada da velha igreja, que vem resistindo ao tempo tão imponente e tão bravamente quanto eu mesma. Me apresso pulando algumas pedras caídas da parede norte e tomo cuidado para não pisar no vidro estilhaçado do vitral que a muito tempo veio ao chão. Conheço o caminho bem nessa altura. A biblioteca. Era um espaço grande e cheio de livros nas mais variadas línguas e com as mais variadas historias. Ultimamente eu lia com meu companheiro um livro cujo nome estava apagado demais para se ler. Contava a história de um rapaz que decidira viajar o mundo para roubar para sua amada uma estrela cadente. Eu já a tinha lido antes de conhecer o cara no telhado. E agora, estava lendo para ele.
Não demora muito para que eu finalmente alcance o fim do lance de escadas da torre do relógio. Ganho o exterior da velha construção, equilibrando-me até o canto, onde me sento ao lado da velha gárgula solitária que havia ali. Encosto a lateral de meu corpo ao corpo de pedra e sorrio olhando o horizonte. O céu estava pintado de alaranjado, de modo que eu não tinha muito tempo.
- Eu sei que demorei um pouco mais hoje. Me desculpe. Os dias estão ficando cada vez mais lentos. — digo em um tom inebriante de voz, parte da minha maldição. Pelo menos no inverno. — Onde foi que nós paramos?
Acho finalmente a página que havia terminado. Antes de começar, olho para o lado e afago o rosto em carranca que vislumbra a paisagem ao longe. Eu sei que ele pode me entender. Eu posso não saber se ele realmente está me ouvindo. Mas sinto que aquela figura, assim como eu, possui alguma magia em si. Coisas que só quem carrega o estigma de uma maldição no corpo pode entender. Captar. Pressentir. Suspiro com aquele aperto no peito e a vontade de chorar quase que estrangulando-me. Mas contenho-me. Tenho pouco tempo. Preciso vencer pelo menos um capítulo ainda hoje. Antes de voltar para o lago. O meu lago. Antes de ser forçada a forma de cisne por mais uma longa e enfadonha noite.
ii.
Sinto meu corpo formigar. É sinal de que, finalmente o sol está se pondo. Sinal de que a mãe Lua está, finalmente, assumindo o seu trono como a grande matriarca de todos nós, criaturas da noite. O simples fato de estar tomando ciência do meu corpo já me dá um sinal de que em alguns segundos poderei sair do meu posto solitário e checar os arredores da abadia. Algo que eu realmente gosto de fazer. Embora eu tenha sido criado para sempre estar alerta e proteger cada ser vivo dentro dos limites da cidade das forças do mal, há muito tempo minha vigília tem sido vazia e sem sentido. A mais de cem anos o ultimo humano nesta cidadela foi embora. E embora ninguém mais se lembrasse de que nós ainda existíamos para proteger, é sempre doloroso pensar que não sirvo para mais nada.
Estico o corpo e me espreguiço, sentindo o frescor da noite em meu corpo, agora em forma humanóide. Estico minhas asas — que são brancas como o luar — e sorrio. Olho para o alto e faço um aceno ligeiro para a lua, desejando-lhe uma boa noite. Inclino o corpo para frente e deixo cair até que, a centímetros do chão, abro as asas e dou um impulso no ar. Não demora muito para que a cidadela lá embaixo fique pequena e desapareça no borrão da noite. Vôo o mais alto que a minha maldição me permite e com os olhos de águia ao qual minha espécie dispõe, observo em derredor. Nenhum sinal de demônios. Como sempre. Demônios são criaturas que se alimentam da alma humana. E nenhum deles teria interesse em uma cidade abandonada.
Ainda assim, não consigo parar de procurá-los. Noite após noite. Pois sei que no dia em que eu avistar um, também significaria que um humano está aqui. Sendo assim, minha missão seria irrevogavelmente reestabelecida e o motivo pelo qual fui criado seria renovado. Observo lá embaixo o reflexo da lua nas águas tranquilas do lago que fica logo no centro da cidade. Sorrio e em um movimento fluído me lanço em direção as águas tranquilas. Pouso nas margens do lago e caminho tranquilamente até a macieira que cresce solitária ali. Como faço todas as noites, me sento debaixo de suas frondosas folhas e fico a observar o espelho d’água.
Meu coração se enche de alegria por que ele ainda está ali. O cisne. O meu cisne branco. Eu sei que é incomum para essa época do ano ele ainda estar aqui. Ainda não ter migrado para um lugar mais quente. E não posso me sentir mais feliz por isso. Sinto que de uma maneira ou de outra, ele está aqui por mim. Mesmo que eu, uma criatura amaldiçoada, não mereça esse tipo de atenção.
Em breve eu sei que ele vai voar. Não sei quando vai voltar para cá. Talvez não volte e eu esteja fadado a estar preso aqui, solitário, até o fim dos tempos. Mas enquanto esse dia não acontece, olho mais uma vez para a lua e movimento meus lábios, dedicando-lhe o meu mais profundo e sincero: “obrigado”.
iii.
Está frio demais. Não posso mais ficar aqui. Estou sentada no meu lugar de sempre, olhando o horizonte em completo silêncio. Não posso mais ficar aqui. Me levanto com cuidado me apoiando nos ombros de pedra da gárgula solitária da abadia. Passo os dedos lentamente por suas asas de pedra. Sempre imaginei que suas asas, assim como as minhas, são brancas como a luz. Sinto-me confortada ao pensar nisso. Quem sabe em outro universo ou outra dimensão nós não somos um par. Almas gêmeas que realmente podem se tocar. Carne com carne. Meus lábios aos dele.
Me abaixo lentamente e beijo a pedra esculpida. Faço um afago em seu rosto e oferto-lhe o meu adeus. Me dirijo ao meu lago de verão no exato momento em que o Sol começa a dar lugar em seu trono para a Lua. Olho uma ultima vez para trás, onde há a abadia aos pedaços e meu anjo de pedra. Caminho pelas águas até que meu corpo é novamente transformado em ave. Sinto minhas pluma alvas refletindo a luz da lua e tranquilamente levanto meu vôo migratório. Ganho o céu estrelado. Sigo navegando o vento, pensando em nada mais além dele. Do verão. O anjo no topo da abadia.
Fale com o autor