Pelotão LV

2 Chapter II - Marked.


Eu me sinto tão leve quanto uma pena. Flutuando em uma branquidão sem fim. Não tenho noção de tempo, de espaço... nada.
É agoniante, desesperador. Mas ao mesmo tempo tão bom. É como se eu não existisse, ou seja, sem problemas, uma paz sem fim. Sem pertubações para me atormentar, neste estado de topor, eu me sinto bem.
Estou flutuando pelo rio perto de casa, sendo levada pela correnteza suave...
O barulho de bip's de hospital invade minha paz. Começo a sentir meu coração bater acelerado e a ponta dos meus dedos formigarem. Forço-me a continuar tranquila.
Uma pétala da flor preferida da mamãe sendo levada pelo vento...
— Srta. Hooper? Consegue me ouvir senhorita? — uma voz masculina, grossa e meio assustadora, pertuba meus pensamentos leves.
Bem que eu não queria!, resmungo mentalmente.
Quem estaria me chamando? Não reconheço a voz, mas algo em mim treme de medo. Medo?
Oh, meu Deus.
— Harmony? — outra voz masculina me chama. Essa era mais suave, sussurrante. Alguém estava chamando-me baixinho, sussurrando no meu ouvido, como me conhecesse, como se...
Aquela voz... eu conhecia aquela voz!
A imagem de um loiro, com um uniforme do exercito, parado na entrada da minha pequena cabana em Forks invade minha mente.
"Capitão Taylor".
Meu coração pulsa forte dentro de mim, batendo tão rápido quanto asas de um bem-te-vi. Sinto as palmas das minhas mãos começarem a suar um pouco.
Algo me puxa em direção a voz. Por mais que eu lute, por mais que eu queira continuar naquele estado tranquilo, sou puxada violentamente até o mundo real.
Respiro fundo, temendo o que estava por vir.
Abro os olhos, piscando várias e várias vezes seguidas. Aquele lugar era estranho e assustadoramente organizado. Um mini hospital. E eu estava no centro, sendo observada.
Procurei algum rosto conhecido, em vão, claro... bom, até que...
Reconheço a figura loira ao meu lado.
— Soldadinho? — pergunto, minha voz falha. Vejo o loiro revirar os olhos, porém parecia aliviado.
— É Capitão. — ele diz, levemente irritado. Mas eu conseguia ver um quase sorriso ali.
— Tanto faz. — falo, dando de ombros — onde eu tô? — olho com desprezo para as pessoas presentes — quem são vocês?
— Senhorita Hooper, sou o Marechal Xavier Suresth. Estou aqui para lhe explicar que... — e bla, bla, bla. Eu tinha acabado de acordar de um ataque em minha própria casa e esse cara não para de falar? Sério isso?
Bom, tudo que eu consegui absorver daquele monólogo foi o que basicamente o Capitão EUA tinha dito antes. Eu iria ser treinada pelo pelotão sei lá das quantas por um tempo (obrigatoriamente) e depois decidiria o que fazer (me engana que eu gosto).
— Tudo bem. — resmungo, com a cara fechada. Talvez fazer cara de mal intimidace um pouco eles. Era tudo o que eu poderia fazer. Por hora.
Fui escoltada por vários soldados até o banheiro e quando cheguei lá quatro "soldadas" com caras de quem não se diverte a muito tempo me deram roupas. Fiz tudo o que tinha para fazer (me sentindo o mais desconfortavel possível, devo acrescentar) e vesti a roupa mais sem graça da minha vida. Uma regata branca, uma calça camuflada, jaqueta militar e coturnos. Socorro.

***

— Acorda, soldado. — o loiro que eu mais odeio atualmente me balançou, tentando me acordar.
Bufo e fico sentada direito.
— Meu nome é Skye. E eu não sou um soldado. — resmungo, coçando os olhos. Então aquela merda toda não foi um pesadelo? Caramba.
Estávamos em um helicóptero, pousando em um campo aberto. Bom, nem tanto. Muros enormes cercavam toda a área. Alguns prédios se erguiam mais a frente, todos cinzas e sem graça.
É incrível, isso só piora.
— Então, Harmony... — o loiro quebrou o silêncio, mas eu logo o interrompi.
— Jesus, pare de me chamar assim! — sinto minhas bochechas esquentarem — eu odeio esse nome.
Ele parecia querer perguntar o por que, mas logo balancei a cabeça, aquilo não era uma boa idéia.
— E como seus amigos te chamam? — diz por fim.
— Eu não tenho amigos. — a expressão do homem se tornou triste, quase beirando a pena. E isso eu não queria, então dei um suspiro e disse — mas pode me chamar de Skye.
Ele logo sorriu, feliz com minha boa vontade. Parecia até que tinha feito uma grande conquista. E, por impulso, eu sorri de volta.
— Você tem um belo sorriso, deveria sorrir mais vezes. — comenta, como quem não quer nada.
— É o que dizem. — respondo no mesmo tom.
— E por que não faz o que dizem?
— Verdade, eu tenho muitos motivos pra sorrir, sabe? Deveria sorrir mais. — disse, sarcástica.
— Talvez aqui você arrume alguns motivos para sorrir.
— Quem sabe. — falo, sem convicção. A única coisa que poderia me fazer sorrir aqui seria a comida. Se bem que dizem que a comida daqui não é lá essas coisas. Tipo de astronauta. ECA.
Ficamos mais um tempinho andando, mas o silêncio durou pouco. Chegamos a um prédio em que estava escrito "dormitório" bem grande e azul desbotado no topo. Íamos entrar nele, só que um cara nos parou, entrando desesperado na nossa frente.
— Senhor, temos problemas. — disse.
— Que tipo de problemas? — pergunta o Capitão.
— O Dylan, senhor. — o cara revira os olhos rapidamente, parecendo com raiva — de novo.
— O que foi dessa vez? — diz o loiro, parecendo esquisito.
— Alguns equipamentos lá em baixo foram queimados. Ele foi pra ala sul logo depois e deixou a bagunça lá. — queimados? Estamos lidando com um piromaníaco aqui?
— E o Marshall? Onde está? — o loiro pergunta e sinto o vento se agitar ao nosso redor. Estranhei a reação, já que estava tudo calmo um segundo antes e, bom, eu não fiz nada.
— Ele está na praia, lembra senhor? Amanhã ele vai voltar.
— Que ótimo mês para ficar de férias. — bufou o loirinho.
— Ele não tem culpa, senhor. — diz suavemente o moreno — você sabe.
— É, eu sei. — eu percebia a tensão passando por todo o seu rosto.
Ver ele daquele jeito me fez querer aliviar o clima.
— Que dó de você, soldadinho. — falo — já não basta eu perturbando sua cabecinha loira.
— Acredite, você é o menor dos meus problemas. — ele diz, passando a mão pelo cabelo — bom, vou lá eu mesmo. Mostre o dormitório para ela e onde ela ficará. Volto logo. — e sai.
— Vamos lá. — o desconhecido sorri simpaticamente.
Assinto e sigo ele para dentro do prédio.
— Quem é esse tal de Dylan? — pergunto, curiosa.
— É irmão gêmeo do capitão. — diz e eu paro, chocada. Um Caps 2?
— Uou. — disse, imaginando uma copia do loirinho e recomeço a andar — E ele também é capitão?
— Dylan? Capitão? Nem pensar! Ele era do FBI, mas saiu, desde então fica aqui na base, abre aspas, ajudando, fecha aspas. — responde, parando em um andar. 5.
— Por que esse sarcasmo? Ele não ajuda? — insisto, tentando ser tão rápida quanto ele. Já estava no meio do corredor!
— Ele mais atrapalha do que ajuda. É um excelente agente, mas péssimo em manter a ordem. Ele não segue regras, não cumpre combinados e detesta receber ordens. — despeja, com desprezo — se não fosse tão talentoso, seria um peso morto.
— Ah. — digo, sem saber o que dizer. Mordo o lábio inferior, ansiosa para ver meu novo quarto.
— Bom, bem vinda ao ninho. — diz o moreno, abrindo a porta de um quarto com "5F" pintado.
— Parece tão... Sóbrio. — digo, murchando. Esperava algo. Qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo.
— É. Mas você pode decora-lo do jeito que quiser. — diz, tentando me animar, acho.
— Preciso sair pra comprar coisas de decoração. — falo.
Ele coloca a mão na nuca e me olha culpado.
— Desculpe, mas isso não é comigo. — diz — bom, esse é o prédio onde fica os dormitórios. Pelo menos o dormitório dos soldados. O resto das pessoas que trabalham nessa área moram ao lado da cerca, mas pro sul. Somos divididos em andares e cada quarto é uma letra. Você é 5F, porque está no quinto andar e pela ordem, seu quarto é o F. — explica.
— F de fracassada. — resmungo, me sentando na cama.
— Ou de fabulosa. — fala, rápido. Sério que ele disse isso?
Levanto uma sobrancelha e fico encarando o soldado. Depois de um tempo começamos a rir. Aquilo tinha sido ridículo.
— Talvez seja melhor fracassada. — bufo — fabulosa, fala sério.
— Desculpa, foi a primeira coisa que veio a cabeça. — ri.
— Ei! Você é a garota nova? — um loiro entra no quarto. Um lindo, lindo, lindo loiro. Olhos azuis, cabelos loiros brilhantes, musculoso e sorriso tão branco quanto a neve.
— Bom, eu sou nova aqui e sou uma garota, então acho que sou eu mesma. — comento, estendendo minha mão — sou Skye.
— Apolo. — ele sorri arrasadoramente e aperta levemente minha mão. Que homem!
— É um prazer, Apolo. — falo, tentando não derreter por aquele deus grego.
— Ah, é verdade. Eu nem disse o meu nome. Eric. — o moreno sorri. Sorrio de volta.
— Então... E agora? — pergunto.
— Bom, hoje é sábado, metade do dia é nossa folga. — diz Apolo — você deu sorte, perdeu a corrida. Agora pode fazer o que quiser, tem tempo livre até segunda.
— O que tem de bom pra fazer aqui? — pergunto, deitando na cama.
Apolo se joga do meu lado direito e Eric do esquerdo. Que folgados.
— Olha, várias coisas, na verdade. — começa Eric.
— As piscinas sempre estão abertas para uso. — continua o loiro — menos quando estão sendo limpas.
Eu e Eric nos olhamos, reprimindo o riso.
— Faz sentido. — comento.
— Tem a sala de musculação, no andar de cima. — diz Eric.
— E no de cima desse, a biblioteca. — completa Apolo.
— Entendeu? Prédio 02, primeiro andar piscinas, segundo musculação, terceiro biblioteca. — repete Eric.
— OK. Acho que entendi. — digo — algo mais?
— A sala de jogos, claro. — Eric sorri.
— A parte mais divertida no Lado de Cima. Tem quadra, jogos de tabuleiro, vídeo games, computadores e tal. — descreve o loiro, empolgado.
— Lado de cima? O que isso significa? — pergunto.
— Nada. — diz Eric, sua voz mudando levemente o tom.
— Por enquanto. — diz Apolo, no mesmo tom.
— Sei... — suspiro — tanto faz. Minha cabeça está bagunçada demais para ser curiosa. Então, algo mais?
— Hm, não. Só isso mesmo. — responde Eric.
— As vezes tem algum governante ou algo do tipo que vem fazer algum discurso chato ou conhece a base. — conta Apolo — mas no geral aqui é legal. Todos são muito legais, mesmo.
— Eu esperava algo mais... Agitado. — comento — até agora só vi vocês.
— É que a maioria foi pra algum bar ou algo do tipo. — fala Eric — alguns foram ficar com a família.
— Ah. — falo, sem saber o que dizer. Nem adianta pedir para sair. Sei que estou presa.
— Que tal irmos comer? Daqui a meia hora já é o almoço mesmo. — sugere Apolo, se levantando.
— Parece bom. — concorda Eric e se levanta também.
Olho para eles e parece que algo se quebra dentro de mim. Eu estou em uma base do exército. Dependendo de outras pessoas. Presa. Sozinha (como sempre, mas OK).
— Eu quero morrer. — resmungo e coloco as mãos no rosto. Acho que estou desabando. — quero sair daqui. Quero desaparecer!
Sinto eles sentando cada um de um lado da cama. A mão de Apolo aperta a minha e Eric da uns tapinhas no meu ombro.
— Sabemos o quanto é difícil para você estar aqui, Skye. Sentimos muito que tenha passado por tudo que passou e por isso. — diz Eric.
— Mas queremos que saiba que estamos nessa junto com você, que agora, loirinha, você é uma de nós. — diz Apolo — isso quer dizer que vamos segurar o arame farpado para você passar, te dar cobertura e deixar o último pedaço de bolo.
Reviro os olhos e seco as poucas lágrimas que insistiam que cair.
— Obrigada, rapazes. — rio um pouco — vocês são demais.
— É um dom. — Apolo diz, ao mesmo tempo que Eric falava:
— Não mais que você.
Rimos e eles me levantaram, me empurrando porta afora.
Talvez, só talvez, ficar aqui seja suportável.

Notas finais
Depois de tanto tempo sem postar, cá estou eu novamente. Tudo por causa dos leitores no Spirit, mas decidi postar aqui também. Talvez alguém esteja lendo, afinal. Enfim. Beijos!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.