Pelos Meandros do Mal
20 Capítulo 20
Notas iniciais
POV Guilherme
– Guilherme, precisamos conversar. Agora.
O que fazer quando seu pai divino que sempre aparece nos momentos de desgraça da sua vida vem pedir para conversar com você?
Bem, você pode deduzir uma coisa: você está completamente ferrado.
Fiz a minha melhor cara de emburrado e “eu não gosto de você e não quero falar com você”, mas o segui conforme Hermes se afastava de meus amigos. Apesar de eu estar razoavelmente melhor agora, não era como se eu não sentisse uma dor desgraçada do Hades, e não fui grandes coisas ao desmaiar alguns minutos atrás. Só que agora parecia que eu tinha menos 0,1% de chance de cair duro no meio da missão.
Viva!
– O que é? – Eu perguntei, num tom mau humorado. Hermes revirou os olhos.
– Eu te disse. Eu te disse.
Franzi o cenho.
– Do que você está falando?
– Da menina, garoto! Eu acho que fui bem claro quando falei para ficar longe dela e não ser seu amigo, não fui? Eu...
Quase dei uma gargalhada irônica. Digo, quase mesmo, porque estava sem forças demais no corpo e acabei dando uma risada que pareceu mais uma tosse asmática.
– Espera aí, cara. – Falei. – Você tá dizendo que a Carol, a irritada, indefesa e inocente Carol, foi quem me transformou nesse morto-vivo ambulante? Só pode ser brincadeira.
Hermes apertou os lábios como se estivesse com medo de dizer algo. O que foi um tanto bizarro, devo dizer.
– A essa altura, pensei que já tivesse percebido que ela não é tão inocente assim.
Grunhi. Odiava quando as pessoas não iam direto ao ponto, isso não era bom para a minha lentidão de intelecto – para não dizer lerdeza.
– Ok, ela recebeu a bênção de todos os deuses por causa de alguma coisa com a mãe dela, mas isso não faz dela perigosa, e não é necessariamente por causa dela que estou “doente”. – Fiz aspas no ar com os dedos e Hermes bufou, me puxando pelo braço de volta para junto dos outros. – Ouch!
Carol, Samantha, Bryan e Clarisse olhavam para nós como se esperassem uma resposta. Eu também queria uma resposta além das baboseiras de meu pai. Ele logo abriu seu sorriso travesso comum e falou:
– Então, prontos para uma viagem até o Mundo Inferior?
...
Acho que isso de meu pai ser o deus das viagens e tudo o mais facilitava bastante as coisas. Ele dissera que uma das entradas para o Hades ficava em Los Angeles e só foi preciso estalar os dedos para que estivéssemos num agradável salão iluminado de um lugar chamado Estúdios de Gravação MAC. “Proibida a entrada de advogados, vagabundos e viventes”.
É, era a entrada para o Mundo Inferior. E no salão tocava uma música de discoteca da época que minha mãe era adolescente que definitivamente me dava vontade de morrer.
– Só uma perguntinha. – Samantha foi a primeira de nós a falar alguma coisa. – Por que teremos que ir para... Hum... Vocês sabem?
– Vocês não. – Hermes surgiu do nada na nossa frente e todos gritamos de susto. – Só ela.
O olhar dele estava fixo em Carol.
– E-Eu? – Ela gaguejou baixinho.
Samantha já começou a ficar toda irritada por causa daquela coisa de a Carol ser “abençoada”, mas acho que tanto Bryan e Clarisse como eu ficamos aliviados por não ter que descer. Tipo, sei que eu estou praticamente chegando lá, mas ainda quero viver muito antes de morrer. Qual é!
– E então, garota? – Hermes ergueu as sobrancelhas.
Ficamos em silêncio esperando a resposta da Carol.
– Eu... Eu vou.
Ela largou a mochila que trazia e ficou com apenas sua faca de bronze em mãos. Devo admitir que ela ficava muito gata daquele jeito, com a aparência de uma guerreira feroz.
Senti uma pontada no peito que fez com que eu me encolhesse.
– Boa sorte. – Consegui dizer com a voz fraca. Ela já estava de costas para nós, mas olhou para mim por cima do ombro e sorriu. Fitei Hermes. Ele me olhava com pena.
– Olha que legal, você nem vai precisar passar por Caronte para entrar. – Ele sorriu escárnio para ela, colocando a mão em seu ombro. – Entrega VIP do próprio Hermes!
E então os dois sumiram.
POV Carol
Muita coisa para ser processada na minha cabeça. Uma hora estou com meus amigos num saguão de um lugar que é supostamente a entrada do Mundo Inferior, e no minuto seguinte estou em um barco guiado por um fantasma, velejando em um rio cheio de óleo e outras coisas mais esquisitas ainda... Bonecas de bebê, diplomas de faculdade, buquês de casamento. Pelo o que eu sabia, era o Rio Estige. Onde as pessoas deixavam seus sonhos nunca realizados por causa da morte.
Acho que o Mundo Inferior não era nada como eu imaginava. Claro que eu pensava ser como nos filmes e nas fotos dos livros de história, com vários esqueletos e fogo para todo lado. Basicamente só era... Escuro, como uma noite sem fim. Ao longe, eu podia ver o palácio de Hades. Pensei em como eu conseguiria chegar lá.
– Ah, não seja estúpida. – A voz de Hermes falou atrás de mim e eu dei um pulo de susto.
– Pensei que tinha desaparecido! – Gritei.
– Aham, e você iria demorar bem mais para chegar até lá. Observe, pequena garota. – O deus sorriu e estalou os dedos.
Senti minha cabeça rodar e vontade de colocar tudo o que tinha comido nos últimos dias para fora. Hermes precisava parar de fazer isso. Trinquei os dentes ao ouvir a voz de Hades, que eu mal me lembrava desde a última vez que todos os deuses estiveram no Acampamento.
– Ora, ora... Se não é o nosso novo brinquedo favorito.
Virei-me para encarar o deus dos mortos. Ele me lembrava um pouco o Hitler, só que com aquela túnica estranha da Grécia Antiga.
– Acho que deveria me sentir ofendida. – Falei.
– Não, não deveria. – Ele sorriu, e aquele sorriso me causou arrepios. Macabro. – Hermes, se importa de eu conversar a sós com a menina?
Hermes suspirou, irritado.
– Só não vá matá-la. Zeus ficaria irritado.
– Ah, mas a hora dela não é exatamente agora.
Do jeito que ele falou, foi como se dissesse “Não agora, mas quem sabe daqui a uns 15 minutos?”. Cruzei os braços e me aproximei, seguindo Hades até a sala dos tronos. Ele ocupou o grande, feito de ossos. O que ficava ao lado era pequeno, em forma de rosa. Perséfone, deduzi. Na primavera e no verão, ela ficava no Olimpo. Deveria ser deprimente para Hades ficar sozinho.
– Caroline. Devo dizer que você me lembra um pouco a sua mãe. Apesar de que ela era mais bonita com a sua idade.
Revirei os olhos.
– Gentil da sua parte dizer isso. Por que eu estou aqui? – Entortei a boca, fazendo a minha cara de mal humorada. – Vou receber outra bênção?
Hades riu com sarcasmo.
– Minha bênção já foi ter impedido que você morresse.
– Impressionante. – Respondi, no mesmo tom de ironia.
– Mas, isso não quer dizer que eu não tenha um interesse especial por você. – Ele disse. – Sei bem o motivo dessa missão. Afrodite não consegue se manter calada por muito tempo e, digamos que, sendo o deus dos mortos, eu sei o que está matando o Guilherme. Esse seu estúpido romancezinho adolescente.
Senti uma pontada no estômago. Os olhos escuros de Hades pareciam entrar em minha alma.
– Você quer a cura, Caroline?
– Quero. – Tentei dizer com a voz firme, mas acabei falando quase num sussurro.
– Então vai precisar fazer algo muito perigoso. Algo que pode fazer você chegar perto da morte. Na verdade, você ficará morta por um tempo, e assim que descobrir a solução, voltará à vida, mas algumas partes de sua alma nunca mais serão recuperadas. Os efeitos colaterais a perseguirão para sempre.
Não era bem isso que eu esperava para resolver o problema.
Valeria à pena me arriscar? Valeria à pena ter que sofrer, mesmo depois que descobrisse o que tanto procurava?
Bem. A culpa era a minha. Precisaria levar as consequências.
– O que eu vou precisar fazer?
– Somente alguém muito poderoso e que já tenha sofrido com o amor lhe dará a resposta. Você entrará na mente de um deus.
Fale com o autor