Pelos Meandros do Mal
19 Capítulo 19
Notas iniciais
Oceano. Ponte Golden Gate. Névoa e neblina por todo canto, apesar de estarmos no verão. É, isso é São Francisco.
Bom estar em casa. Ou não.
Depois de Samantha fazer o favor de sumir, nós ainda tínhamos esse empecilho antes de completar a verdadeira missão: achá-la. Fiquei preocupada, pensando se o atraso não faria Guilherme piorar. De qualquer forma, ele parecia um pouco melhor depois do encantamento de Medeia. E isso me deixava ainda pior.
Bryan parecia ter uma noção de onde era a casa do tal ex da Samantha, ele e Clarisse iam na frente, já que Guilherme podia andar sozinho — mesmo que fosse só por enquanto. Apesar de saber o quão perigoso isso poderia ser, acabei me aproximando de Guilherme. Andamos lado a lado, em silêncio, até que ele soltou:
– Nossa, está perto de mim e não me xingou de burro nem nada do tipo. É um avanço!
Mordi o lábio e encarei meus tênis, tentando lembrar a mim mesma que ele me agradeceria se soubesse da verdade.
– Qual é, Carol, eu percebo as coisas. Eu te fiz alguma coisa? Além de, hum, tudo isso que estamos fazendo pra tentar evitar que eu morra.
– Você não fez nada. – Me apressei em dizer. – Mas dá pra perceber que está melhorando…
Ele deu uma risada seca e balançou a cabeça, me encarando por um segundo. E esse segundo foi o suficiente para ver a dor em seus olhos. Quanta força ele deveria estar fazendo para tentar, de fato, parecer forte?
– Acho que algo naquela coisa toda de Medeia me fez sentir mais forte fisicamente. Mas ainda dá pra sentir, como ácido corroendo meus órgãos e uma bomba prestes a estourar na minha cabeça…
Fechei os olhos e senti um nó na garganta. “Você tem que descobrir uma cura, é por isso que te dei a profecia. Uma chance de salvar o seu amor, talvez o seu verdadeiro amor, Carol”, a voz de Afrodite pareceu um baque em minha mente. "A dor aumenta de acordo à paixão. Você já deveria saber disso.". Nada disso ainda fazia sentido, porque eu não gostava dele, só pensava nele casualmente. Mas a culpa não deixava de ser minha.
Eu nem prestava atenção nos lugares por onde passávamos, até então tudo o que tinha feito era seguir Bryan e Clarisse. Resolvi prestar atenção na paisagem ao meu redor e reconheci aquele bairro. Por sorte, era longe do meu. Não queria correr o risco de ver minha mãe novamente. Só queria ficar longe dela por mais um tempo, por mais cruel que isso possa soar.
Não demorou muito e vimos Samantha, com um garoto muito bonito. Mesmo que eles não namorassem mais, dava para ver que ainda compartilhavam algo, dava para perceber pelo jeito que ele olhava para ela e segurava sua mão enquanto ela enxugava suas próprias lágrimas, os dois sentados na escada na frente da casa dele. Eu poderia ter pensado em muitas coisas, tipo "Como ela veio parar aqui tão depressa? Ela não saiu muito antes de nós e não tem nenhum ônibus ultra-rápido", só que não foi nisso que pensei. Pensei que Guilherme parecia incomodado vendo ela e o garoto. E vê-lo incomodado me deixou incomodada – não com ciúme – também. Ugh.
Ela também nos viu, arregalou os olhos e quis voltar para dentro de casa. Clarisse cruzou os braços, com sua expressão carrancuda usual, e Bryan simplesmente olhou para mim. Eu sabia que Guilherme iria dispensar essa, então mesmo achando aquela garota insuportável, tive consciência de que eu a devia um pedidos de desculpa. Bem, não tecnicamente. Digo, se a mãe dela quis me abençoar, o problema é de Afrodite, e não meu. Argh! Deixe de ser idiota, Caroline. Isso não vai te matar.
– Me espera do lado de dentro, Max. – Ela disse para o garoto, que entrou imediatamente, sem dizer uma palavra. Acho que ela tinha usado o charme para que ele a obedecesse sem pestanejar.
Samantha ficou de pé e cruzou os braços. Ergueu as sobrancelhas para mim, como se esperasse um desafio.
– Eu não vou. – Falou para mim. – Cansei dessa coisa toda de missão.
– Samantha, por favor. – Temtei soar o mais gentil possível. – Eu sei que nós temos nossas, hã, diferenças, mas se você está nessa missão, tem que ter um motivo. Você provavelmente terá um papel mais importante do que pensa. E lembre-se do Guilherme… Ele ainda é seu…
Não consegui terminar a frase. Sei lá o que ele era (e o que significava) pra ela.
Ela pareceu pensar um pouco sobre isso, contorcendo a boca e olhando para o chão. Então soltou um suspiro pesado e entrou na casa do Max.
– Ah, pelo amor dos deuses! – Clarisse berrou.
– Espere um pouco. – Guilherme disse. E com razão. Samantha logo apareceu, com sua mochila nas costas e me olhando com um tanto de sarcasmo, como se perguntasse “E agora, para onde vamos, gênio?”
Ficamos os cinco nos encarando, talvez fazendo a mesma pergunta em silêncio.
– Só eu estou sentindo uma coisa estranha? – Bryan foi o primeiro a se pronunciar. E se ele não tivesse sido mais rápido para segurá-lo, Guilherme teria caído de cara no chão. Só pudemos ver os olhos dele se revirando antes que ele desmaiasse. Com um braço sustentando o irmão, Bryan deu uns tapas na cara dele, dizendo: — Tá brincando comigo? Acorda, Guilherme!
– Não é de propósito. – Clarisse falou, ajudando Bryan a segurar ele. – Esse lugar… Eu não gosto nada disso. Já escutei histórias sobre o Monte Tamalpais…
Eu não prestava atenção nela. Estava focada em Guilherme. Apesar de eu entender o que eles queriam dizer sobre um incômodo repentino, como se os deuses tivessem ligado um alarme para nos expulsar dali, estava apavorada que Guilherme fosse morrer aqui e agora. Ele não reagia. Eu percebi que estava à beira das lágrimas quando choraminguei, segurando seu rosto entre minhas mãos:
– Não morre, por favor, não morre.
– Ótimo incentivo, garota. — Uma voz masculina disse atrás de mim e Guilherme abriu os olhos. Eu nem me dei ao trabalho de virar para ver quem era, tudo o que podia sentir era alívio por vê-lo acordado de novo. Eu poderia dar um abraço nele, mas tecnicamente teria que abraçar Bryan e Clarisse também, o que seria estranho, e além do mais, eu conhecia os riscos. E falando em Bryan e Clarisse… Eles estavam pálidos e com os olhos arregalados. Guilherme parecia apenas confuso.
– Pai? – Ele perguntou, confuso. Virei lentamente para olhar para Hermes.
– Eu lhe avisei, não avisei? – Hermes perguntou, com um sorriso um tanto maroto. Não entendi nada, mas Guilherme parecia saber o que ele estava falando, porque suas bochechas ficaram vermelhas. — Mas o que está feito, está feito. Eu vim oferecer minha ajuda irrecusável, claro. Não poderia assistir o menino morrer, sentado no meu trono no Olimpo e comendo Doritos sem fazer nada.
– Por que não estou surpresa? – Samantha ironizou, e senti seu olhar em mim. Ignore, ignore, pensei.
A aparição repentina de Hermes me fez lembrar dos versos da profecia de Rachel. "Pelos meandros do mal a salvação ficará / Com o auxílio do mensageiro se reerguerá". Será que era isso que ela queria dizer?
Mais do que nunca, tive certeza que estávamos perto da cura.
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