Pelos Caminhos da Magia

3 Por trás do Castelo


Com as aulas quase no fim, tempos de avaliações e prazos para trabalhos escolares chegando ao limite, a escola estava um pouco mais agitada que o normal. Matthew Longstride estava em pé, na ponte de entrada do castelo, de onde tinha boa visão do lago. Era um lugar mais tranquilo, por ficar fora de mão das outras torres utilizadas pelos alunos. Apenas quem saia ou entrava pelos portões da escola em direção a Hogsmeade passava pela ponte. Um pequeno grupo de quintanistas também estava no pátio de entrada, próximo ao extremo da ponte, apenas conversando distraidamente.

Matthew, o estagiário do Auror-Chefe, podia ver um dos aurores de Noah a procura da Varinha pelo lago. Dali de cima, ninguém mais podia enxergar os aurores lá embaixo, além dele, por efeito do feitiço do diretor Steven para manter a missão em sigilo.

O auror caminhava por cima das águas como se estivesse andando sobre chão firme, apontando a varinha para baixo. Um flash azulado varava a superfície do lago e durava alguns segundos no fundo até ficar invisível. De acordo com Noah, a luz azul emergiria sobre a superfície do lago, mas com coloração amarelada, quando encontra o que foi pré-determinado.

Alguns dias já se passaram desde o inicio das buscas e nenhuma luz amarela emergiu. Nenhum dos quatro aurores do ministério parecia desanimar com a tarefa. Todos os dias, durante horas a fio, incansáveis feitiços proferidos lago à dentro contando apenas com a esperança mirrada e a pressa de encontrar os vestígios antes de outrem.

“Por enquanto não sabemos quem está em busca da Varinha. Talvez ainda não saibam que nós também estamos procurando, isso pode nos dar algum tempo”, dizia Noah a Matthew, sempre que conversavam sobre o assunto.

– Bom dia, auror griffino! – disse uma voz áspera atrás de Matthew, tirando-o de seus devaneios, desviando o olhar dos aurores que estavam andando por cima do lago. O estagiário se virou para cumprimentar a voz familiar que o chamara.

Era Daniel, filho do primeiro-ministro Diego Ryder.

– Bom dia, ministro lufano – respondeu Matthew, voltando a olhar para o lago.

– Por que você consegue vê-los e eu não? – especulou Daniel a respeito dos aurores no lago.

– Você é filho de político. Só precisa assinar papéis e dar ordens. A ação fica toda para os aurores – disse o griffino sorridente, apoiando-se no parapeito da ponte.

– Pois eu ordeno que eu veja!

– Primeiro tem que virar ministro de verdade.

– E você, auror de verdade – retrucou.

Matthew e Daniel tinham uma amizade baseada no ministério, quando fizeram estágio juntos no quinto ano. O griffino tornou-se o melhor da turma e, logo em seguida, escolhido por Noah para treinamento específico. O lufano acomodou-se quando o pai, Diego Ryder, se tornara braço direito do ex-primeiro-ministro, antes de ocupar o cargo mais alto do Ministério.

– Acha que vamos encontrar alguma coisa? – olhando para o lago, apertando os olhos na esperança de ver algum auror no lago, sem sucesso.

– Acho que você deveria achar uma ocupação – disse Matthew, sem tirar os olhos do lago.

– E eu acho que você deveria arrumar uma namorada, quem sabe assim fica menos carrancudo. Sua testa já tem mais rugas que a do diretor Steven.

O estagiário continuou sério, ainda observando a luz azulada afundando no lago embaixo do auror que conjurara o feitiço, tão longe que quase se tornava um ponto no meio do lago.

– Que tal... Melissa Albaneze? – continuou Daniel, sorrindo quando percebeu que o amigo havia ficado rígido, apertando a mandíbula. – Ela parece gostar de você, assim como você gosta dela.

– Você não sabe de nada, Daniel – disse o griffino, incomodado com o assunto. Isso divertia o lufano.

– Todo mundo percebe que você tem uma queda por ela, Matt. Se lembra daquele feitiço que você fez a ela no segundo ano? Uma flor que se transformaria em borboletas rosadas quando ela abrisse o cartão... Foi tão lindo – continuava Daniel, deixando as orelhas do colega vermellhas – Pena que as borboletas expeliam fogo pelas asas e quase queimaram metade da sala.

– Vai arrumar o que fazer, lufano! – explodiu Matt, sobre as caçoadas de Daniel. O garoto decidiu ir para o outro lado da ponte, deixando as risadas para trás. Mas em poucos passos, Matthew parou de caminhar subitamente e Daniel ficou em silêncio: Melissa Albaneze estava do outro lado da ponte, vindo de Hogsmeade, com sua bolsinha da corvinal pendurada no ombro. Daniel tinha um sorriso absurdamente largo enquanto Matthew estava travado sem saber nem para onde olhar. Decidiu se apoiar novamente ao parapeito da ponte, mas ele não olhava mais para o lago, nem para o castelo. Matthew ficara cego: enxergava, mas não via nada. Seu coração estava descontrolado, uma veia na testa pulsava visivelmente; ele odiava perder o controle. Todo treinamento que recebera dos aurores e até do próprio Noah a respeito de autocontrole estava indo por água abaixo por causa de uma garota.

De longe, Matthew ouvira Daniel cumprimentar Melissa com um espontâneo “bom dia”, mas era como se ele estivesse embaixo d’água, e as vozes soavam ocas para ele.

– Bom dia, Matt – ele ouviu de a voz doce o cumprimentando da corvina, atrás dele, com seus cabelos compridos e negros cobrindo as orelhas branquelas. Alguns segundos depois ele se virou e, olhando apenas para a bolsa da garota, respondeu com um murmúrio sem jeito.

– Gostou da bolsa dela, Matt? – pressionou Daniel, ao ver o nervosismo do amigo.

– Bonita – respondeu o griffino, dando uma rápida olhada para a garota, logo em seguida pedindo licença. Matt retomou seu caminho, Daniel sorriu para Melissa, que parecia não ter notado o nervosismo do estagiário. Mas ela estava ansiosa quando olhou para Daniel:

– Seu pai está em Hogsmeade! Vindo pra cá. E está atrás de você.

Daniel ficou sério e Matt parou de andar novamente quando ouvira a notícia de que o Ministro estava em Hogsmeade. Os dois amigos se entreolharam e Matthew retomou sua posição séria de antes.

– Ele vai te levar da escola? – perguntou Melissa – É por causa das buscas no lago?

– Contou a ela? – bufou Matthew, caminhando de volta ao encontro dos dois. – Sabe que não podemos contar segredos do ministério!

– Ela é de confiança – se defendeu Daniel, com a carranca da corvina ao seu lado. Matt recuou quando olhou para a garota, mas ainda tentou advertir o lufano.

– Eu não vou abrir o bico – disse Melissa de supetão, calando Matthew no meio de um sermão. E após um breve silêncio, Matt se acomodou.

– Ele vai te levar, certeza. Deve ter detectado ameaça ao ministério e quer te manter em segurança – disse o griffino, notando que estava falando mais baixo que o normal.

– Nós visitaremos você, não se preocupe – disse simpática a corvina.

Matthew ficou imaginando se o ‘nós’ mencionado pela garota o incluía ou apenas os amigos da turma dela. Ele ficara vermelho só com o pensamento de viajar com ela a sós.

– Esta é a última semana de aulas, já entreguei todos os trabalhos e passei em todas as matérias exatamente para poder aproveitar o restinho do ano sem preocupações – reclamou Daniel, pois não queria deixar o castelo e seus amigos.

– Por que não se esconde? – sugeriu Melissa, com sua voz doce e olhar inocente.

Matthew fitou Daniel e ficou surpreso em ver que o amigo estava mesmo levando a ideia em consideração. Matt tentou dizer não com a cabeça, mas Daniel já estava fervendo por dentro. Seu interior estava borbulhando, pensamento a mil por hora, o garoto agarrou a mão da amiga corvina e a puxou com supetão, se certificando se estaria sendo seguido pelo amigo quando iniciou uma corrida desesperada para dentro do castelo.

O griffino de fato estava seguindo-os, mas não tinha a intenção de segurar os dois, apenas os seguiu. Os três entraram no corredor principal do castelo e viraram à direita, do lado oposto do Salão Principal, em direção aos fundos da escola, onde Daniel pretendia chegar para se esconder próximo às masmorras, local usado por estudantes quando fugiam do inspetor e de seus castigos educacionais.

– Dan, eu não estava falando sério! – gritou Melissa sem parar de correr, com certa adrenalina. A garota sempre fora exemplar em sala de aula e nunca levara qualquer tipo de advertência, por isso estava um tanto assustada, mas achando divertido fugir do Ministro da Magia.

Um momento antes de virarem o longo corredor e começarem a descer as escadas, os três ouviram o próprio Ministro dando um berro na entrada principal: “Daniel Ryder, volte aqui!”. Daniel implorou para não ser reconhecido por Diego Ryder, pois achava que não seria uma boa referência estar envolvido em uma fuga infantil com o filho do chefe de Estado das comunidades bruxas.

Mas dobraram o corredor. Matthew viu Kyara Mensen no fim do caminho; uma garota de cabelos quase brancos, de tão loira que era. Ela também era da Griffinória, amiga de Matthew e namorada de Daniel Ryder.

Antes mesmo que ela pudesse se perguntar o que estava havendo, seu namorado, que já estava agarrado no braço de Melissa enquanto corria, agora agarrara a mão de Kyara e a puxou para a corrida. Seus cadernos voaram na parede e ela soltou um gritinho de susto, acompanhando os três na corrida.

Agora Daniel estava entre as duas garotas, agarrado em ambas, puxando as para não deixa-as para trás, seguido de Matthew, que já estava à ponto de empurrar pelas costas as meninas para correrem mais rápido, antes que o Ministro dobrasse o corredor também.

– Para onde? – disse Kyara, sob o alvoroço que estavam causando quando tentavam se desviar dos outros alunos que andavam pelo caminho.

– Masmorras! – respondeu Daniel, sem olhar para a garota, concentrado em se desviar de um grupo de estudantes que saiam de uma sala de aula. Mas o lufano sentiu a namorada puxar seu braço para a esquerda, lado oposto do que ele pretendia.

– Conheço um atalho! – Arfou a garota, puxando Daniel e Melissa, todos de mãos dadas, como uma corrente. Matthew, para não se perder do grupo, se agarrou no outro braço da corvina Melissa. O ato passou quase despercebido pela garota, mas para ele foi como um choque que fez todo seu corpo se arrepiar. Era a primeira vez que sentia a pele macia da garota.

Os quatro estavam agora em um corredor estreito, quase vazio, ficava escuro gradativamente, até que Kyara parou abruptamente, e abriu uma porta de madeira mais baixa que ela. Os três se esbarraram uns nos outros até notarem que a corrida acabara. Daniel entrou pela portinha logo depois da namorada e já se sentiu em queda livre por quase um segundo, até ver que estava rolando em uma grama alta e fofa. Ele ouviu Melissa soltar outro grito antes de Matthew também pular. Daniel se levantou rapidamente, um pouco tonto, até que Melissa chegara em suas costas.

Estavam fora do castelo, à beira da Floresta Proibida. Daniel colocou as mãos nos joelhos para descansar, mas foi surpreendido por Kyara, que o puxou seu braço novamente. Melissa e Matthew seguiram os dois.

– Ainda não chegamos! – disse Kyara, se divertindo com o cansaço dos colegas.

A Floresta ali não era tão medonha, nem muito escura. Eles seguiram pela beira das árvores até o caminho começar a fazer uma curva. A grama era mais verde que o normal por ali, era um caminho entre as costas do castelo e a floresta. Kyara diminuiu o ritmo e agora apenas caminhava. Ninguém dizia nada, apenas tentavam recuperar o ar.

A paisagem era deslumbrante; eles estavam no alto, no pé do castelo, a floresta descia até encontrar o lago. Kyara se sentou e descansou na grama, se encostando na base da escola. O lago era visível por cima da floresta e, até mesmo, o lado de lá da ponte de entrada, por onde o ministro entrara. A garota estava satisfeita em poder mostrar sua novidade para o namorado, e se divertiu com a cara do pessoal, que nunca chegaram ali antes.

– Lindo – disse Melissa, com seu jeito meigo. Kyara sempre observava a sensibilidade da corvina. Tudo nela era elegante. Suas vestes, seu modo de agir, até quando se sentou na grama, era como uma fada pousando em uma flor.

– Me salvou – Daniel se sentou ao lado da griffina loira e a trouxe para mais perto.

– De novo – concluiu ela, dando um beijinho no namorado.

Matthew ainda estava em pé, e ficara constrangido com a cena. Por isso só olhava para o lago, de braços cruzados e ainda recuperando o ar.

– Posso perguntar o motivo da correria? – perguntou Kyara, fazendo os outros se lembrarem da corrida e do Primeiro-Ministro, que uma hora dessas deve estar em algum corredor caçando seu próprio filho.

– Daniel fugiu do pai – resumiu Matthew.

– O Ministro da Magia está em Hogwarts? – estranhou Kyara.

– Veio busca-lo – continuou o griffino, apontando para o amigo sentado – Mas ele não se importa muito com os assuntos ministeriais, nem quer saber se há algo importante ou perigoso acontecendo.

– Não acredito que você está se escondendo do seu pai. Ele é o Ministro, amor. Não viria aqui para falar contigo se não fosse importante – questionou Kyara, fazendo o lufano se sentir um tanto culpado.

– Nós soubemos da vinda do Sr. Ryder e logo começamos a correr – explicou Matthew – Quando o Ministro vem para Hogwarts para assuntos ministeriais, o diretor sempre o espera na entrada do castelo, mas não havia nenhuma formalidade, então concluí que viera atrás do filho.

– Mas quem teve a ideia torta de, simplesmente, se esconder do homem mais influente da Inglaterra? – perguntou arduamente Kyara. Daniel olhou para Melissa, que já estava com as bochechas vermelhas e olhos arregalados.

– Eu não achei que iam me levar a sério – disse ela. Um breve momento de silêncio recaiu sobre eles, mas foi quebrado com a gargalhada da griffina Kyara. Ela não acreditara que acabara de fugir de ministeriais sem saber. Por uma singela sugestão de Melissa, todos foram envolvidos nessa correria toda. Logo a corvina também começou sua graciosa risada até se espelhar pelos garotos.

Matthew se adiantou alguns passos para ter uma visão melhor do lago até achar o que procurava: um dos aurores do ministério andando sobre as águas, lançando repetidamente seus feitiços para o fundo do lago, incansável e tão pequeno por cauda da distância.

– Está vendo eles? – perguntou Melissa, quando chegou ao seu lado. Matthew foi pego de surpresa e não sabia se podia conversar sobre esse assunto com a garota.

– Um deles, só – respondeu ele, olhando para o auror.

– Onde ele está? – perguntou ela, curiosa.

O garoto fechou um olho e mirou o dedo entre uma rocha e uma árvore alta que se destacava das outras.

– É verdade que eles caminham sobre o lago, Matt?

– É verdade. Nosso auror chefe, Noah, nos ensinou,

Melissa ficara impressionada com o fato de Matthew saber andar em cima das águas do lago e pediu que ele ensinasse algum dia.

Daniel e Kyara estavam sentados, observando os outros dois conversando sobre o lago. Quando Kyara comentara sobre o possível novo casal, Daniel demonstrou incredulidade. Ele achava que o amigo era sério demais para Melissa e, devagar demais, para dar início a alguma coisa.

– Você deveria ajuda-lo, Dani.

– Ele é orgulhoso demais. Jamais aceitaria me seguir. Vive no mundo da politicagem e não para de falar no que o Auror-Chefe ensina no estágio.

– Matthew é carente, Dani. Aquele orfanato trouxa não dá o apoio que um pai de verdade daria. Por isso ele se espelha em Noah, seu chefe. Faz quantos anos que ele estagia no ministério com o Auror? Isso, provavelmente, os aproximou. E o Matt é muito bom em tudo que Noah ensina: lembra quando o proibiram de participar dos duelos escolares porque sempre ganhava?

Daniel nunca havia parado para pensar em Matt daquela maneira. Sempre o via como apenas um colega de estágio abitolado com seus afazeres. Isso o fez ter mais compaixão com o colega.

– Talvez ele mereça uma ajuda, então – concluiu Daniel, aos risos da namorada, chamando a atenção dos outros dois, que se aproximaram novamente.

– Até que horas ficaremos aqui? – perguntou Melissa.

Os quatro se aconchegaram na grama sem decidir quando voltariam para o castelo. Depois de uma longa conversa, resolveram que retornariam quando a fome chegasse, já que o almoço seria servido em algumas horas.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.