Pelo Olhar de Chrissie
19 O show em Ealing Art College
Eu e Veronica voltamos nossa atenção para Brian e os meninos, que na ausência de Tim, passou a ser quem dava boa noite ao público. Ele apresentou John e Freddie, o que causou um pequeno protesto e desagrado de alguns.
Ao dizer que tinham um novo vocalista, a banda fez todos os olhares prestarem muito mais atenção em Freddie. O descontamento de alguns, claramente por causa dele, o deixou um pouco triste, dava pra perceber de longe, mas ele não se deixaria abater. Roger e Brian deram a deixa para que ele começasse a cantar, Freddie se atrapalhou com o microfone, quebrando o pedestal, mas ele ignorou a falha técnica e continuou cantando. Não havia um segundo em que ele parasse de se mexer e cantar, tudo ao mesmo tempo.
Era isso que era fascinante sobre Freddie Bulsara, muitas coisas na sua vida (coisas que ele não contava, mas a gente percebia) o deixavam triste, mas ele recusava com todas as forças se deixar a tristeza tomar conta. Ele a enfrentava com sua confiança exagerada e foi aí, ao perceber isso, que eu e os meninos passamos a entende-lo melhor e admirá-lo, vendo que o que parecia ser um dos seus maiores defeitos era um mecanismo de defesa.
No fim, Freddie acabou surpreendendo a cada um de nós que estávamos ali. Aquela era a primeira vez que eu o via se apresentar e era impossível não prestar atenção nele o tempo todo, sua voz era incrivelmente habilidosa, modulando entre as notas da melodia de cada música conforme ele queria e sentia. Os meninos, cada um no seu instrumento e os vocais de Roger e Brian realçavam todo sentimento que Freddie queria passar. Ele se empolgava tanto que chegava a mudar as letras das músicas, o que não passou despercebido por Brian. Sabia de longe o quanto meu namorado era metódico quando o assunto era música e é claro que percebi que o que Freddie fez deixou Brian levemente incomodado. Mas a plateia não notou isso, e continuou vibrando a cada música. Até os mais céticos tiveram que dar o braço a torcer.
—Boa noite meu povo! — gritou Freddie encerrando o show.
Todos aplaudiram os meninos de pé, e os quatro, demoraram um instante para descer do palco para apreciar uma plateia que realmente tinha gostado do show. Eu, Roger e Brian sabíamos que já tinha um tempo que isso não acontecia. John, um pouco mais contido, e Freddie demonstrando mais claramente, estavam em euforia por terem conseguido agradar aquele público difícil.
Então eu os vi descer do palco, Brian e John vieram direto pra nossa mesa, enquanto Roger e Freddie tinham escapulido pra não sei aonde.
—Ah que alívio... — Brian sentou-se com um suspiro.
—Estava mais nervoso que o normal? Confesso que eu também estava — disse John.
—Você sabe porque eu estava nervoso... — meu namorado acrescentou.
—Freddie — disseram os dois ao mesmo tempo.
Nós quatro acabamos rindo, o que fez Brian notar a presença de Veronica.
—Ah oi, desculpa a falta de jeito — ele se desculpou olhando pra ela — estava esperando o John te apresentar.
Deaky fez uma careta, mas entendeu a deixa.
—Veronica, esse é o Brian e a Chrissie você já deve ter conhecido — o baixista apresentou — Brian, essa é a Veronica.
—Oi — ela disse — você é o cara da paz então...
—Cara da paz? — Brian não entendeu.
—Que tenta manter a calma e evitar que a banda brigue — Veronica explicou — segundo o John me contou.
—Ah, eu tento, mas não é fácil — meu namorado riu — quem realmente consegue deixar a gente na linha é a minha doce dama aqui.
Brian completou me dando um beijo na bochecha, senti a face corando. Pensei em dizer alguma coisa pra lidar com a vergonha.
—Então finalmente temos a prova de que a Veronica é real e não uma namorada imaginária — brinquei, lembrando de uma velha piada nossa.
—Eu sei que fiquei ausente e por mais que John me convidasse pra sair com vocês, estava meio sem tempo, sabem como é a faculdade né? — ela se justificou.
—Sim — nós três respondemos juntos, três universitários esgotados.
—Onde o Rog e o Fred se meteram? — perguntou Deaky.
—Ah, eu tenho uma ideia do que Roger foi fazer — Brian falou meio decepcionado — já o Freddie...
Não demorou muito para que o vocalista aparecesse.
—Me chamou? — ele deu um sorriso — desculpa a demora, estava falando com a Mary sobre o show.
Ele apontou para a moça ao seu lado, parecia muito mais contida que o Freddie, mas certamente não era tímida como eu ou Brian ou John. Tinha algo especial sobre o seu olhar, de paciência e bondade, e não era só eu que tinha reparado nisso. Freddie a olhava claramente admirado.
Notei que Brian trocou um olhar significativo com ela.
—Oi Mary — ele foi o primeiro de nós a se manifestar — não sabia que conhecia o Freddie.
—Foi há pouco tempo, Brian — Mary contou — é bom ver vocês tocando de novo.
—É bom voltar à ativa — meu namorado sorriu.
—Então pessoal, detesto interromper vocês dois, mas deixe que eu apresente o resto das pessoas que a Mary não conhece — Freddie chamou a atenção para si, o que acabou funcionando — Esses são John, Veronica (Veronica disse seu nome quando Freddie apontou pra ela), Brian você já conhece, pelo jeito e Chrissie.
—Prazer em conhecer vocês, eu sou a Mary, meio que dei uma de estilista e ajudei no visual do Freddie pro show de hoje — ela explicou pra nós.
—Você é mais que uma mera ajudante Mary — Freddie a corrigiu — é minha amiga, não é?
—É, acho que sim — tinha um certo brilho na voz de Mary ao dizer aquilo.
Depois de um tempo Roger se juntou a nós, acompanhado de uma garota chamada Crystal. Enquanto John apresentou Veronica a todos, Roger não fez tanta questão de sabermos quem era a Crystal pra ele. O baterista tinha uma paquera diferente em cada show que íamos, e nessas horas ficava feliz por Jo não estar mais namorando com ele.
Então começamos a conversar sobre o show, como os meninos tinham tocado em harmonia, disso eles discordaram, cada um por razões diferentes, mas por fim todos concordavam que aquele tinha sido um dos melhores shows do Smile.
Depois de um tempo eles voltaram ao palco para guardar os instrumentos.
—Não vá embora, por favor — Freddie pediu a Mary — prometo que já volto.
—Tudo bem, não vou sair daqui — ela riu um pouco e ele se juntou aos outros.
—O Freddie é sempre assim? — Mary perguntou pra mim e Veronica.
—Pelo que ouvi falar dele, sim — Veronica respondeu.
—E eu posso confirmar por convivência — eu adicionei — mas ele é um cara legal, sério.
— Isso eu percebi — ela disse um pouco encantada — por trás de tanta pompa, tem alguém apaixonado e entusiasmado... Por música.
"E por você pelo jeito..." pensei, mas não disse nada. Respondi a ela com outra coisa.
—Desculpa perguntar, mas Brian parecia te conhecer de algum lugar... — tinha que falar disso.
—Ah é que nós saímos juntos uma vez, só conversamos — Mary contou — mas não nos encontramos mais. Ele costumava ir à loja que eu trabalho.
—Ah sim... — entendi a situação e meu coração ciumento ficou calmo, mas mesmo assim achei necessário acrescentar — eu e ele estamos namorando, e moramos juntos, já faz quase uns dois anos.
—Ah, isso é bom — Mary não notou o motivo de eu ter contado isso, ainda bem — Brian é um cara muito legal e você é legal também.
—Obrigada Mary — sorri — você também.
Veronica trocou um olhar comigo como se entendesse o que eu estava sentindo e me deu um sorriso compreensivo.
Não demorou muito pra que fôssemos embora, nos despedimos de Mary e Freddie que ficaram mais um pouco, e de John e Veronica, que a levaria pra casa, Roger acabou dando uma carona pra Crystal até a casa da moça e por fim nos deixou em nosso apartamento.
Não demorou muito para apagarmos de sono, e eu estava feliz por o Smile estar de volta à ativa de novo.
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