Pelo Olhar de Chrissie
79 Nossa luz
Eu já tinha passado por todo um processo de parto, mas a mesma diferença que senti durante a gestação, sentia agora no momento que meu bebê vinha ao mundo. A dor parecia maior, as dificuldades também, parecia que o tempo não passava, e conforme o suor escorria no meu rosto, o pânico aumentava dentro de mim. Tive dúvidas interiores, se tudo realmente correria bem como tinha prometido a Brian. Por ele, por Jimmy, pelo bebê, não podia desistir. Suspirei de novo, recuperando as forças, pronta pra empurrar mais uma vez.
—Está aqui, ela nasceu! — anunciou a Dra. Carter.
Mesmo assim, ainda estava preocupada, não tinha ouvido nenhum choro.
—É uma menina? — perguntei, contente e surpresa — mas cadê ela, por que ela não chorou? Isso não é normal! Eu, eu quero ver ela, por favor, me deixa ver ela, pra ver se tá tudo bem...
Por uma ironia, minha menininha chorava quando a trouxeram para os meus braços. Quer dizer que estava tudo bem, ela estava chorando, estava reagindo a tudo ao seu redor.
—Calma, calma... — eu olhei pro seu rostinho desesperado — eu sou sua mãe... estou aqui pra te proteger, minha princesinha, calma... você é tão linda...
Mas a minha pequenininha continuava chorando.
—O que é que ela tem? Por que não para de chorar? — ao me ouvir em voz alta, vi o quanto era contraditório ficar preocupada com ela não chorar, e agora que ela estava chorando, estava mais desesperada.
—Nós vamos verificar, sra. May, por favor mantenha a calma — disse a enfermeira tirando minha bebê dos meus braços.
Se não entendesse os procedimentos e estivesse mais forte, lutaria para mantê-la comigo. Tudo que eu queria era poder consolá-la, mesmo não sabendo o motivo de seu choro.
Enquanto recuperava minhas forças, o som do choro foi diminuindo e meu coração desacelerando conforme fui me acalmando. Esperei com toda paciência até vê-la novamente.
Peguei ela com cuidado, a aninhando delicadamente nos meus braços. Seus olhos estavam bem abertos, observando cada detalhe do meu rosto. Nos observamos em silêncio, só eu e minha filhinha. Ela definitivamente parecia mais comigo, mas curiosamente as bochechas me lembravam as de Brian. Seu cabelo fino era loiro, puxando alguns parentes meus.
—Está tudo bem agora... — sussurrei pra ela.
De repente, minha menininha sorriu. Era incrível, eu sempre achei que ela seria a filhinha do papai, mas aqui estávamos só eu e ela, num momento só entre a gente, reconhecendo uma a outra como mãe e filha. Aquele sorriso iluminou meu coração, a minha mente, as preocupações e tristezas que estava sentindo nos últimos tempos.
—Chrissie... — Brian falou meu nome com certa timidez, mas claramente encantado ao ver nós duas — é...
—É uma menina, eu sei, mal pensamos nessa possibilidade... — refleti, o que era estranho visto as brincadeiras com Roger sobre a Rory — mas ela está aqui.
—Eu... — ele ainda hesitava se aproximar — nunca achei que fôssemos ter uma menina, sabe que...
—Eu sei, sei bem, mas eu estou aqui pra te ajudar, não esquece que eu tô aqui, Brian, digo, não só na sua frente, mas sempre que precisar — eu fui compreensiva, todo aquele medo ainda era resquício da culpa — vem, ela precisa conhecer o pai dela.
Sem mais hesitar, Brian apressou seus passos até nós, e observou nossa menina em meu colo.
—Ela é linda, tão linda... — ele tentou pegar uma das mãozinhas dela, bem devagar, e ela acabou agarrando o dedo dele com seus dedinhos — ela... escolhe o nome dela, Chrissie, eu sei que já tinha nomes de menina em mente.
—Na verdade, meu amor, eu tenho um nome perfeito — falei olhando pra ele e depois pra ela — Louisa, minha pequena luz, que levou a escuridão embora.
—Louisa May... — completou Brian — realmente perfeito.
Antes que ele pegasse Louisa, enxugou as lágrimas rapidamente, e ficou num cantinho, somente a observando, tendo aquele momento de reconhecerem um ao outro como pai e filha.
—Eu queria tirar uma foto de vocês agora — contei.
—Não, é o meu hobby — Brian conseguiu brincar — consigo tirar uma foto nossa em casa, te prometo que vou tirar.
—Eu acredito — assenti.
Ele então veio pra perto de mim outra vez, devolvendo Louisa para o meu colo.
—Acha que viu conseguir ser pai de uma menina? — meu marido se questionou de novo — eu mal conseguia falar com garotas quando era mais novo, agora ser pai de uma menina... Será que vou conseguir dar bons conselhos? Será que vou conseguir entendê-la?
—Já esqueceu o que eu acabei de falar, Brian Harold May? — fingi estar brava — estou aqui pra te ajudar, lembra que sermos pais é um trabalho em equipe? Acho que já cuidamos muito bem do Jimmy. E você tá agindo igual o Roger... Falando nele, os meninos e as meninas estão aqui?
—Hã... — a expressão de Brian murchou por um momento — não, eu... estava sozinho lá fora...
—Por que? — questionei, já imaginando a resposta.
Não é só porque todos estavam ocupados com alguma coisa.
—Não consegui ligar pra ninguém, no fundo, não queria falar com os caras... — confessou ele, envergonhado.
—Bendito Hot Space... — suspirei, cansada daquela briga e pelo parto — pelo menos liga pros Taylor, sei que não está brigado com o Roger, avisa eles que a bebê nasceu e eles vão se encarregar de avisar o John, a Veronica e o Freddie.
—Obrigado — Brian sorriu e foi saindo.
—Bri! — chamei antes que ele abrisse a porta — eu te amo, tá? Não esquece.
—Também te amo — ele respondeu sem hesitar e então saiu.
Brian estava me dando dó e eu sabia que estava passando por um daqueles momentos que precisava ouvir um "eu te amo".
Foi um tempo depois que quase todos estavam reunidos para conhecer Louisa.
—Ah que menininha linda... — tia Domi foi a primeira a falar — ela parece com você, Chrissie.
—Também acho — acrescentou Veronica — mas ela tem um pouquinho do Brian.
—As bochechas, não é? — apontei, o que fez meu marido ficar confuso e John e Roger rirem.
—Como assim as bochechas? — questionou Brian — eu achava que era o nariz dela que parecia com o meu. E a cor dos olhos, definitivamente a Louisa tem a cor dos meus olhos.
—Não, o nariz parece um pouco com o dos dois — disse Roger observando a bebê no meu colo.
—Por que não deixam o Jimmy resolver isso? — sugeriu John, que estava mais acanhado que o normal.
Estava claro que ele ainda estava com receio de Brian.
—Vou perguntar pra ele quando formos pra casa — sorri pra Deaky, tentando ser pacificadora — e o Freddie? Alguém tem notícias dele?
—Telefone fora do gancho — Roger deu de ombros — o normal dele...
—É... — apenas dei um sorriso sem graça.
Estava preocupada com minha família, mas ao olhar para Louisa as preocupações se foram de novo. Seus tios e tias se despediram, até que percebi Brian inquieto, pensando em fazer alguma coisa. Seu olhar pra mim me dizia o que era.
—Vai lá resolver isso de uma vez — falei delicada, mas firme.
Eu sabia que tudo que Brian queria era pedir desculpas a John e que ele aceitasse. Olhei pra Louisa novamente, pra manter as esperanças de que ficaria tudo bem.
Fale com o autor