Pelo Olhar de Chrissie
26 Nos estúdios da EMI
Agora que o Queen tinha uma gravadora oficial e um contrato, e sendo conhecidos aos pouquinhos, (mas nem tanto se fosse comparar às paradas de sucesso da época), a prioridade dos meninos na sua carreira teve que se voltar toda para serem músicos, quase que em tempo integral, o que era complicado no momento.
Freddie já tinha se formado em Desenho em Ealing Art College, ainda faltava um ano pra que John terminasse Engenharia Eletrônica, Roger tinha desistido de vez de Odontologia e eliminou umas matérias em Biologia, só queria ver se ele se formaria mesmo, ele era um excelente baterista, mas não um aluno tão bom assim. Já Brian, como ele me preocupava, já que tinha três ocupações. Os meninos faziam muito menos shows agora, já que era John Reid que gerenciava as apresentações e escolhia onde iriam se apresentar, o que fez com que a banda tivesse mais tempo para estudar e descansar.
Mesmo assim, a maior parte do tempo de John, Roger, Freddie e Brian era dedicada ao Queen.
Por isso nos últimos meses, seus ensaios e encontros, que agora já não aconteciam mais nas nossas casas, mas nos estúdios da EMI, eram para compor mais músicas novas, já que o plano para aquele ano era lançar dois discos. Brian compunha mais em casa, levando as ideias prontas para quando se encontravam no estúdio.
Quando ele se sentava na sala com a Red Special em mãos, caderno e caneta logo ao lado, tocando e cantando baixinho, ficava sem graça de ficar ali observando ele, mas eu amava fazer isso. Ao perceber que ele ia fazer uma pausa, aproveitei para perguntar.
—Brian? — chamei, meio hesitante.
—Que foi, meu bem? — ele se virou pra mim sorrindo.
—Nunca te perguntei isso, mas... — eu fiz uma careta de frustração — se importa de eu ficar olhando você compor? Quer dizer, não te atrapalha de algum jeito?
—Ah, não, não — Bri balançou a cabeça agitando os cabelos — justamente porque você fica bem quietinha eu consigo me concentrar e fazer o que eu preciso, mas eu preciso te confessar uma coisa.
—O que? — achei que ele tinha achado algo ruim em eu ficar observando ele.
—Se eu ficar olhando muito pra você invés de você ficar olhando pra mim, não consigo pensar em mais nenhuma nota ou música, só em você — ele se aproximou de mim enquanto falava, sentando do meu lado.
—Para com isso, Brian Harold May! — eu ria, mas estava comovida — já que respondeu minha pergunta, vamos voltar a falar sério. Eu ouvi você treinando um solo tão lindo e fiquei pensando sobre o que era a música.
—Como era o solo? — meu noivo perguntou, focado e interessado — cantarola ele pra eu ver qual é.
Cantarolei como eu me lembrava e Brian ergueu as sobrancelhas, seu rosto se iluminando, animado ao reconhecer a música.
—É isso aqui — ele retomou, e tocou na Red Special.
—Posso dar uma olhada na letra? — eu realmente estava curiosa.
Ele passou seu caderno pra mim, animado e interessado na minha opinião. O título em cima era "Some Day One Day", escrito na caligrafia corrida de Brian. Fui lendo a letra, reconheci algumas coisas ali que pareciam coisas que meu noivo tinha passado, tinha um pouco de insegurança, mas certa esperança.
—É sobre... — pensei bem no que ia dizer — medo de não dar certo viverem de música?
—É, um pouco — ele suspirou e de repente ficou triste — tem sido ótimo termos uma gravadora e sermos músicos profissionais e tudo mais, mas, se os discos não venderem, se não tivermos um hit grande o suficiente pra irmos pra TV, nosso salário não vai aumentar, e eu vou ter que continuar sendo professor, aliás, eu vou precisar ainda dar aulas até um pouco depois do nosso casamento...
—Bri, calma, o mais difícil já aconteceu, vocês foram descobertos, só tenha paciência — eu segurei seu rosto pra que ele olhasse pra mim — nós estamos com despesas menores agora, eu também estou trabalhando, então vai ficar tudo bem, só se concentre em fazer sua parte agora.
—Igual em Doing All Right? — meu noivo conseguiu rir baixinho.
—Isso mesmo — eu sorri e o beijei rapidamente — você ainda lembra do que eu falei naquele dia que nos conhecemos?
—É claro que eu lembro — ele disse meio convencido, voltando a se animar outra vez.
—Agora termine de compor suas músicas — dei um tapinha no braço dele brincando.
—Sim, senhora — Brian assentiu e voltou ao trabalho.
Então conforme os meses foram passando, as músicas do álbum novo ficaram prontas e eu, Mary e Veronica acompanhamos as gravações. Queen II, como o título dizia bem obviamente era o segundo disco da banda, e sua capa era bastante marcante, mostrando os meninos num fundo preto, com uma luz meio fantasmagórica iluminando o rosto deles. Agora quem os visse na capa, tinha noção de como realmente eram os músicos que só ouviam. As minhas músicas preferidas (intencionalmente ou não) eram as de Brian, principalmente, Some Day One Day e Father to Son, embora March of the Black Queen te deixasse vidrado ao ouví-la.
Os meninos continuaram compondo, ensaiando e gravando, e dessa vez, até John se arriscou a compor uma música.
—Eu nem sei se ficou tão boa assim — o baixista comentou para os companheiros de banda, enquanto estávamos todos no estúdio — só sei que se eu cantar, vou piorar a música...
—John, não ficou ruim — Veronica tentou ajudar o namorado.
—Se você não cantar, não tem como a gente saber como é a música — Roger balançou a cabeça lamentando.
—Para com essa auto piedade desnecessária e canta de uma vez Deaky! — Freddie cansou daquilo.
—Tá bem — John ficou um tantinho assustado, pegou uma das guitarras do estúdio e começou a tocar e cantar.
Quando terminou, guardou o instrumento de volta no lugar e voltou pro baixo, evitando de olhar pra gente.
—Eu amei! — fui a primeira a se manifestar — de verdade! O ritmo é contagiante...
—A futura sra. May tem razão — Freddie tinha uma mão no queixo, pensativo — imagina só depois de colocarmos os arranjos...
Naquele dia, eles usaram o resto do tempo pra trabalhar na canção de John, que acabou ficando com o nome de "Misfire" e outra de Freddie. Quando eles tocaram juntos a composição do vocalista chamada de "Killer Queen" (ninguém notou o trocadilho que você fez com o nome da banda, Freddie), meus ouvidos se encantaram com a melodia, os arranjos, as vozes... Essa música tinha toda a extravagância de Freddie, mas destacava um pouquinho de cada um dos meninos, a bateria marcada bem ao estilo dos Beatles, o solo da guitarra, o baixo ressaltando a melodia, sem contar os estalos dos dedos, que fazia a gente querer estalar também, os sinos e o triângulo em momentos precisos que davam um charme que tinha tudo a ver com a letra da música.
Talvez esse fosse o hit que os meninos estavam tanto precisando.
Sheer Heart Attack foi o terceiro disco do Queen, Misfire e Killer Queen estavam nele, e para divulga-lo, a banda voltou à rotina dos shows de lançamento, mas dessa vez, John Reid finalmente tinha conseguido o que tinha prometido.
Fiquei sabendo logo depois que Brian tinha voltado de uma reunião com o empresário.
—Meu amor — ele sorriu e segurou minhas mãos — você estava certa sobre Killer Queen.
—Por que exatamente? — eu não estava entendendo.
—Reid conseguiu uma vaga pra nós na Parada de Sucessos! — Brian contou.
—Na TV? Vão se apresentar na TV? — eu mal conseguia acreditar.
—É isso mesmo, não é demais? — ele me abraçou.
—Muito, muito — Eu toquei o rosto do meu noivo, sentindo muito orgulho — viu? Eu falei que era só fazer sua parte e ter paciência.
—E eu segui seu conselho — Bri me respondeu e me beijou, numa alegria difícil de conter.
Eu sabia que com o sucesso do Queen, muitas das preocupações de Brian com o nosso futuro iriam diminuir.
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