Pelo Olhar de Chrissie
74 Expectativas
Foi um longo trajeto de táxi do aeroporto até o hotel, e infelizmente, logo Jimmy que estava tão empolgado pra ver a cidade, perdeu muitas atrações. Conseguimos ver a Estátua da Liberdade ao longe e passamos pelos outdoors incansáveis da Times Square. Eu fiquei perdida no meio de tantos anúncios, eram puro comércio em busca de clientes ávidos, mas as propagandas em si, que mudavam frequentemente nos telões enormes eram um espetáculo à parte. Mesmo que tivéssemos outdoors em Londres, não eram como os da Times Square.
Jimmy saiu do avião dormindo, no colo de Brian, e não acordou até chegarmos no hotel. O hotel que ficaríamos era o mesmo que os pais de Brian ficariam. Provavelmente, eles já tinham chegado.
—Eu acho que devia ver como meus pais estão — disse ele, mas eu sabia que meu marido não queria encará-los agora, justo quando tínhamos acabado de chegar e ainda estávamos cansados da viagem.
—Descansa um pouco Bri, vai ser melhor assim — eu acariciei seu rosto e ele apenas assentiu.
Brian não precisava me contar, mas ele ainda estava preocupado com a opinião do pai dele. Tinha quase certeza que se fosse conversar com Sir Harold agora, os dois acabariam se desentendendo. Nada muito grave, mas não sei se Brian conseguiria se conter mais uma vez.
Deitamos nós três juntos na cama de casal do quarto de hotel, Jimmy não pegaria no sono tão cedo agora, mas fiquei grata por ele entender que estávamos muito cansados, ficando bem quietinho. Brian adormeceu logo, o bebê estava estranhamente agitado, o que me ajudou a ficar acordada para olhar Jimmy. Então tive um momento com meus filhos.
Tinha uma teoria que o bebê estava se mexendo por causa da minha preocupação com os medos de Brian. Tudo que eu sentia, nosso caçula sentia, assim como Jimmy sentia tudo que eu sentia quando eu o estava gerando. Acho que preocupação demais era uma coisa recorrente na família May, mas que com certeza, vinha do lado Mullen da família. Jimmy pareceu entender o momento e continuou quietinho, sentindo seu irmãozinho se mexer. Naquele momento tentava pensar em algo pra ajudar Brian a lidar com aquela situação.
Um tempo depois, meu marido acordou e viu que não tinha mais como evitar o que era necessário ser enfrentafo.
—Eu vou atrás dos meus pais, quer vir comigo? — pediu ele, e percebi que estava se esforçando pra manter a calma, quando no entanto, seu pedido estava mais para "por favor, vem comigo".
—Claro — eu sorri, tentando mostrar todo o meu apoio.
Jimmy se levantou e foi até a porta, mostrando que estava disposto a nos acompanhar. Perguntamos na recepção onde Harold e Ruth May estavam hospedados e lá fomos nós até seu quarto. Brian estava nervoso como antes de um show, me ofereci pra bater a porta.
—Chrissie! — disse a sra. Ruth e logo me envolveu num abraço — você é um colírio pros olhos, minha menina, e olha só, como meu Jimmy cresceu.
—Oi, vovó — sorriu meu menininho, contente ao vê-la.
—Oi, e Brian! — ela foi até o filho — o que tá fazendo escondido atrás da sua esposa? Sabe que ela é muito menor que você...
—Essa é nova, mamãe... — Brian finalmente riu durante toda a viagem pra Nova York — mas até que teve graça.
—Foi só pra quebrar o gelo — respondeu a sra. Ruth — vem, seu pai vai querer ver vocês.
E então eu tomei a frente de novo, e Brian retomou à postura de se esconder atrás de mim. Eu sabia que se fosse outra no meu lugar pensaria "eu me casei com um covarde que tem medo do próprio pai", mas eu sabia como era se sentir inseguro e o entendia completamente.
—Sir vovô! — foi a vez de Jimmy quebrar o gelo.
—Oh, pequeno sr. May! — Harold sorriu para o neto, eles tinham essa brincadeira de se chamar por cumprimentos formais por causa de eu ter começado isso, chamando-o de Sir Harold.
—Oi, sir Harold! — foi minha vez de cumprimentá-lo.
—Chrissie, cada vez mais linda, como está o bebê? — ele perguntou, acariciando minha barriga.
—Estamos bem, muito bem mesmo — respondi com um sorriso, com o qual queria dizer "pega leve com o Brian, ele nunca te deu trabalho".
—Filho — Harold apertou a mão do meu marido.
—Pai — respondeu Brian no mesmo tom.
Não demorou muito pra que os dois trocassem um abraço, e assim toda tensão do momento cessou.
Brian perguntou se eles fizeram uma boa viagem, e Ruth e Harold agradeceram por todas as despesas pagas pelo filho. Ele recomendou que eu os acompanhasse na hora do show, e eu concordei, e então nos despedimos, já que os meninos ainda tinham que ensaiar.
—Foi tão ruim assim? — perguntei a Brian um pouco sem graça.
—Admito que foi melhor do que eu pensei, mas acredite Chrissie, o pior ainda está por vir — disse ele num tom sombrio.
—Só lembra de Doing All Right, ok? — eu tentei passar otimismo a ele.
—Sim, sim, eu sei — ele suspirou — vai dar tudo certo.
Ele pegou a Red Special e nós o
acompanhamos até o Madison Square Garden, pra ver o Queen ensaiar. Eu e Jimmy ficamos no nosso cantinho, observando tudo. Achei uma gracinha meu filhinho começar a bater palma no tempo certinho quando a banda passou "We Will Rock You." Eu me juntei a ele, o que fez Brian sorrir pra nós, e aliviou meu coração, pois ele estava claramente mais calmo.
Só pra perto da hora do show seu nervosismo voltar. Ele saiu na minha frente, já que iria com os pais dele. Nos beijamos na despedida, e de novo, o assegurei que ia ficar tudo bem.
Dei meu boa noite aos meus sogros, mas não trocamos mais palavras durante o trajeto, isso até Sir Harold levantar uma questão.
—Então Brian acha normal você viajar pelo mundo nas suas condições, e ainda por cima, com uma criança pequena? — atirou o sr. May sem delicadeza nenhuma.
—Harold! — minha sogra se sentiu ultrajada.
—Está tudo bem — tranquilizei ela — eu estou bem sr. May, não há problema nenhum viajar grávida, ainda falta três meses pro bebê nascer, e Jimmy já está acostumado, e eu também, eu que escolhi seguir Brian, eu sou a assistente pessoal dele. E ele prefere que a gente fique bem debaixo das vistas dele, pra ele cuidar de nós de perto.
—É mesmo? Eu... — hesitou meu sogro, por mais que minha resposta fosse educada e sincera, teve um impacto forte em Sir Harold — ainda assim, se ele fosse astrofísico, vocês não teriam que viajar de um lado pro outro.
—Mas ele é um astrofísico, Harold... — a sra. May defendeu o filho — ele se formou.
O próprio sr. May achou melhor não argumentar mais. Por mais abalada que fiquei com seus comentários, ainda fiquei bem por Brian não estar ali pra ouvir isso.
Apresentei meus sogros a Reid e Beach, que teceram elogios a Brian, tanto como guitarrista como pessoa, o que deixou Ruth orgulhosa e Harold também, além de constrangido.
Me ausentei para ir aos bastidores por um breve momento, deixei Jimmy com os avós e fui desejar boa sorte aos meninos.
—Oi gente — acenei rapidamente pra Roger, Freddie e John — Bri, preciso falar uma coisa com você.
Ele me seguiu pra um cantinho longe dos ouvidos dos meninos, ele entendeu que era particular.
—Olha, eu sei que está nervoso com seus pais aqui, mas apenas faça o que você sempre faz, faça o seu melhor, o seu trabalho e lembre-se que cada pessoa que está aqui é porque reconhece e ama o trabalho de vocês, até seus pais estão aqui, porque vocês são o Queen! — falei com todo ânimo para incentivá-lo.
—Eu sei, vou me lembrar disso quando estiver no palco — Brian sorriu agradecido — agora só falta o meu beijo de boa sorte.
—Não seja por isso — sorri e o beijei, os saltos que usava na ocasião me ajudaram a fazer isso sem ficar na ponta dos pés.
Os meninos reclamaram um pouco, mas riram. E foi nesse clima que subiram ao palco. Só esperava que Brian não deixasse a pressão das expectativas de seu pai atrapalharem sua apresentação.
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