Pele E Lábios
7 Capítulo 7
PdV do Flake
Voltei para casa e abri a porta com cuidado. Eu não queria que a Beth me notasse naquele meu estado afterparty vergonhoso. Caminhei silenciosamente para meu quarto, mas no meio do caminho ouvi a voz característica:
–Altas baladas, hein Chris?
Me sobressaltei e me virei. Lá estava Beth e ao contrário do que eu pensava, ela estava sorrindo.
–Entschuldigen Sie… Quer dizer… Me desculpe… – eu comecei a dizer nervosamente, passando os dedos no meu cabelo oleoso.
–Não tem problema, a adolescência tá aí pra nós curtirmos… – ela riu suavemente e eu levantei uma sobrancelha – Meus pais só me deixaram sair de casa e curtir as baladas quando eu tinha uns 20 anos… Mas eu te entendo… Bem, vou te deixar sozinho agora…
–Uh, danke… – eu estava meio confuso.
Fui para o meu quarto e me deitei na cama. Suspirei e minha respiração saiu trêmula. Eu estava com medo de que Izzy não falasse mais comigo depois do que quase aconteceu. Pensei em ligar pra ele e pedir desculpas, mas eu estava envergonhado demais para fazer isso. Por um lado eu estava “Naah, o Izzy é um cara legal, ele nem deve ter ligado…” mas por outro eu estava “Ele nuuunca vai me perdoar, eu fui muito idiota em deixar aquilo acontecer…”. Aí surgiu a seguinte questão na minha mente: Eu sou gay? Um pouco, acho. Eu estou gostando do Izzy ou é só uma fase? Ah, eu não sei. O Izzy é muito legal… e… bonito. Definitivamente, bonito é o que ele é. Eu gosto do estilo do cabelo dele, meio cheio no topo e desce liso. Eu gosto dos olhos castanhos grandes dele, gosto de como os lábios se contorcem quando ele fuma maconha, heh. Eu não vi o resto do corpo. Pensar nessas coisas faz com que eu me sinta gay. Ah, o drama de ser adolescente.
Pensando nisso tudo, eu adormeci até anoitecer.
–Christian… – eu ouvi uma voz suave me chamar. Abri os olhos. Era Beth e o olhar dela não era de felicidade – Acho que você devia ver uma coisa…
Sem dizer nada, eu a segui para a sala. Ela apontou para a TV ligada e se sentou no sofá. Me sentei ao lado dela e escutei atentamente, mas não consegui entender muita coisa.
–O que eles estão dizendo? – eu perguntei, me virando para Beth.
Ela balançou a cabeça negativamente e torceu as mãos. Ela parecia muito nervosa.
–Christian… – ela começou – Ontem, as tropas americanas foram mandadas para o seu país…
–E…? O que houve? – meus batimentos cardíacos aceleraram e eu comecei a suar frio.
–Eles bombardearam Berlim. A cidade está em ruínas.
Abaixei a cabeça, ainda tentando digerir as palavras dela. Pressionei com força meus dedos sobre os meus lábios trêmulos.
–Eu sinto muito, Christian. – Beth colocou a mão no meu ombro – Tem algo que eu possa fazer por você?
–Nichts, danke. Lassen Sie mich in ruhe, bitte. – minha voz nunca soou tão baixa. Eu fiquei olhando para o chão por bastante tempo. A ficha não tinha caído, mas eu sabia exatamente o que aquilo significava.
Minha família, meus amigos… Todos mortos.
Finalmente, eu comecei a chorar, gemendo toda a minha dor. Escondi o rosto nas mãos. Me senti irreal. Eu queria morrer naquela hora. As imagens lindas do tempo em que eu fiquei em Berlim apareceram na minha mente. RDA ou República Democratica Alemã era o lugarzinho mais fofo de toda a Alemanha. As casas eram escuras e os telhados eram pontiagudos para que a neve não os destruisse. Aquele lugar parecia ter sido tirado de um livro de crianças. As coisas lá eram calmas, nada acontecia. Mas quando acontecia, todo mundo ficava sabendo. Eu sobrevivi a um bombardeio uma vez, quando eu tinha 6 anos de idade, então eu sei do terror e do desespero que é isso tudo.
Paulchen! Eu nunca mais ia vê-lo! Nunca mais ia ver sua carinha sorridente… E eu achei que ia terminar os estudos e voltar para a Alemanha o mais rapido possível. Não. Eu não ia mais voltar para aqueles que eu deixei, porque eles estavam mortos.
Talvez em uma outra vida, Paul, em um outro lugar e momento…
Mutti, eu sinto muito. Eu não vou mais conseguir alcançar o seu sonho de ter um filho cirurgião.
Vati, me ensinou o que é a música, me ensinou a amar meu piano. Ele é meu melhor amigo.
Bruderlein, o que eu posso dizer sobre você? Escutar o “Nevermind the Bollocks, Here are the Sex Pistols” com você era a coisa mais deliciosa do dia. Vielen dank.
Eu espero que vocês me perdoem. Eu não consigo continuar.
Notas finais
GLOSSARIO:
Entschuldigen Sie - me desculpe
Danke - obrigado
Nichts, danke. Lassen Sie mich in ruhe, bitte - nada, obrigado. Me deixe em paz, por favor.
Mutti - mamãe
Vati - papai
Bruderlein - irmãozinho
Vielen dank - muito obrigado
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