Pela luz dos olhos teus
1 Retomada ao trono
Notas iniciais
- Querida, levante-se!
Sofia sentiu a presença de sua mãe, detectando-a pelo cheiro de suas mãos entrelaçando seus cachos. Toda manhã, o primeiro aroma que sentia era de algum prato feito por ela para o café da manhã, o que fazia seu dia mais agradável.
- Bom dia, mamãe... – sussurrou, preguiçosa.
- Tome um banho e se vista, já preparei seu lanche matinal. – depositou um beijo em sua testa.
A adolescente puxou as cobertas e apalpou a parede em busca de sua bengala. Ao encontrá-la, caminhou do quarto até a suíte, onde tomou banho e vestiu o velho uniforme de sua escola. Sentia-se desconfortável com a ideia de não saber como ele lhe caía, mas era obrigada a cumprir as normas da instituição. Logo que sentou a mesa, sentiu duas mãos tocarem seu rosto, mais precisamente, seus olhos.
- Adivinha quem é? – seu irmão a surpreendeu.
- Idiota! Senta aí. – ordenou, entre gargalhadas.
- Pensei que ganharia um bom dia da minha irmã, e é assim que ela me recebe? – brincou, beijando-lhe as bochechas.
A família Sabel não possuía grandes posses, e também não tinham um “chefe do lar”. Eles eram uma cooperativa. O pai de Sofia e Cícero havia deixado a casa quando eram pequenos, por ter encontrado uma mulher com metade da sua idade. Depois disso, nunca mais se teve notícia do mesmo.
- Bom dia, meu príncipe! – exclamou, enquanto engolia uma torrada.
- Mãe, cadê a vovó? – perguntou Miguel.
- Está dormindo ainda, ela estava muito cansada ontem... Eu lhe acordo mais tarde.
- A vovó anda vulnerável... – disse a garota, pensativa.
- Ela já não tem a mesma energia de antes, Sofia. E precisamos ser pacientes!
- Eu serei... Mas tenho medo de que ela também vá embora... – abaixou a cabeça, ainda pensativa, enquanto descascava uma banana.
- Um dia todos vão embora, minha filha... – sua mãe disse, distraída, provocando-lhe um silêncio perturbador.
Na seguinte fração de segundo, sua mãe percebeu que não deveria ter proferido aquela frase, mesmo que intencionalmente. Abriu a boca para se reparar, mas não sabia o que dizer, então manteve o silêncio.
- Vamos para a escola, irmã? – convidou, puxando sua mochila.
- Vamos. – levantou-se da mesa, apanhando sua bengala novamente e indo atrás do irmão. – Tchau, mamãe! – abraçou-lhe, simbolizando fisicamente que a perdoava pelas palavras mal ditas.
Ao caminharem de braços dados pelas ruas, Sofia podia sentir uma leve ventania brincando com seus cabelos, que se embaraçavam um pouco mais a cada metro andado. O colégio Vinícius de Moraes ficava há apenas alguns minutos de sua casa, e como quase não saía de casa, utilizava aqueles minutos para aproveitar a luz do sol em sua pele. Não era totalmente feliz com suas limitações, mas estava satisfeita e grata a sua família pelos esforços que faziam. Mal sabia, que eram eles que agradeciam profundamente por sua existência.
- Cícero... – chamou, baixinho.
- Sim? – diminuiu a velocidade dos passos, para acompanhar a irmã.
- Há quanto tempo você e Clara terminaram? – perguntou, curiosa.
- Quase um mês... Por que a pergunta? – tornou-se a ela.
- Curiosidade...
O irmão resmungou alguma coisa, que ela não pode ouvir.
- Por que terminaram? – voltou a falar.
- É complicado, Sofia... Você não entenderia.
- O que é tão complicado? E por que eu não entenderia? Fala sério... – arqueou as sobrancelhas.
- Você é nova demais para entender... – apertou seu braço e suspendeu seu corpo para cima, na intenção de subir um degrau que havia no caminho.
- Como? Cícero... Tenho 14 anos, sua ex namorada não é nem um ano mais velha que eu... Por que é tão complicado? – tagarelou, indignada.
- Sei disso. Mas você nunca namorou, nunca teve que lidar tão de perto com outra pessoa. Não se ofenda, pequena! – redimiu-se.
- É, talvez eu nunca namore. – respondeu, seca.
- Não diga isso! Na hora certa, vai encontrar um garoto bacana. Agora precisa se concentrar em seus estudos.
- Hum, tudo bem. – ergueu a cabeça, envergonhada pelo descaso de seu próprio irmão.
Ao chegar à escola, Cícero fez questão de deixar Sofia em sua sala, na aula de matemática. Felizmente, a garota mostrava um desempenho honroso em todas as matérias. Mas pessoalmente, odiava exatas. Procurava terminar suas lições o mais rápido possível para não perder tempo com algo que sabia que não usaria no futuro.
Sofia gostava mesmo era de história. Permitia-se a cada aula viajar para um mundo diferente, e quando acabava, permanecia alguns segundos a mais desligada do universo real para refletir sobre tudo o que havia aprendido. Ainda não pensava em uma profissão para o futuro, tinha medo de escolher uma atividade que exercesse a visão, algo que ela não poderia oferecer. Por isso, quando lhe perguntavam, dizia sempre estar indecisa.
- Bom dia, professora! Perdoe-me o atraso... Posso entrar? — escutou uma voz suave vinda da porta da classe, e surpreendeu-se por ser uma diferente das que estava acostumada a ouvir em seu cotidiano.
- Helena! – exclamou alegremente – Que surpresa tê-la por aqui, seja bem vinda de volta, procure um lugar para se sentar...
Imediatamente, os cochichos começaram a ecoar pela sala. “Mas o que a Helena está fazendo aqui?”, “Ela não tinha viajado para a Alemanha?”, “Droga, pensei que ela não voltaria mais...”. Sofia não entendia bem a causa de todo aquele alvoroço, e logo sentiu o aroma doce da garota que sentou logo atrás de sua carteira.
Sofia gostaria de saber o motivo de ela chamar tanta atenção, gostaria de conhecê-la e descobrir porque era tão especial... Porém, não conversava sequer com os professores quando tinha uma dúvida, era mínima a probabilidade que conversasse com a nova integrante do primeiro ano.
Durante aquela aula, e aquela manhã inteira, escutou o tempo todo a aluna interagindo com colegas, e mais alguns cochichos sobre sua suposta volta a escola. Tentou lembrar-se de já ter a conhecido, mas não conseguiu. Por alguns segundos, o único barulho do local era o de sua máquina de escrever, o que considerava um pouco constrangedor. Quando a professora perguntava algo à turma, evitava responder, mesmo sabendo a resposta correta. Preferia privar seu conhecimento para as provas bimestrais, onde jamais tirava qualquer nota abaixo de nove.
Ao bater o sinal, a garota manteve-se sentada onde estava. Todos os dias, esperar até que seu irmão fosse buscá-la em sala, devido a seu medo que ela se perdesse pela escola. Algo difícil de acontecer, mas não fora de qualquer probabilidade.
Enquanto tamborilava os dedos sob a mesa, entediada, escutou alguns dizeres.
- O colégio sentiu muito a sua falta durante esse ano, Maldonado. Que bom que esta de volta!
- Uma rainha não pode deixar seu trono vazio por muito tempo, não é? – Helena dizia, orgulhosa – É preciso retomá-lo e deixar as coisas em seu devido lugar.
Sofia assustou-se com a fala tão prepotente e cheia de certeza. Fitou sua carteira, para tentar excluir-se daquele local, daquele momento. Não queria parecer intrusa, nem tomar uma opinião a respeito da nova aluna. Então, como sempre, respirou fundo e fingiu não existir.
Fale com o autor