Pela Princesa - Interativa

6 Leoa Sem Garras, Dragão Sem Fogo


Notas iniciais
primeiramente, obrigada a todos que estão acompanhando e pelo 1k de leituras :) as árvores genealógicas das famílias já completas estão no tumblr, obrigada g v gomes ♥ boa leitura!!

p o r t o r e a l

Estava no meio da noite, com a lua brilhante em seu ponto mais alto, quando Daeron avistou as luzes da capital aparecerem no horizonte. Ele se ergueu um pouco mais no dorso de seu dragão, o vento cortante daquela noite gelada fazendo com que o cabelo negro vindo do lado Dayne se movimentasse. Respirou fundo, tomando para si aquele ar puro que conseguia encontrar apenas nas alturas, o único lugar em que ele realmente se sentia intocável.

O Targaryen costumava sair para voar sempre que se sentia pressionado por todas as responsabilidades que tinha como herdeiro em Solarestival. Ou quando ficar ao lado da família parecia demais para ele lidar.

No momento, voava sabendo que aquilo talvez fosse se tornar algo raro por conta do que poderia vir a acontecer na Fortaleza Vermelha. Apenas os Sete saberiam o que Aemond tinha planejado para ele e o que levaria ou não até o paradeiro de Alys. A prima que ele havia se tornado tão próximo e não sabia realmente onde estava, sendo que um pouco de preocupação havia se enrolado nos pensamentos dele em questão a princesa perdida.

Não ter notícias dela por tanto tempo o deixava com aflição, pois mesmo que tivesse suas dúvidas sobre o que realmente havia acontecido, ainda assim havia a chance de algo ruim ter se abatido sobre Alyssana.

Precisava acreditar que o pai tivesse alguma solução.

A cidade foi tomando forma à medida que Stormcloud voava sobre os telhados e ruas praticamente vazias. Não havia ninguém para observar sua chegada e provavelmente não haveria muito alarde se fosse de dia, afinal o povo que morava ao lado do Água Negra já havia se acostumado a verem dragões desde a época que Aegon I havia começado sua conquista. Assim, as asas longas e azuladas planaram até que chegaram na colina coroada pela construção em vermelho.

Os soldados no pátio não moveram nenhum músculo quando Stormcloud pousou levantando poeira e grunhido para ninguém em especial. Ele desceu pelas asas cartilaginosas e depois levou a mão até a cabeça do animal, muito maior do que ele mesmo. Sua fiel montaria soltou um ruído dócil perante o toque leve, uma conversa simples que apenas Targaryen e os seres escamosos conseguiam compartilhar. Por fim o pátio se encheu de vento com as batidas das asas fortes, enquanto Daeron observava o dragão voltar para o céu escuro, provavelmente indo ficar perto dos outros animais cuspidores de fogo que habitavam a capital.

Um serviçal pequeno e rápido se aproximou. Não deveria ter mais do que quinze anos, mas tinha um porte nobre. Vinha vestido em vermelho e negro, as cores da casa real.

— Meu senhor, a Mão pediu para que eu o levasse até a Torre assim que chegasse. — Avisou ainda esticado em uma reverência formal.

Daeron não se lembrava daquele menino servindo o pai em Solarestival.

— Onde está Martyn? — O Targaryen questionou ao homem que acompanhava o pai dele para todos os lados.

— Ele está em Pedra do Dragão, seguindo ordens de Lorde Aemond. — Respondeu rapidamente, feliz em ser útil. Também já seguindo até a Torre da Mão, o que fez com que Daeron o acompanhasse na direção indicada e já conhecida. — Eu estou no lugar de Martyn como intendente do senhor seu pai, fui indicado especialmente por Vossa Graça.

Então era um espião de Aegon, o pensamento veio imediatamente.

— E qual seu nome?

— Lucas, Lucas Waters. — Um bastardo, Daeron apenas se perguntava de quem.

Perguntas foram deixadas de lado quando os dois entraram no pequeno salão de teto abobadado, deixando rapidamente o lugar para trás e subindo as escadas circulares. Subiram e subiram a passos rápidos até chegarem a porta que dava na sala de audiências privadas. Lucas se curvou mais uma vez e saiu em seguida, deixando o Targaryen de frente a porta fechada. Estava nervoso, não via o pai fazia um bom tempo, conversando apenas por intermédio de cartas curtas e diretas.

Abriu e fechou a mão antes de endireitar a postura e bater na porta.

Ouviu uma confirmação leve vinda de dentro. O pequeno cômodo era simples, sem muitas tapeçarias ou móveis que ocupassem cada canto, como era de se esperar de uma pessoa prática como Aemond Targaryen. Sentava-se em sua cadeira e lia pergaminhos que deveriam ser importantes para que fizessem com que ainda estivesse debruçado sobre o papel até aquela hora. Assim, o reino nunca parava, ou ao menos a Mão não.

— Finalmente, sente-se… — O pai de Daeron comentou apenas olhando de relance para o filho mais velho que ocupou uma das cadeiras de frente a mesa longa.

— Meu pai. — Ele cumprimentou o mais velho polidamente, como era de costume entre os dois. Se fosse Daena ali, ainda viva, o rapaz provavelmente estaria com os braços ao redor da mãe. Porém, não era assim que os deuses quiseram, por isso que Daeron via cabelos platinados e não madeixas escuras. — Espero que já tenha descoberto algo sobre minha prima. Talvez seja o motivo de ter me chamado com tanta urgência em suas letras.

— Pelo contrário. — Aemond suspirou, finalmente deixando os pergaminhos de lado e recostando na cadeira. Estava cansado, mais do que o normal com a corte lotada de nobres que vinham de cada canto de Westeros e que queriam se hospedar debaixo do mesmo teto que o rei. Ele tivera que ser meticuloso em saber quem deixar ter quartos na Fortaleza Vermelha e quem deveria mandar dar meia volta para achar um lugar na cidade. No entanto, aquilo não era o importante no momento. — Te chamei porque não descobri nada que me levasse até a Princesa Alyssana.

— Absolutamente nada? — Era difícil de acreditar em tal coisa. — Ninguém seria tão meticuloso a ponto de não deixar nenhuma pista para trás.

— Mandei Martyn para Pedra do Dragão assim que soubemos da notícia, alguém de confiança para ajudar a vasculhar a ilha e me reportar tudo. — Aemond coçou os olhos cansados que imploravam para se fecharem, mas que ele não deixaria, inflexível como sempre. — Ele acompanhou o capitão da guarda, viu ele revirar cada canto, vasculhar cada barco que estava no cais e perguntar a cada marujo, até entrando nas poucas casas dos camponeses. — Uma última pausa. — Ainda assim, nada.

Daeron batucava os dedos no braço da cadeira, entretanto parou quando viu o olhar julgador do pai cair sobre si.

— Então, porque me chamou, meu pai?

Aemond se levantou, dando a volta na mesa, parou na frente do filho e se escorou na quina do móvel.

— Eu sei como você ficou próximo de Alyssana. — Não era nenhum segredo para ninguém. As más línguas até diziam que tiveram um caso durante o período que Daeron esteve em Pedra do Dragão para domar Stormcloud. — Trocavam cartas e em todas às vezes que a recebíamos em casa, antes da princesa ser mandada para a ilha, sempre ficavam juntos quando a família real ia até Solarestival.

Daeron levou a mão até o queixo, incomodado com o rumo da conversa.

— Por isso, ninguém conhecia ela melhor que você. — Aemond passou a mão pela barba bem feita, pensando em ofensas do passado e mudanças do futuro. — Todos aqueles que buscaram a ilha atrás da princesa, nenhum deles realmente a conhecia. Então, não saberiam o que realmente procurar ou onde encontrar pistas. Dessa forma, será você quem irá para Pedra do Dragão dessa vez e eu espero que volte para Porto Real com alguma resposta.

Não era bem um pedido e Daeron sabia que nunca negaria nada ao pai, como havia feito por toda a vida. Ainda assim, sentia-se incomodado de seguir de um lado ao outro como um peão dos planos que ele sempre planejava sozinho.

— E se eu achar algo? Ou ainda, se eu realmente encontrar Alys?

Um sorriso despontou no rosto do homem mais velho.

— Então, os Targaryen de Solarestival vão mais uma vez se juntar aos primos que portam a coroa. — Como a Rainha havia feito no passado, só que dessa vez as chances eram muito mais voláteis do que antes. — Você se casará com Alyssana e será rei consorte um dia.

Daeron não queria se casar com a prima, nunca havia tido tais sentimentos e sabia que a outra também não. Ele iria atrás de Alyssana, voaria até Pedra do Dragão da mesma forma que havia saído de casa assim que o pai o chamara. Agora, era um verdadeiro conto de fadas imaginar que Alys se moldaria e se casaria com o primeiro homem que a achasse onde quer que estivesse, ainda mais ele.

— Pai, acha que mesmo que tal casamento daria certo?

Aemond deixou um sorriso divertido aparecer na face, ignorando a insegurança do filho.

— Você vai ser mais sortudo do que muitos, terá o casamento mais proveitoso em todo o reino e ainda casara com uma pessoa que ama.

— Não amo Alyssana dessa forma. — Foi rápido em rebater, apertando as mãos percebendo em arrependimento quando viu o pai ficar desapontado de certa forma.

A mão firme de Aemond veio a seu ombro, apertando ali com o que parecia até ser algo como ternura.

— Vai aprender a amar. — A Mão respondeu voltando a seu assento, de novo na posição de poder, acima de todos e inclusive de seu filho. — Você terá mais sorte do que muitos. Casará com alguém que conhece, com alguém que sabe sobre você e como é realmente. Tem sorte Daeron, muita sorte…

Havia melancolia na voz dele, como se não estivesse realmente naquele momento. Parecia preso em memórias já muito distantes, de quando a vida era mais simples e ele era envolto num amor recíproco. Tudo o que havia perdido.

Daeron notou isso e sossegou a boca, não iria rebater mais as ideias do pai, faria como ele queria. Iria dançar os passos que era esperado que ele soubesse, como fora desde a infância e não mudaria até sua velhice.

— Parto amanhã de manhã. — Falou pronto para pedir a licença, mas foi impedido.

— Não, não amanhã. — Aemond disse com certa raiva no tom de voz. — Lucas já deve ter contado para Aegon que você está aqui e não seria certo você partir sem ao menos se apresentar ao Rei. Precisa ficar aqui por alguns dias, até que Vossa Graça não dê mais um de seus chiliques.

t e r r a s o c i d e n t a i s

À princípio Tilda Hill havia decidido que iria seguir em sua viagem para Porto Real por conta própria, levando consigo apenas o essencial em seu cavalo mais rápido. Poderia ter contratado alguns homens para irem com ela, mas não era muito provável que qualquer outra pessoa aceitaria ajudar ela a achar a princesa e não querer o prêmio quando o tivesse em mãos. Pois, ela sabia que de uma forma ou de outra encontraria o paradeiro da garota.

De qualquer forma, foi quando estava partindo de Lannisporto que encontrou uma trupe de atores que estava seguindo para a capital e logo aceitou seguir viagem com eles. Assim, teria mais pessoas ao redor e não correria riscos caso trombasse com qualquer grupo de saltimbancos no caminho. Por isso que no meio daquele dia quente se encontrava rodeada de carroças e pessoas vestidas em roupas simples. Trapos que eles trocavam em todas as noites de apresentação por belas peças que tentavam captar a essência da nobreza, mesmo que apenas de relance. Não havia nada das sedas ou as jóias que Tilda costumava ver nos bailes em Rochedo Casterly.

Eram pessoas boas no fim das contas, com histórias tão impressionantes quantos as que ela tinha para contar. Dessa forma, se reuniam toda a noite ao redor da fogueira, bebendo vinho e comendo carne seca, revelando as coisas mais inusitadas que já haviam presenciado nessa vida conturbada. Eram bons companheiros e Tilda sentiria falta deles quando tivessem que se separar por caminhos distintos.

— Em que pensa, Língua de Ouro?

Tilda se virou para ver olhos castanhos observando ela de perto. Era Walda, a esposa do dono da trupe, que tinha metade da idade do homem. Era dona de uma aparência simples, com sardas cobrindo o rosto e lábios cheios. O rosto arredondado era coberto por pó e tintas em todas as noites de apresentação, deixando ela com uma face mais delicada. Embora a peruca gasta e pintada de branco para imitar o platinado dos Targaryen, quebrasse um pouco da imagem.

— Eu não devia ter te contando que tenho tal apelido. — Respondeu com um sorriso bobo na face descontraída. Havia dito noite passada sobre como algumas pessoas costumavam falar dela nas ruas de Lannisporto, por conta de sua lábia e o nome havia pegado no meio da trupe. — E não penso em nada de mais.

Walda não parecia feliz com a resposta, por isso se endireitou na sela da mula e voltou a cutucar com outro assunto.

— E quais assuntos você tem mesmo em Porto Real?

Tilda não havia dito com todas as palavras sobre seus verdadeiros planos, já que não precisava ser franca com aquele grupo que mal conhecia e existiam pessoas demais rumo a capital. Não precisava sair contando sobre o assunto para mais pessoas, sendo que ainda se lembrava de ter aberto a boca demais com aquela bela pirata das Ilhas de Ferro. Ela havia gostado da mulher, mas provavelmente nunca mais a veria novamente.

Voltou a Walda, esquecendo dos cabelos ruivos e dos olhos azulados da capitã.

— Comércio, dinheiro e tudo o que envolve. — Falou dando de ombros, já que não era totalmente mentira. Tinha um certo comércio para tratar, embora os custos fossem muito altos e as recompensas quase inimagináveis. — Já falei que tenho dois navios, certo?

— Oh sim, nunca tinha visto uma mulher como você, que comanda a própria companhia.

Tilda deixou um sorriso aparecer, um pouco mais amargo do que o último.

— E pode ter certeza que não vai encontrar muitas outras por aí.

— Por onde seus navios velejam?

— Estão vindo de Lys, trazendo tapeçarias e perfumes que eu vou vender como água na capital para os nobres que se juntam lá. — Outra meia verdade, já que ela realmente usaria aquilo para se envolver com os nobres, porém seus planos eram de usar aquilo por pistas na direção da princesa. — Eles adoram esses produtos vindos do outro do lado do mar.

Walda parecia fascinada, mesmo com tão pouca coisa.

— Eu sempre sonhei em ir para o outro lado. — Comentou com um certo ar melancólico, sem olhar mais para Tilda e sim focando no caminho a frente. — Dizem que os atores são valorizados e fazem todo tipo de peça, conseguem se apresentar para principes e em mansões. Viajam em grandes caravanas e vivem bem, fazendo o que amam.

— E você não ama o que faz?

Ela voltou a atenção para o rosto da Hill, focando em nos olhos esmeralda vindos do lado Lannister.

— Sim, amei o teatro desde que vi o primeiro show de fantoches na minha cidade natal, em Vilavelha. — Ela comentou se lembrando de um passado que era muito distante. — Sempre sonhei em ser uma atriz desde então, esse foi o único motivo de ter me casado com Pate, apenas para poder entrar na trupe. Mas, não é o que eu imaginava. As pessoas aqui não têm moedas para dar e os ricos fecham as portas na nossa cara, foi muita sorte termos conseguido uma temporada no Rochedo.

A atenção de Tilda ficou mais atiçada.

— Não sabia que haviam passado por lá.

— Oh, foi antes de irmos até Lannisporto. — Walda parecia feliz em tocar naquele assunto. — Pedimos para nos apresentar no salão do lorde, era um dos lugares mais pomposos que eu já vi. E bem, o lorde gostou de nós e da nossa encenação. Pediu para ficarmos por mais uma temporada, nos deu um teto para dormir, comida e pagou por cada noite. Foi muito bom, embora Lady Lannister sempre estivesse com a cara fechada para a gente.

Tilda sabia bem demais o quanto Alyssa Lannister poderia ser um pé no saco, mas ficou feliz por saber que o pai tinha feito tal ato, apesar de já saber que o mesmo possuía um bom coração no fim. Se não fosse por Tygor ela não estaria ali hoje, não seria a pessoa que se orgulhava de ser. Sem o conhecimento que ele pagou ou a proteção que sempre recebeu, mesmo sendo bastarda.

— Ele deve ter sido um bom pai.

Se virou para Walda em um pulo que deixou o cavalo agitado, por isso segurou as rédeas mais firmemente.

— Como? Sabia disso?

Walda gargalhou um pouco, antes de se endireitar.

— Os boatos correm rápido, principalmente numa cidade grande como Lannisporto. — Ela respondeu e era verdade. — Além disso, vocês têm aparência parecida. Mesmo cabelo dourado, mesmos olhos verdes, até mesmo postura parecida. Apenas um tapado não perceberia as semelhanças.

Tilda já havia ouvido coisa parecida, principalmente da mãe dela.

— E então, qual sua história?

— Acho que mesma de todo bastardo. — Respondeu se lembrando dos eventos de seu passado. — Minha mãe era uma irmã da noite, meu pai se apaixonou perdidamente e eu nasci logo depois. Os dois não poderiam se casar, obviamente, porém ele ainda assim cuidou de mim, mesmo que de longe.

— Bom, você teve mais sorte do que a maioria dos bastardos.

Tilda concordou com a atriz por fim, deixando aquele assunto se dissipar. Já era quase noite e eles teriam que parar, com o sol já ia se pondo no horizonte. O céu pintado de tons roxos, vermelho e laranja, formando uma bela paisagem.

— Vamos, logo iremos montar a fogueira. — Walda disse incitando a mula para frente. — Quem sabe você não tem mais uma história interessante, Língua de Ouro.

Tilda Hill mostrou o sorriso mais uma vez. Pois, tinha ainda muitas histórias para contar.

Notas finais
espero que tenham gostado!! próximo capítulo será para desenvolver mais alguns personagens, antes de voltarmos com apresentações beijinhos ♥