Notas iniciais
perdão pela demora e pelo tamanho do capítulo, mas foi necessário o tempo para escrever e as palavras para introduzir a personagem boa leitura :)

w i n t e r f e l l

Rowena Stark tinha apenas quatorze dias de seu nome quando encontrou uma velha bruxa na floresta. Aquela mulher machucada chupou seu dedo e bebeu seu sangue com seus lábios molhados e trêmulos, prevendo a parte mais importante de seu futuro e que a garota carregaria para todo o sempre. Seu filho mais velho irá destruir o Norte, eram as palavras que levava no coração a todo momento.

Qualquer pessoa que ouvisse aquilo, acharia que a Stark mais velha era mais louca do que a mulher que disse tais palavras, acreditando em algo tão surreal. Entretanto, quem estivesse na hora teria acreditado, visto apenas a verdade sair na voz rouca daquela mulher que ainda estava fixa na mente de Rowena, mesmo após tanto tempo. Porém, ninguém além dela sabia de tal coisa, pois a única testemunha além dela e da bruxa fora Arrana, a irmã mais nova que não passava de uma criança na época e nem se lembrava mais do ocorrido.

Tudo aquilo sempre voltava para Rowy como uma ferida que nunca sarava, sendo que tinha tais memórias longínquas em seus pensamentos enquanto subia na sua égua para cavalgar com seu pai.

Lorde Arren Stark vinha coberto em peles cinzentas e mantinha o porte firme, como sempre fizera desde que recebera o manto de Protetor do Norte. Era uma cabeça mais alto do que quase todo mundo, o que somava para transformá-lo em uma figura imponente. Porém, naquela manhã fria, ela sentia que havia algo diferente com seu pai, mas ela não conseguia identificar ao certo o que era.

De qualquer forma ela deixou aquilo para depois assim que passaram pelos portões principais da fortaleza, deixando a miúda Vila de Inverno para trás em segundos e seguindo para os morros esverdeados que circundam a moradia ancestral dos Stark.

Rowena respirou profundamente o ar frio e também bem fresco. Ventava aquela manhã, fazendo com que o cabelo dela se revoltasse em ondas castanhas, tão parecidas com os de seus irmãos. Seu pai não tinha o mesmo problema com os cabelos curtos e sua feição era pura pedra, sem demonstrar nada do que pensava ou o porquê de tê-la chamado com mais afinco para a cavalgada matinal que ambos faziam desde que ela era bem pequena.

— Algo aconteceu? — Ela questionou quebrando o barulho cortante do ar.

Arren pareceu sair do que quer que estivesse fazendo ele ficar mais sério do que o normal, coisa que agora assustava ela um pouco. Ele levou a mão até o maxilar, coçando a barba bem aparada e soltando a respiração que fez nuvens brancas ao redor de sua face.

— Teremos um banquete esta noite.

Ela piscou um pouco, ainda confusa.

— Banquetes são para comemorações, o que estamos comemorando? — Ela foi sagaz em questionar rapidamente.

— Seu noivado. — Ele fora preciso e rápido, sem relutância, como era de costume para a família Stark e para Rowy.

Rowena engoliu em seco, olhando para a face do pai que agora parecia realmente abatida.

Aquilo não fora uma verdadeira surpresa, não depois da avó dela vir de Porto Branco até Winterfell com o objetivo de casá-la novamente. Colocando alguma ordem na família Stark, ou ao menos o que Erena Manderly considerava o certo, sem nunca se importar verdadeiramente com os sonhos ou sentimentos dos netos e filhos.

— Por isso que Othor veio para Winterfell? — Ela questionou apertando mais as rédeas, ansiosa apenas de pensar na ideia de casar com o irmão de seu falecido marido. Rowena se lembrava de como Othor Karstark lançava olhares impróprios para ela desde a época que estava casada com Galbart.

— A princípio eu não iria aceitar aos pedidos deles por sua mão. — Arren respondeu com sinceridade, perdido no horizonte que começava a ficar mais límpido com o sol crescente. — Mas, nossas relações com a Casa Karstark só andam piorando, creio que não vá demorar muito para que eles peguem armas contra nós. Levando metade do Norte para o lado deles.

Era uma verdade cruel, um peso que iria cair nas costas dela com o casamento. De manter o Norte seguro, de proteger o único lar que ela chegou a conhecer. Entretanto, se casar com Othor poderia ser a mesma coisa que deixar que a guerra viesse. Um filho, uma criança para a destruição. A frase veio para sua mente antes que pudesse evitar.

O fim do Norte seria fruto da união dela mais uma vez com a Casa Karstark? Um filho dela com Othor teria sangue Stark para reivindicar aquelas terras gélidas, mas que tanto amava. Hipóteses vinham a sua mente e nenhuma terminava de maneira pacífica.

— Erena vem enchendo a cabeça de sua mãe com pedidos que eu aceite o noivado por fim. E minha sogra pode ser bem persuasiva, como você bem sabe. — Ele continuou, agora de frente para ela com seus olhos cinzentos. — Seria um fim rápido para os conflitos, antes que tudo piore. Além de ser um noivado primeiro, você terá um tempo para…

As palavras se perderam nas bocas do Lorde.

— Me conformar. — Completou já dando volta com sua égua.

Seu filho mais velho irá destruir o Norte.

Palavras tem poder e aquelas detinham mais do que qualquer outra. Rowena tinha fé naquela profecia da mesma forma que possuía nos deuses antigos, por isso que tinha total certeza do que faria a seguir. Ela não iria se casar com Othor Karstark.

Ela não falou com seu pai após ambos descerem das selas. Arren seguiu por seu caminho, que provavelmente era o escritório onde passava a maior parte do dia. Rowena tinha outros afazeres de grande importância para seu futuro incerto, isso fazia com que avançasse a passos rápidos e largos pelos corredores de pedra.

Porém, foi presa por Arrana quando virou em uma quina.

— Mamãe já me contou! — A garota Stark mais nova comentou quase saltitando no meio do castelo. — Você finalmente vai se casar!

Rowena tentou manter a calma, principalmente porque sabia o quão boba sua irmã conseguia ser. Ainda mais que agora finalmente acreditava que teria a chance de se casar como tanto queria, já que poderia apenas entrar em matrimônio após Rowy. Coisa que a Stark mais velha vinha evitando desde a morte de Galbart pelas mãos do herdeiro Stark.

— Aposto que todo o castelo já deve saber, você não consegue segurar nenhum segredo. — Disse querendo se livrar dela, tinha que encontrar outra pessoa.

— Não seja dramática. — Arrana rebateu, ainda se colocando na frente dela.

Rowena riu, pois ela nunca fora a dramática entre as duas.

— Agora eu finalmente vou poder conhecer o que é o amor, mesmo que tenha demorado tanto por conta de seu egoísmo. — A mais nova falou com seu tom infantil e cheio de julgamento. Rowena já havia ouvido aquilo muitas vezes e sabia que Arrana pararia apenas depois que estivesse com um manto nas costas e rumo a uma árvore coração.

Parte de Rowena sentia pena dos sonhos adocicados que a irmã tinha sobre o que era um casamento, mas ao mesmo tempo se irritava com a insistência dela. De toda maneira não seria dessa vez que a irmã mais nova teria o que realmente queria, não se o que Rowy planejasse desse certo. Porém, para isso precisava achar quem procurava.

— Preciso ir Arrana! — Avisou realmente deixando a irmã para trás, mesmo que a outra ainda não tivesse terminado com suas exclamações.

Continuou andando seguindo para um corredor onde ficava o quarto de seus irmãos, Alaric e o mais novo, Ronnel. Todavia, havia mais uma porta e foi na última em que ela bateu com punhos impacientes, o barulho foi eficiente em trazer uma resposta rápida.

Regnar Reed obviamente não estava esperando por visitas, pois vestia uma blusa de algodão frouxa no corpo musculoso e apenas calças de couro na parte de baixo. Os pés ainda sem botas diziam que também não estava planejando sair dos aposentos naquele momento. Tudo aquilo ela ignorou rapidamente, afinal havia intimidade entre os dois que quebrava a vergonha.

— Rowy? O que aconteceu? — O filho mais novo de Lorde Reed questionou rapidamente já sabendo que algo havia acontecido com a amiga por conta de sua face rosada pelos passos rápido e um pouco de ansiedade.

Ela não poderia dar muitas explicações, pelo menos não ali.

— Preciso de você… — Disse finalmente e foi o suficiente para ele.

O bosque sagrado de Winterfell era uma relíquia viva intocada pelo tempo, mais velho do que as muralhas de granito escuras e que permaneceria de pé por muito mais tempo. A árvore coração chorava lágrimas rubras e seus olhos sem vida observavam uma Stark e um Reed, pessoas que não deveriam realmente estar ali discutindo o assunto que saía nas palavras rápidas de Rowena.

— Precisamos fugir, ir para o Sul e nos afastarmos do Norte. — A filha mais velha de Arren afirmou com toda a convicção que seu coração inseguro conseguia manter. Partir de sua terra natal parecia loucura, logo para ela que amava o frio habitual e as árvores antigas que se entortaram pelo peso dos séculos. — Poderemos usar o banquete desta noite como distração, todos irão estar ocupados demais bebendo e festejando. Poderemos usar o portão do caçador e sumir no meio da noite.

Regnar mantinha a expressão quieta de sempre, mas havia preocupação mesclada em seus olhos azuis e seu porte rígido. Existia indecisão vindo do melhor amigo e ela não poderia culpá-lo, pois nem mesmo ele sabia da profecia e do que ela escondia. Apenas tinha conhecimento que ela não queria engravidar e do medo dela de se casar de novo, porém Rowena nunca havia dito toda verdade com medo de que até ele a achasse delirante.

— Você sabe que eu sempre vou estar aqui para te ajudar, certo? — Ele questionou estendendo uma mão que Rowy aceitou rapidamente. — Mas, como poderemos fugir do Norte? Até que cheguemos até o Gargalo já estaremos sendo procurados por todos e se formos pegos…

— Não iremos para o Gargalo. — Rowena rebateu sem hesitar, pois não era tola de tentar se aventurar no meio dos pântanos ao sul. Sabia que eram perigosos e que mesmo Regnar não era a pessoa mais experiente naquele terreno, havia nascido Reed, porém a criação foi Stark crescendo ao lado dos filhos de Arren e como escudeiro de Alaric. — Seria o mesmo que cair nas mãos do meu pai novamente, precisamos ir pelo mar.

— Pelas Ilhas de Ferro?

— Não, as ilhas estão em guerra e o mar perigoso com saques.

— Então por Porto Branco? Ir até o seu tio?

Mais uma vez ela negou, mexendo o cabelo castanho com o movimento da cabeça.

— Seguiremos para Porto Branco, mas em segredo. Vou conseguir uma carroça na Vila de Inverno, ficarei escondida em feno ou no que encontrar. Você vai se passar de um camponês e ninguém vai desconfiar, assim eu espero. — Ela respondeu ainda nervosa, pois sabia que seu plano tinha falhas.

O tamanho de Regnar não era o mais comum de alguém do campo, já que era forte como um touro e tinha a altura da nobreza. Teria que se vestir com trapos e fizer envergado na maior parte do tempo. Ela esperava que fosse o suficiente.

— E como espera passar por todos os guardas do seu tio? Encontrar um barco que esteja disposto a nos levar? Seu pai deve mandar um corvo assim que descobrir que você está sumida, não podemos chegar na cidade mais rápido do que uma mensagem com asas.

Era bem verdade.

— Não se preocupe com isso, eu vou resolver, apenas preciso de tempo.

Ele cruzou os braços à frente do peitoral amplo, ainda indeciso.

— O que vamos fazer depois que fugirmos?

— Eu tenho economizado desde que voltei para Winterfell e você tem muito guardado, vamos ficar bem. — Ela avisou tentando deixar as coisas mais práticas e palpáveis, para que ele também tivesse fé. — Poderemos tentar achar a princesa como você mesmo me disse quando a mensagem do Sul chegou, irei te ajudar no que precisar e você pode ir em sua missão. Terei tempo para planejar o que fazer em seguida depois disso, precisamos apenas sair daqui antes que esteja casada com Othor.

— Alaric está se preparando para descer para o Sul com o mesmo objetivo. — Regnar avisou algo que ela já suspeitava, sabia que o irmão queria fugir das responsabilidades de herdeiro que ele mal se preocupava em cumprir, além de sumir do olhar gélido do pai deles.

— Então vamos torcer para que o mundo não seja tão pequeno a ponto de nossos caminhos se cruzarem. — Ela disse por fim, sabia que não havia muito mais do que acrescentar, aquele era seu plano e sua salvação. Regnar sempre fora o melhor amigo dela desde que veio morar em Winterfell e ela era a melhor amiga dele, a única com quem ele derrubou as muralhas que levantava para todos os outros. Ela confiava nele e ele nela, precisavam um do outro. — E então?

Ele lançou um último olhar para o bosque ao redor dos dois, como se para se despedir da terra que sempre conheceu. Antes de um leve sorriso brotar nos lábios.

— Conte comigo, para tudo.

Não conseguiu conter a alegria e o alívio, envolvendo ele com seus braços finos.

Ele partiu logo depois, indo cuidar dos preparativos que deveriam ser resolvidos antes que a noite chegasse. Rowena virou-se para a árvore coração, para os deuses que não tinham nomes, mas que detinham todo o poder. Se ajoelhou no chão esverdeado e intocado pelo trabalho do homem, levando uma mão até a seiva vermelha na face da árvore.

Rowena pediu, pediu com toda sua fé para que desse certo.

A destruição do Norte não viria dela.

Sua mãe havia vindo pessoalmente para seu quarto quando chegou o momento dela se vestir para o baile. Rhea Stark já vinha trajando suas roupas mais pomposas, cheia de madrepérolas, peles e lã trabalhada por mãos habilidosas das costureiras. O manto com o lobo cinzento vinha preso a suas costas por broches prateados, manto que Rowena já havia usado no passado na época que foi até o bosque sagrado para se unir a Galbart.

Nas mãos dela havia um vestido dobrado.

— Trouxe para você. — Disse depositando a roupa sobre a cama de Rowy.

Era uma coisa bela, tinha que admitir. Nas cores cinza e branco, as cores da casa Stark. Vinha apertado e justo na parte de cima, com um decote em v, já que ela não era mais uma donzela. As mangas eram fechadas, para protegê-la do frio, mas adornadas com bordados cinzentos. A saia descia como água em ondas nevadas, e pequenos cristais que imitavam flocos faziam o tecido brilhar como pequenas estrelas.

No fim, tudo o que Rowena não queria usar naquela noite.

— É lindo. — Conseguiu dizer por fim para agradar à mãe.

— Venha, vou te ajudar a se vestir.

Ela obedeceu, se colocando no pequeno tablado circular que havia no quarto.

— Onde está seu corpete? — Rhea perguntou já formando juntando os lábios em desgosto.

— Por favor, não me faça vesti-lo esta noite, senão creio que passarei mal. — Mentiu, não podia vestir um corpete porque seria horrível para mais tarde.

Rhea ao menos pareceu acreditar. Talvez por pena da filha que teria que se casar novamente com alguém que não amava, a mulher sabia muito bem como era aquilo tendo sido tratada com frieza pelo marido durante toda a vida. Ou quem sabe um último favor antes de dar a filha para as mãos de alguém tão asqueroso como Othor. Ela veio com o vestido por cima da camisola e ajudou a vestir a peça sem dificuldade, passando para os nós nas costas rapidamente.

— Sei que não quer casar com o Karstark. — Rhea comentou quebrando o silêncio no quarto.

— Não mesmo. — Apenas a ideia já a deixava agoniada.

— Eu também pensei que seria totalmente infeliz ao lado do seu pai… — Ela parou com os nós apertados, parecendo segurar as palavras. — Afinal, ele nunca me amou.

Rowena quis virar para a mãe, porém as mãos firmes nas costas do vestido a mantiveram parada.

— Eu pensei que viveria uma vida de tristeza e sem afeto até meus últimos dias. — Ela parecia querer chorar, entretanto segurou as lágrimas como a lady resignada que era, moldada pela mãe e pelo tempo como senhora de Winterfell. — Só que isso mudou quando você veio. Minha primeira filha, sangue do meu sangue. Eu recebi outro tipo de amor e algo muito mais forte, um laço inquebrável. Depois vieram os seus irmãos e eu tive mais certeza do que realmente importava.

Ela voltou com os nós com mais firmeza, mais dura em suas palavras.

— Você pode não ficar feliz no começo, mas quando tiver seus filhos nos braços vai saber o que realmente importa.

As palavras feriram Rowena como uma de suas flechas. Ela queria negar e rebater com todas suas forças, dizer não, não e não. Ela nunca poderia ter um filho, nunca teria a chance de ter a sensação de segurar a própria criança nos braços. Pois, para ela uma criança era destruição, o fim do Norte. Entretanto, não disse nada, continuou calada até o fim. Deixou que a mãe trançasse seu cabelo com agilidade e a deixasse apresentável diante do espelho.

— Está bela. — Rhea comentou olhando seu reflexo por alguns segundo antes de se virar para a porta. — Vamos, já ouço a música.

Rowena se ajeitou na cadeira.

— Me permita apenas alguns segundos, irei logo. — Pediu com olhos inquietos pela resposta que queria e conseguiu no fim com um aceno de cabeça de Rhea.

— Apenas não se atrase. — Foi tudo o que a mãe disse antes de bater a porta.

Rowena ignorou as emoções criadas pela conversa da mãe com o máximo de controle que conseguiu e correu da cadeira seguindo para seu baú. Havia uma bolsa de viagem pronta e sabia que Regnar também tinha a dele preparada como haviam combinado. Ela deixou aquilo de lado e lavou a mão até suas calças gastas de montaria, correndo para vesti-lá por debaixo do vestido imaculado.

A noite chegou mais rápido do que ela poderia imaginar, fazendo seu estômago revirar de ansiedade. Por isso que ela não tocou em nenhuma das comidas que estavam sendo servidas, mas ninguém se dignou a questionar sua falta de apetite. O suposto noivado já era motivo suficiente para deixar Rowena sem vontade alguma de comer e bastava para os que a rodeavam.

A mesa principal estava cheia com a casa Stark e a casa Karstark, mas não parecia haver qualquer amizade entre ambas. Arren mantinha o cenho fechado, o que poderia ser comum para quem o conhecesse superficialmente, porém sua família sabia que havia amargura incomum no lorde. Rhea também não aparentava estar calma, tentando conter Arrana e seu tom de voz mais alto do que a maioria das pessoas. Alaric era quem mais parecia raivoso naquele banquete, coisa que era recíproca na outra casa, afinal ele havia matado um Karstark, mesmo que não diretamente. Apenas Ronnel não estava ali, ninguém notava sua falta e Rowena dava graça aos deuses por isso.

A lembrança de seu marido falecido a atacou rapidamente, tanto por conta dos familiares dele tão próximos quanto por Alaric. Tinha fresco em seus pensamentos a cena de Galbart e Alaric se engrenhado, murros e uma queda, um ferimento e muita lama. Galbart passou meses de cama depois de pegar uma infecção por conta da briga, ficou em completa agonia e veio a falecer logo depois, sem que nada pudesse ser feito. Os Karstark haviam culpado Alaric, mas nunca puderam fazer nada contra o herdeiro do Norte. Apenas Rowena havia tomado alguma atitude, discutido com o irmão e dito o quão infantil e explosivo ele poderia ser.

Desde então não haviam se falado direito desde tal acontecimento, mesmo que o motivo de Alaric ter ido brigar com Galbart fora os boatos que o falecido marido dela havia começado a dizer pelos cantos sobre sua fertilidade. Ela deixou tudo aquilo de lado e focou-se no ranger da cadeira de seu pai, dizendo para todos no salão de Winterfell que ele tinha a palavra.

A música cessou e comida parou de ser servida, todos os olhos em Arren Stark.

— Nesta noite de festa, teremos mais uma vez uma união entre as Casas Stark e Karstark. — Rugidos de alegria vieram das mesas, embora a família dela tenha continuado quieta. A avó dela, Erena, mantinha um sorriso vitorioso no rosto, vendo que os desejos fervorosos dela finalmente haviam sido atendidos. — Rowena Stark e Othor Karstark.

Ela se levantou de seu assento e observou seu “prometido” fazer o mesmo, os olhos mostravam apenas cobiça que ela enojava.

— Duas das grandes casas do Norte, uma filha Stark e o Lorde de Karhold. — As palavras eram frias, sem qualquer emoção e nenhum orgulho. — Os noivos vão começar com a primeira dança.

Ela respirou fundo, conseguindo pegar bastante ar por não ter usado o espartilho que a mãe queria. Seguiu para o meio do salão enquanto as pessoas arrastavam mesas e bancos, dando espaço para que ela conseguisse ver o homem com quem deveria se casar frente a si. Trajava roupas também prateadas e cinzentas, combinando com ela.

Rowena não conseguiu olhar em seus olhos e decifrar o que ele imaginava. Entretanto, não conseguiu ignorar a repulsa das mãos deles em seu quadril e a outra se fechando com força ao redor de sua mão quase trêmula, mas ainda firme. Ela não iria ceder.

A melodia vinda dos músicos começou lenta e ele não pisou no pé dela, ao menos. Os dois giravam e seguiam os passos ensaiados, mudando rapidamente para uma quadrilha mais rápida e digna do povo do Norte. Fazendo ela arfar rapidamente para acompanhar o ritmo e não se perder. Quando tudo parou ela finalmente tomou a coragem que precisava para vê-lo face à face. Tinha um sorriso sádico em suas feições quadradas e duras.

— Até nosso casamento. — Ele disse depositando um beijo em sua mão.

Rowena se separou dele velozmente, enquanto os outros casais tomaram a pista de dança como um rebanho. Os pares se formaram sem muita demora e ela pensou que estava livre, pronta para partir, mas foi impedida por seu irmão.

Alaric estendeu uma mão e ela foi obrigada a aceitar.

Os passos dele eram mais graciosos do que os de Othor, ela sabia que o irmão tinha muita prática dançando e que não dispensava um festejo, sempre sorrindo e feliz. Porém, naquele banquete ele não demonstrava uma ponta dessa felicidade.

— Eu tentei falar com nosso pai assim que soube. — Disse com a boca próxima seu ouvido, tentando se fazer audível no meio da música alta. — Esbravejei com ele e avisei que essa não era a solução…

— Gritou com nosso pai?

— Bom, eu falei mais alto do que o comum, mas não posso dizer que gritei. — Respondeu sorrindo e ela também não conseguiu evitar. Nenhuma das crianças Stark tinha tido a bravura de enfrentar o pai, em nenhuma hipótese.

— E o que ele disse?

— Que era a opção mais pacífica e que você tinha que fazer sua parte, como eu também tinha que cumprir a minha. — Alaric comentou e ela quase conseguiu ouvir aquilo saindo da boca do pai. — Ele não quer que eu vá para o Sul.

— E nosso pai não está errado, o Norte precisa do seu herdeiro, por mais difícil que ele seja.

— Ei! — Disse incomodado, dando um pisão de propósito no pé dela.

Ela ignorou com um murmúrio e continuou os últimos segundos da valsa.

— Você não precisa se preocupar comigo. — Respondeu tentando mascarar toda a insegurança e o que ela teria de fazer.

— Você é minha irmã mais velha, mas eu sou o herdeiro, não é mesmo? — Ele comentou antes de girá-la duas vezes. — Eu não posso deixar você se casar com aquele homem, preciso fazer algo para te ajudar Rowy.

— Ajudar como da última vez? — Questionou com seriedade, ele parou de dançar na mesma hora que melodia acabou, sendo substituída por outra. — Você já tentou me salvar e olha onde acabamos Alairc. Tudo piorou e parece que a mesma história quer se repetir.

Ele cerrou o maxilar incomodado e com os ombros rígidos. Ela ignorou isso, não tinha mais tempo para gastar e não poderia ser abordada por outro rapaz querendo dançar com ela. Aproveitou os pares rodopiantes e a música alta para se esconder no meio dos corpos, sumindo pelo grande salão.

Rowena encontrou Regnar onde havia marcado, em frente ao Portão do Caçador que ficava entre os canis e a cozinha.

— Trouxe o necessário? — Questionou ofegante, agora mais por medo do que qualquer outra coisa.

O Reed levantou duas bolsas, a dela e a dele, com tudo o que eles precisariam.

— Dei o vinho e queijo para os guardas daqui antes do banquete começar, já devem estar bêbados por algum lugar. — Regnar explicou e ela sentiu certo alívio, as coisas estavam dando certo. — Então? Tudo está pronto?

— Quase.

Antes que ele pudesse perguntar algo Rowena levou dois dedos até a boca, assobiando para a escuridão. Das sombras três figuras surgiram: Taloorvar, seu lobo gigante surgiu ainda meio escondido na noite por conta de sua pelagem negra, mas seus olhos vermelhos o denunciavam. O animal correu até ela e Rowy afagou seu pelo, feliz pelo apoio que o animal transmitia mesmo sem poder emitir qualquer palavra. Outro lobo aguardava ao lado de seu dono, o Stark mais novo. Ronnel parecia estar com medo.

Rowena se aproximou, colocando uma mão carinhosa no ombro do irmão.

— Obrigada por ajudar, mesmo sem entender. — Agradeceu esboçando um sorriso. — Conseguiu a carroça?

— Sim, está escondida naquele lugar na entrada da Mata de Lobos, aonde íamos quando éramos crianças. — O lugar onde ela recebeu sua profecia, onde ela mudou para sempre. — Rowy, você tem completa certeza?

Ela tinha?

Rowena não tinha certeza de muitas coisas. Estava fazendo o certo em abandonar sua família e seu lar? Era egoísta por colocar ela mesma na frente das obrigações? Seu futuro era mesmo aquele? Sua família a perdoaria um dia? Será que veria sua família de novo? Eram muitas perguntas para qual ela não sabia se um dia teria respostas.

Pelo menos tinha certeza de uma coisa: sua profecia. Seu filho mais velho irá destruir o Norte. Ela acreditava naquelas palavras rápidas, mas arrebatadoras da velha bruxa, seu próprio sangue havia se moldado naquela frase. Havia fugido da cama da Galbart por conta da profecia e depois fugido de outro casamento ou qualquer pretendente, mas agora não havia mais para onde correr se não para longe de Winterfell, rumo ao Sul. Ela não tinha certeza de que aquele era o melhor ou verdadeiro caminho, talvez um dia ela pudesse se arrepender.

Mas, precisava ao menos tentar.

— Eu preciso crer, Ronnel. — Respondeu colocando os braços ao redor do irmão com força. Naquele abraço ela se despedia daqueles que não podia ver, seu pai, sua mãe, Arrana e Alaric, até mesmo sua avó que sempre a chateou na maior parte do tempo. Todos eles que ela poderia nunca mais ver e apenas ter saudade guardada no coração. — E você, cuide todos por mim, certo?

Ele concordou ainda indeciso, os cachos castanhos se movendo ao lado da cabeça.

Os dois nunca foram próximos de verdade, não como ela era com Regnar. Ronnel sempre havia sido o mais estranho entres os quatro irmãos, o mais recluso e o que nunca era entendido. Sempre no meio de livros e corvos, a sombra do meistre do castelo. Agora ele era muito importante, ela precisava dele para que seu plano desse certo e por mais que nunca tivessem sido próximos, ainda assim sabia que podia confiar piamente no irmão.

— Lembre-se, quando os corvos voarem, não deixe que a mensagem chegue até Porto Branco! — Disse novamente com firmeza nas palavras sedentas, olhando nos olhos dele querendo certeza, o olhar dele era parecido com o da mãe deles.

Ele confirmou apenas com a cabeça, mas depois engoliu em seco.

— Não se preocupe. — Ronnel respondeu sem mostrar duvida, mais firme do que ela havia visto em toda a vida do irmão mais novo.

Rowena sorriu, olhando rapidamente por cima do ombro para Regnar que já dizia que era hora de ir embora se quisessem realmente ter vantagem contra os homens de seu pai que seriam enviados assim que soubessem do sumiço dela. Ela estava pronta para virar e partir, porém se lembrou de uma última coisa que precisava dizer.

— Não há problema algum em ser diferente. — Eram palavras parecidas com as que ela havia dito no dia de seu casamento para Ronnel e que havia tirado um grande sorriso do Stark mais novo, o primeiro que ela havia visto ele mostrar. Ele mais uma vez mostrou a mesma reação perante as últimas palavras dela, Rowy sorriu de volta antes de finalmente dar as costas.

As calças de montarias foram de grande ajuda à medida que ela correu rumo a floresta. Seu coração palpitando e sua mente um turbilhão de pensamentos envolvendo bruxas, casamentos e uma princesa perdida. Taloorvar vinha ao seu calcanhar, com as orelhas atentas e o pelo negro roçando na perna dela. Regnar ia dando passadas largas com suas pernas longas e a determinação havia tomado conta de cada dúvida, pois ele estaria ali para ela e não a deixaria na mão.

Ela olhou para trás apenas quando já estava entrando na floresta. Winterfell agora não passava de um borrão cinzento coroado por luzes flamejantes, sua casa que ela deveria abandonar. Sua família e tudo o que ela já chegou a conhecer. Um adeus mudo transpassou por seus lábios e Rowena Stark adentrou mais uma vez no meio daquelas árvores.

Notas finais
espero que tenham gostado, comentários são importantes próximo capítulo será dos arryn e caso saibam de alguém que gostaria de participar indiquem, por favor para fecharmos as fichas que faltam enquanto ainda dá tempo obrigada por ler, beijinhos ♥