Notas iniciais
Essa é minha versão dos acontecimentos no dia do casamento NaruHina. Espero que gostem. ♥

Passei longos minutos encarando o homem parado à minha frente. Entendia perfeitamente o que se passava por sua cabeça – mas é claro. Conseguia ver cada pedaço de sua mente como uma casa, dos pontos mais iluminados pela luz até os cômodos mais empoeirados e escuros: suas alegrias, medos, traumas… Enxergava com clareza o homem que fora surrado pela vida, trilhando um caminho espinhoso. Podia ver todas as suas cicatrizes.

Como não poderia, afinal? Acima de todas as habilidades que o tornam tão excepcional aos olhos de todos, havia a habilidade a qual mais dominava: sabia mentir muito bem – porém, não podia me enganar.

O reflexo do homem no espelho lançou-me um sorriso frouxo. Olhando para mim mesmo com atenção, até parecia outra pessoa. Encarei-me por bons minutos, me certificando de que minhas roupas estavam impecáveis. Eu vestia um kimono negro, com uma camélia ao peito. Ao me ver daquela forma, senti um incomum frio na barriga. A ironia me provocou um sorriso – era engraçado que, mesmo depois de ter me tornado um Hokage e realizado os meus sonhos, ainda fosse capaz de me sentir dessa forma.

Pensando bem, hoje é um dia importante. O dia do meu casamento.

Lancei um outro sorriso ao meu reflexo. Dessa vez, um grande sorriso, esperando que me desse confiança.

Com um rangido, a porta do quarto se abriu. Uma voz, arrastada e familiar, soou em meus ouvidos.

“Bonitão, hein, Hokage.” Olhei para quem estava atrás de mim através do espelho. Com as costas apoiadas na porta, Shikamaru me fitava com um sorriso debochado. Era raro que ele elogiasse alguém, então sorri.

“Se você está me dando um elogio, devo estar bonito mesmo,” Lancei um sorriso amarelo para seu reflexo atrás de mim.

Shikamaru riu baixo. Virei-me para ele, que fixou os olhos em meu kimono. Segui com os olhos, procurando por algo de errado nas roupas. “É uma flor bonita,” ele disse.

“Ah, isso,” eu respondi, aliviado por não ter que precisar ajeitar mais nada. “É uma camélia, simboliza o sacrifício em nome do amor. Legal, né?”

Shikamaru balançou a cabeça em aprovação, com um leve sorriso. “E é muito bonita. É a cara dela.”

“É mesmo.” Sorri, com os olhos ainda presos na flor. Virei-me para ele. “Você a viu?”

“Sim. Ela está linda. Tudo está. Como esperado do casamento do Hokage-sama.”

Dei um sorriso sem graça enquanto me senti enrubescer. Sempre foi um sonho ter a vila toda me reconhecendo, mas agora que o fazem, me pego sempre um pouco constrangido.

“Bom, como você sempre foi irresponsável, tô aqui pra te lembrar de que a cerimônia é daqui trinta minutos. Todos já estão esperando, e você não quer deixar Hinata esperando no melhor dia da vida dela, certo?”

“Não poderia perder tudo o que conquistei lutando pra morrer por um soco da Sakura-chan no dia do meu casamento. Pode ficar tranquilo, não vou me atrasar.”

Shikamaru meneou a cabeça, o que era sua forma de concordar sem que precisasse gastar energia desnecessária dizendo qualquer coisa. “Preciso ir, a Temari está esperando. E ela anda bem irritada ultimamente.”

De todas as mulheres que podia imaginar com o Shikamaru, uma mulher energética e mandona como Temari seria a última escolha. Mas eu podia ver que ele estava realmente apaixonado por ela, assim como seu pai era apaixonado pela sua mãe, também extremamente nervosa. Deve ser de família.

“Pode ir, também não quero meu conselheiro morto.”

Shikamaru curvou-se respeitosamente e deixou o quarto. Soltei um suspiro, irritado. Shikamaru sabia que odiava quando ele agia dessa forma. Não era do seu feitio.

Virei-me para o espelho uma última vez para ver se nada teria saído do lugar, vendo o pânico tomar conta de mim mais uma vez ao me ver vestido daquela forma. Detesto essas roupais formais, me fazem parecer um velho.

“Bom, você vai se casar,” murmurei enquanto ajeitava a camélia na lapela. “Acho que você já está velho.” Respirei fundo, voltando meus olhos para o espelho. “E agora estou falando sozinho. Estou mesmo velho.”

Gostaria que meus pais estivessem aqui para me ver. E Jiraiya-sensei também… Uma onda de tristeza me percorreu. Respirei fundo para mandá-la embora. Hinata não podia ver o menor sinal disso em meu rosto – este dia é muito importante para ela, pensei.

E então, fui andando até a porta. Dando passos cautelosos como se estivesse em território inimigo e houvesse minas explosivas no chão.

Não sabia o que me aguardaria assim que saísse daquela porta. O futuro parecia próximo de mim, mas desconhecido o suficiente para me deixar receoso. Como seria a minha vida depois daquele dia? Eu não fazia a menor ideia. Teria um bom casamento? Poderia fazê-la feliz, mesmo com a vida caótica e ocupada que é a de um Hokage?

Não vale a pena pensar nisso agora, pensei para afastar os pensamentos negativos. Tudo o que eu preciso fazer é sair por aquela porta e me casar. Só isso.

Minha respiração estava difícil, como se algo bem pesado estivesse sendo pressionado sobre meu peito. Era esmagador e sufocante. Fortes pontadas de dor vinham sem o menor aviso enquanto respirar se tornava cada vez mais impossível.

Sentei-me na cama, enquanto esperava o ar voltar aos meus pulmões. As pontadas no peito eram súbitas e irregulares e pareciam doer mais e mais a cada vez.

Seu rosto surgiu em minha mente, tão subitamente quanto a dor que me afligia. Junto à dor, um desespero emergiu de dentro e me tomou por completo. Meu coração começou a bater tão forte que parecia estar a ponto de parar a qualquer momento. Eu tentava desesperadamente respirar, como alguém prestes a se afogar no mar enquanto lágrimas vertiam de meus olhos.

O sentimento era tão familiar... reconheci-o imediatamente.

Levantei-me da cama em um pulo rápido, tentando ignorar a dor que ainda palpitava dentro de mim. Saí do quarto e corri para fora.

Tentei respirar fundo, mas ar nenhum parecia adentrar meus pulmões — mesmo estando do lado de fora, repleto por árvores. Como eu suspeitava, pensei. Nunca foi o ar.

Droga, Sasuke... Até quando continuarei a sentir sua falta?

“Está pronto, Hokage?” A voz de Shikamaru surgiu atrás de mim, calma como sempre. “Podemos ir até o local da cerimônia?”

“O Sasuke já chegou?” Tentei manter a voz firme, sem muito sucesso.

“Ainda não.”

Mais uma pontada forte cortou o meu peito. Seu maldito...

“Preciso fazer mais uma coisa.” Eu disse, sem me virar para vê-lo. A última coisa que queria naquele momento era que Shikamaru me visse a ponto de chorar no dia do meu casamento.

Ignorando os gritos de Shikamaru, que ficavam cada vez mais distantes, corri sem rumo – mas minhas pernas pareciam saber perfeitamente para onde deviam ir. Adentrei a floresta o mais rápido que pude. Esqueci de tudo naquele momento – o casamento, as pessoas, meu posto... tudo o que eu conseguia pensar era em como gostaria de vê-lo de novo.

Sasuke...

Eu conhecia muito bem o trajeto que inconscientemente estava seguindo. Parecia me atrair como um ímã... aquele era o único local onde eu podia deixar tudo para trás. Eu costumava ir para a floresta quando me sentia triste. Sempre parava numa pequena e aconchegante clareira e me permitia chorar e expelir todas as minhas angústias.

Naquele momento, era tudo o que eu precisava. Não... Não exatamente tudo, mas era tudo o que eu tinha.

Mal havia chegado na clareira e meu corpo cedeu. Desabei no chão. Mas que droga... Coloquei a mão direita sobre meu peito, esperando que a dor passasse, mas não passava… Eventualmente a dor iria embora, mas era apenas temporário. Logo tudo aquilo voltaria e me esmagaria como sempre faz, e... não importa o quão forte eu seja, eu...

Deixei uma lágrima cair.

Por que sua ausência dói tanto?

“Droga, Sasuke...” minha voz fraca sussurrou.

O barulho de folhas quebrando interrompeu meus pensamentos. Passos cautelosos vinham em minha direção. Fiquei imóvel. Provavelmente Shikamaru havia me seguido para me arrastar de volta.

“Shikamaru, eu... já estou indo, só me dê mais um tempo...” Minha voz falhava a cada palavra, oscilante. Não queria me virar para vê-lo, ele não podia me ver naquele estado.

Ele abaixou-se atrás de mim e encostou uma mão em meu ombro.

“Olá, Naruto.” Um cheiro familiar tomou conta de minha mente. Sua voz tão próxima de mim fez um arrepio percorrer todo o meu corpo.

Virei-me para trás e lá estava ele. Nossos rostos estavam tão próximos que era possível sentir sua respiração. Devido à proximidade, meu corpo se afastou um pouco em reflexo. Ele me lançou um olhar confuso.

“Como me encontrou aqui?” Foi a única coisa que consegui perguntar. Toda a tensão no meu corpo desapareceu de uma só vez.

Sasuke lançou-me um meio sorriso arrogante. “Sabe com quem está falando, dobe? Tsc, você me subestima.” Ele deu de ombros, levantando-se, batendo as mãos nos joelhos para remover a sujeira. Naquele momento, olhei para meu kimono, que estava todo sujo. Droga. “Eu também não sei como vim parar aqui. Quer dizer... eu não sei. Só vim.” Disse, sorrindo discretamente. “Não está feliz em me ver?”

“Feliz?” exclamei, mais alto do que gostaria. “Você é tão convencido.”

“É a única coisa que tenho a meu favor.” Ele disse, enquanto estendia a mão para mim. “Vem, levanta senão vai ficar mais sujo do que já está.”

Assim que me levantei, tentei tirar a sujeira do meu kimono. Consegui tirar o excesso, mas ainda continuava bem sujo. “Não importa quanto tempo passe, acho que nunca vou ter um pingo de inteligência.”

Sasuke riu. “Pensar nunca foi seu ponto forte.” Disse enquanto rumava a uma área com uma concentração grande de árvores. Recostou suas costas no tronco de uma delas, tentando agir como o cara mais legal da face da terra. Eu o segui e fiquei próximo a ele. Repousei meu braço sobre o kimono... Não havia mais dor nenhuma… meu peito estava aquecido, sentindo um conforto que só ele podia trazer.

“O que está fazendo aqui, Naruto?” Sasuke indagou, curioso.

“Não estava me sentindo muito bem...” forcei um sorriso.

Sasuke levantou levemente a cabeça, os cabelos caindo em seu rosto como uma cortina negra. “Não está bem? De todos os dias, este é o dia em que você deveria estar melhor.” Enquanto dizia isso, pude ver que tentava evitar o encontro dos seus olhos com os meus.

Dei um sorriso frouxo, mesmo que ele ainda não estivesse me vendo. Olhei para o chão, chutando algumas folhas caídas. “Eu sei, é que… Este deveria ser um dos dias mais felizes da minha vida, mas não parece… certo. Eu... Eu não sei se é isso que eu realmente quero.”

Ouvi Sasuke soltar um pesado suspiro. Levantei os olhos para vê-lo; ele me fitava com olhos tristes, como se neles houvesse algo muito importante que tentavam me dizer. O farfalhar das árvores era o único som que se fazia presente, tornando o silêncio entre nós cada vez mais pesado.

Uns bons minutos se passaram assim, sem que nenhum dos dois dissesse nada. Dizer que pareceu uma eternidade soaria clichê, mas… realmente parecia que passamos horas naquela clareira. Era uma sensação acolhedora… Sempre que estávamos próximos um do outro, eu tinha certeza de que todo o esforço para trazê-lo de volta valera a pena.

Ele era, definitivamente, a pessoa mais especial para mim. Poderíamos conversar por horas e eu nunca me cansaria da sua voz… O seu modo de falar, como se tivesse um poder sobre as palavras. Quando ele falava, tudo o que eu conseguia fazer é escutar. Não de um jeito superficial, como quem está apenas esperando sua vez de falar, mas… realmente escutar. Ouvir, hipnotizado, enquanto as palavras saíam de sua boca, uma a uma, como se fossem a verdade do mundo.

O vento soprava gentilmente em nossos rostos imóveis. Os olhos fixados um no outro como se nada mais existisse além de nós dois. Nada mais existia para mim naquele momento – apenas Sasuke.

“Você tem certeza disso, Naruto?” Sasuke hesitou ao perguntar. “De que… é isso que você quer.”

Senti meu peito se contorcer — mais do que da última vez. O desespero me engolia como um monstro – maior do que qualquer outro que eu já tivesse visto antes. Eu conhecia esse sentimento tão bem, mas sempre me pegava de surpresa. Mais uma vez, senti o mundo se fechar sobre mim. Tudo estava começando a sumir, meus sentidos falhavam… Tudo parecia desaparecer aos poucos enquanto eu tentava lutar contra isso com todas as minhas forças.

Minhas pernas fraquejaram e eu caí de joelhos no chão, produzindo um baque alto. Senti as mãos de Sasuke me segurando, tentando me levantar. Sua voz ecoava em meus ouvidos, mas não conseguia entender palavra alguma, apenas gritos abafados e desconexos. Lágrimas saíam dos meus olhos enquanto meu corpo procurava por ar. Minha visão estava embaçada.

Senti algo me envolver. Forte, mas ainda gentil.

Quando a minha visão voltou ao normal, me vi imerso em uma cortina negra. Um cheiro nostálgico, como se fosse a minha casa.

Meu rosto, enterrado em seus cabelos e meu corpo, envolvido em seus braços. Podia senti-lo respirando, seu peito se movia de forma violenta.

Uma onda de preocupação intensa tomou conta de mim. “Sasuke, o que foi? Você está bem? O que você tem?” As palavras saíam desesperadas, atropelando-se.

“Preocupe-se com si mesmo, usuratonkachi.” Sua voz estava trêmula e fraca. Sasuke me apertava com força desmedida, que fazia meu corpo doer, mas não consegui dizer nada – não queria dizer nada. Por tanto tempo, tudo o que eu queria era senti-lo — e estar ali, envolto em seus braços, seu cheiro… tudo o que ansiei com tanta força… Não importava o quanto doesse, sua ausência doía mais do que qualquer dor física.

Uma felicidade que eu há muito não sentia aqueceu todo o meu corpo. O oposto do que senti antes… como o conforto de descansar depois de um dia longo de esforço. Como o sopro gentil do vento depois de um dia de chuva. As batidas do meu coração estavam descontroladas, mas calmas e eu me sentia tão bem.

“Não…” murmurei, me afundando ainda mais em seus braços. “Não é isso que eu quero. Nunca foi. Sasuke, eu…” Minha voz tremia e, naquele instante, eu era o total oposto do homem que eu fingia ser. Sentia as lágrimas prontas para sair a qualquer momento, mas eu não me importava. Não podia mais segurar aquelas palavras. “Sasuke, eu preciso tanto de você.”

Incapaz de controlá-las, as lágrimas logo vieram, pesadas. Permiti que saíssem – era o único jeito de lidar com a dor que eu estive carregando por todo aquele tempo. Mergulhando em seus cabelos, chorei por longos instantes. Durante todo aquele tempo, Sasuke não moveu um músculo sequer.

“Droga…” murmurei entre os soluços “Por que você tem que causar isso em mim?”

Sasuke suspirou, e sussurrou:

“Eu me pergunto exatamente a mesma coisa.”

Aos poucos, o aperto foi afrouxando. Relutantemente, eu recuei um pouco. Com nossos rostos realmente próximos, usando sua única mão, Sasuke limpou as trilhas de lágrimas do meu rosto.

Ele tocava minhas bochechas gentilmente, com uma delicadeza que não aparentava ter. Acariciou meu rosto por alguns instantes. Trilhou lentamente as marcas em meu rosto. Seus toques eram cuidadosos, como se tivesse receio de causar algum dano. Os olhos fixados em mim, curiosos, como uma criança descobrindo um território completamente novo, queimando em meu rosto como se conseguisse enxergar o meu interior.

Diminuiu quase por completo a distância entre nossos rostos – prendi a respiração e meu coração acelerou. Eu conseguia sentir sua respiração quente em minha pele, calma e pacífica. Seus olhos percorreram todo o caminho do meu rosto, parando em meus lábios.

“Posso…?” Sasuke sussurrou, com a voz fraca, sem se mover um centímetro. “Preciso saber como é.”

Fiquei assustado com a violência das batidas do meu coração, que reverberavam em todo o meu corpo. O que é isso…?

Respirei da forma mais suave que podia – tinha medo de fazer algum movimento brusco que o assustasse.

Quis dizer que sim. Quis dizer muitas coisas. Queria dizer o quanto eu também precisava saber como era. Entendi o quanto precisava daquilo, o quanto todas as fibras do meu corpo ansiavam por ele. Queria dizer tanta coisa… mas tudo o que consegui produzir foi um som fraco, quase inexistente.

Quando ele finalmente encostou seus lábios nos meus, tudo desapareceu.

Eles tocavam os meus gentilmente e eu conseguia senti-lo como nunca havia sentido ninguém antes. Mais do que senti-lo fisicamente… entendia seus verdadeiros sentimentos. Depois de toda a dor e sofrimento, estávamos ali – hesitantes, machucados, mas completos.

Inspirei lentamente, para sentir o seu cheiro. Segurei seu rosto com ambas as mãos, tocando-o para ter certeza de que tudo aquilo era real. Que aqueles eram realmente ele e eu.

Relutante, afastei seus lábios dos dele, ainda segurando seu rosto. Fitei-o por um longo tempo, tentando gravar tudo aquilo.

Sasuke enrubesceu, evitando me olhar. Eu só conseguia sorrir.

Ainda sentado, ele encostou novamente as costas no mesmo tronco de árvore. Dobrou os joelhos e os aproximou do corpo, repousando o rosto neles… mostrando uma faceta vulnerável do homem que parecia não ter fraquezas.

“Eu não entendo muito dessas coisas, Naruto, mas… Durante todo esse tempo, eu vivia me perguntando se isso é que é a amizade, porque você é o meu único amigo. Muitas vezes eu vou vagar pra pensar sobre isso, os meus sentimentos… e quando descobri que você ia se casar, eu tive certeza de que não era apenas amizade…” Ao dizer tais palavras, Sasuke fixou seu olhar no chão. “Eu… fiquei com ciúme.” Falou tão baixo que quase não ouvi, mas não pude evitar abrir um sorriso ao entender, aliviado que ele não estivesse me olhando. “Metade do tempo…” continuou, hesitante. “Eu só penso em voltar pra te ver, e na outra metade eu fico me culpando por ter esses pensamentos em relação a um amigo tão especial pra mim. Você que tem muitos amigos e pessoas especiais… é assim que você se sente?”

Soltei um riso baixinho enquanto olhava para as árvores que balançavam com o vento acima de nós.

“Só com você.”

Voltei-me para Sasuke; ele me fitava, confuso.

“Isso que senti agora há pouco… acontece comigo sempre desde que você foi embora pela primeira vez. Eu venho lutando contra isso há muito tempo, tentando mentir pra mim mesmo, mesmo sabendo muito bem o que é. Eu entendi os meus sentimentos há muito tempo, Sasuke, mas até hoje não sei o que fazer com eles. Hoje é o dia do meu casamento e eu sinto como se a minha vida fosse mudar pra sempre… Hinata é uma pessoa gentil, e me mata estar com alguém tão doce ao meu lado e só conseguir pensar em como eu gostaria de estar com você.”

Ele parecia surpreso com minhas palavras.

“Naruto…”

“Mesmo com tudo o que aconteceu, eu nunca desisti de você, Sasuke. Eu não desisti porque… porque eu preciso estar com você. E agora, com esse beijo… eu finalmente senti que encontrei o meu lugar. Depois de uma vida inteira sozinho, finalmente me senti completo. E em pouco tempo voltarei para a vila e vou me casar… e eu sinto que esse será o pior erro que eu vou cometer na vida.”

Sasuke suspirou, mas não disse nada.

Ficamos em silêncio por longos minutos. Meu coração ainda não tinha se acalmado.

“Tem certeza que não quer voltar atrás?” Ele perguntou, me olhando com olhos esperançosos.

Soltei um longo suspiro. “Eu nunca volto atrás… esse é meu jeito ninja, não é?”

A expressão de Sasuke se contorceu em tristeza. Levantou a cabeça, olhando para o céu. “Acho que eu demorei demais pra entender o que sinto.”

Olhando para ele percebi que, em todo aquele tempo, nunca o tinha visto tão triste. Longos minutos se passaram enquanto nenhum dos dois dizia nada para quebrar o silêncio. Ele não tirava os olhos do céu, como se algo de muito importante houvesse lá.

Quebrando meus pensamentos, Sasuke levantou-se. Depois de dar batidinhas nas roupas pretas com a mão para limpá-las, estendeu-a para mim. “Imagino que já seja hora de ir embora. Você tem um casamento pra ir.”

Meu peito parecia ser contorcido.

Peguei sua mão e me impulsionei para cima. De pé, tentei limpar minhas roupas com as mãos, sem sucesso. “Você não pode se casar com isso.” Sasuke disse ao ver o estado em que meu kimono se encontrava. “Precisa estar bonito.”

Esticou o braço em minha direção. Meu coração acelerou, esperando por algo. Porém, Sasuke apenas tocou a camélia em meu peito, ajeitando-a. “Uma camélia… bela flor.”

Eu não conseguia dizer nada, pois tinha medo que as palavras que saíssem da minha boca fossem o que minha mente gritava.

Queria continuar ali pra sempre.

“Você vai pro casamento?” Foi a única coisa que consegui dizer.

Sasuke me olhou longamente, com tristeza nos olhos. “Sinto muito, dobe, mas acho que não será possível.”

Não consegui culpá-lo nem ficar chateado. Eu o entendia perfeitamente.

“Mas pode dizer a todos que mandei um oi.”

“Pode deixar,” Disse, lançando-lhe um sorriso forçado.

Tocou o meu braço longamente, e hesitou várias vezes, como se quisesse me dizer algo. Sem dizer nada, se virou e foi embora.

Mesmo que, dessa vez, as coisas fossem diferentes… Mesmo que, dessa vez, ele não estivesse indo embora… Por que vê-lo partir doía tanto?

Pela primeira vez desde que cheguei naquela clareira, lembrei-me do que aconteceria em pouco tempo. Hinata, uma doce garota a quem eu não gostaria de machucar, esperava por mim. E eu deveria seguir com a minha palavra.

Ignorei os impulsos do meu corpo para ir na mesma direção que Sasuke tinha ido. Não podia voltar atrás.

Com passos lentos, tomei o caminho contrário – o caminho pelo qual tinha vindo – de volta para a vila. Não sentia ânimo algum pra correr, e além do mais, precisava de um tempo para pensar. A vida seria bem diferente a partir dali.

Apesar de tudo… por algum motivo, parte de mim estava feliz. Sasuke sempre fora a pessoa mais importante pra mim. Estando com ele ou não… não importava. Estar perto dele era o suficiente.

Parei de andar e inspirei profundamente. Sentia-me em paz, de alguma forma.

Sasuke… Não vou deixar essa ser a última vez.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!