Notas iniciais
"Eu vou! Mas quando voltar, nós dois seremos livres... Juntos!" =§= Infelizmente, não terá continuação! Capítulo único!

A liberdade é algo tão difícil de conquistar que, quando ela aparece, é melhor agarrarmos a oportunidade.

Vou confessar: já fiz muita besteira na vida. Sabe aqueles jovens que aprontam todas, que todos dizem que não tem jeito?! Era eu! Desde criança fui assim. Moleque levado e muito desobediente. Esse defeito me levou a grandes aventuras e grandes confusões. Na adolescência cheguei a ir três vezes ao reformatório. Saia com a promessa que ia me comportar e voltava, porque nunca cumpria uma promessa. Mas, também fui três vezes naquele trem que passava perto de casa. Entrava escondido e assim viajava, descobrindo esse mundo. Sempre me descobriam e eu regressava obrigado, mas feliz pela aventura.

Enfim, fiquei adulto. Numa dessas quase fui parar na cadeia. E vi que era hora de tomar jeito na vida ou as consequências se tornariam cada vez mais sérias.

Foi difícil, mas me afastei de algumas amizades e arrumei um emprego. Não era grande coisa, mas minha vida parecia estar mudando. Foi quando a conheci. Era linda, maravilhosa. Eu estava apaixonado. Ela também gostou de mim. Ela era a filha do patrão. Mesmo assim, vivemos aquela paixão. Contra todos, ela tentou se adaptar a minha vida. Não deu certo. Ela voltou para casa e eu tentei me adaptar a vida dela para ficar junto dela. Mas, agora me sentia mais preso do que quando estava no reformatório. Minha prisão era minha casa, as grades eram as janelas e portas. A sensação de mudança de vida ao invés de me fazer bem, me destruía, pois parecia que agora estava mais preso do que nunca. Antes pelo menos eu fazia o que queria, tinha uma liberdade vazia, porém liberdade. Agora, nem isso.

Brigávamos a toda hora. Eu saia com um imenso desejo de me libertar e não voltar nunca mais para aquela “prisão domiciliar”. Mas, voltava arrependido quando a via chorar. Certo dia, perguntei por que chorava por mim, por que não me deixava de vez. Sua resposta me fez ver o quanto eu estava sendo egoísta. Ela me contou sua história. Ela também se sentia presa durante toda a vida. Não era fácil ser a filha de um homem de negócios que sempre fora ausente com sua família. Ela nunca havia vivido experiências excitantes como as minhas, de minha adolescência. As viagens escondido no trem, as besteiras que me fizeram ter uma ficha no reformatório, tudo isso era meu passado. Eu tinha vivido emoções, mas a vida dela foi fria, apagada. Ela tinha muita coisa que outras poderiam querer, mas, o principal lhe faltara: liberdade.

Minha consciência doeu e meu coração falou mais alto. Eu ainda a amava e precisava mostrar para ela o que era liberdade de verdade. Nem que para isso ela tivesse que se ver livre até de mim. Levei-a para a estação e depois de uma conversa com ar de despedida, abracei-a dizendo: — Pegue o trem!

Ela partiu sorrindo. O mesmo sorriso que eu tinha quando embarcava clandestinamente naquele trem. E eu segui com a promessa que ela sussurrou ao meu ouvido antes de embarcar: — Eu vou! Mas quando voltar, nós dois seremos livres... Juntos!

Notas finais
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