Peggy
2 Capítulo 2 - O Rapto dos Doadores
O sol da manhã entrava oblíquo pela janela da sala de aula, ressaltando a textura do antigo quadro verde sujo de giz que cobria a parede de fora a fora. Interrompendo a visão da parte central do quadro, uma tela de lona estendida, sem nenhum slide. Em pé, em frente à tela, vestindo um terno cinza claro, por cima de uma camisa amarelo pastel, com a gola desabotoada, estava Prof. Jamal. Único professor negro do curso de biotecnologia, ele não usava projetor, tampouco se importava em recolher aquela lona que inutilizava grande parte do quadro. Quando muito, fazia esboços e rabiscos com giz nas laterais que sobravam de cada lado do quadro. Ele preferia falar. A sala estava cheia e os alunos ouviam com atenção, alguns por interesse pelo tema, outras com admiração, encantadas pelo jovem professor. Prof. Jamal não se incomodava em ser o foco das atenções. Ele tinha essa capacidade de, sozinho, preencher todo ambiente com sua presença. A aula parecia sempre uma espécie de monólogo improvisado, e cabia à Marília, sua bolsista de docência orientada, colocar alguma estrutura àquele caos, postando materiais e exercícios na página da disciplina. O assunto de hoje era um de seus prediletos: a história de como o mecanismo imunológico de umas bactérias acabou se tornando uma das descobertas mais importantes do século. Com a cabeça erguida e voz assertiva, Prof. Jamal explicava.
— Foi em 1987 quando Ishino e seus colaboradores identificaram regiões repetidas e intercaladas no genoma da bactéria Escherichia coli, que... — interrompido pelas intermitentes vibrações de seu smartwatch, afastando a manga do casaco, como quem olhava a hora, Prof. Jamal observou que se tratava de uma chamada de Marcelo, seu bolsista de pós-doutorado.
Ele levantou o indicador da mão direita para o alto, num gesto para que os alunos aguardassem.
— Turma, só um momento, por favor. — disse, enquanto puxava seu smartphone do bolso com a mão esquerda, desdobrando a tela flexível do aparelho e levando ao ouvido.
— Alô, Marcelo? Que aconteceu?
— Professor, invadiram o laboratório! Levaram os animais!
Prof. Jamal era uma pessoa extremamente racional, mas ao ouvir aquilo sua face reagiu, ainda que apenas sutilmente. Sua mão encontrou sua testa. Sem entender, alguns alunos observavam preocupados.
— Os doadores?
— Sim, todos!
Ainda com a mão na testa, congelado naquela mesma postura, Prof. Jamal virou seu olhar para os cinquenta e poucos alunos que o observavam também estáticos e atentos.
— Marília, por favor, aguarda todos saírem, depois desliga tudo, tranca a porta e devolve a chave na portaria — pediu à sua fiel ajudante, que sentava na primeira fileira.
Em seguida, ele pegou sua maleta e saiu apressado. Com a cabeça baixa, caminhava rápido imaginando ver, no reflexo do porcelanato do corredor, um filme de tudo pelo que havia passado nos últimos anos para chegar até onde estava. Jamal foi criado pela mãe, que era solteira e ganhava a vida fazendo bicos como doméstica. Dona Tânia trabalhou duro, dedicando sua vida para que seu único filho pudesse estudar e ter algum futuro na vida. Jamal entrou na universidade federal como cotista, e estava sempre inscrito em todos programas sociais. Ele participou como bolsista de projetos de pesquisa, rapidamente se tornando o pupilo favorito do famoso e excêntrico neurocientista, Prof. Bartali. Dona Tânia ainda viu, orgulhosa, o filho receber o canudo, mas no ano seguinte ela perdeu a luta contra um câncer no pâncreas que descobriram tarde demais. Jamal estava no primeiro ano do mestrado, e a morte de sua mãe lhe marcou profundamente. Ele decidiu que se dedicaria a ajudar os milhares de pacientes que, como sua mãe, perdem a vida aguardando na fila de doação de órgãos. Fez disso sua carreira.
Prof. Jamal era hoje o líder do grupo de pesquisa e coordenador daquele projeto, que estava em seu terceiro ano. Havia seis meses que estavam criando aqueles animais, os "doadores". Iniciaram a fertilização dos óvulos logo após terem vencido uma longa batalha jurídica pela adequação da lei brasileira, que ainda não previa transplantes envolvendo animais. Aquelas eram as primeiras quimeras do país, misturando material genético suíno e humano. A técnica pioneira havia sido criada originalmente por um grupo chinês, e foi alvo de intensa polêmica no meio acadêmico. Depois de um longo e amplo debate, pressionados pela escassez mundial de órgãos para transplante, o comitê internacional de bioética da UNESCO finalmente havia produzido um documento com diretrizes para balizar aquela prática. Prof. Jamal participou ativamente de toda aquela luta, e estava finalmente prestes a colher os primeiros resultados. Não mais.
Ao chegar na entrada do pavilhão onde ficava o laboratório, Prof. Jamal empurrou a porta com força, fazendo ela bater na parede oposta. Ele entrou feito um raio. A luz brilhante do sol da manhã refletia nas prateleiras de vidro e nos mobiliários de aço inoxidável, iluminando o ambiente.
— Levaram mais alguma coisa? — perguntou. O familiar cheiro dos produtos químicos e dos animais roubados parecia ainda estar presente no ar.
— Está tudo aqui. Reagentes, kits com plasmídeos CRISPR, agentes inibidores, termocicladores. Parece que não falta nada. Só levaram mesmo os animais.
O Prof. Jamal ficou parado no meio do laboratório, olhando em volta. O amplo e iluminado espaço revelava bancadas cobertas com pipetas, tubos de ensaio e outros equipamentos de laboratório, mas não havia sinais de violência ou bagunça. Ele ergueu diante de si um dos muitos frascos de solução que estavam ali, logo à sua frente. Parou por uns segundos, com o vidro frio e liso sob seus dedos, observando o líquido transparente, quase cristalino, agitado pelo movimento. Aqueles insumos valiam uma fortuna. É claro que não seria viável furtá-los buscando vantagem financeira, afinal, não teriam valor nenhum fora do contexto específico do projeto para o qual foram encomendados. Mas se quisessem mesmo sabotar o projeto, teriam destruído tudo. Isso sim custaria uma fortuna e levaria anos até seu grupo conseguir buscar recursos suficientes, junto às agências de fomento à pesquisa, para encomendar e importar todos aqueles materiais novamente. Com os crescentes cortes de verba do governo federal, seria praticamente impossível.
— Quem fez isso provavelmente não entende muito sobre o nosso trabalho — disse Prof. Jamal.
— Aham — respondeu Marcelo, sem necessariamente entender qual tinha sido a linha de raciocínio do professor.
Estudioso e dedicado, Marcelo trabalhava diretamente sob a orientação de Prof. Jamal. Loiro de cabelos curtos, sempre bem penteados, usava óculos de grau e tinha uma figura esguia e andava sempre de jaleco. Prof. Jamal sabia que podia contar com ele em qualquer situação.
Ainda observando o frasco em sua mão, Prof. Jamal perguntou sobre as enzimas inibidoras.
— Na geladeira, já conferi! Tudo lá! — respondeu Marcelo.
Eles precisavam recuperar os animais logo para evitar quebrar os protocolos a ponto de comprometer completamente os transplantes. Acontece que o DNA que era inserido no óvulo suíno para produção de pâncreas humano, desencadeava diversas outras mutações colaterais. Se permitissem seguir seus cursos, essas mutações resultariam no desenvolvimento de outras características humanas, com consequências imprevisíveis. Aquilo exigia um protocolo complexo e caro, onde diferentes agentes inibidores eram administrados durante diferentes períodos críticos do desenvolvimento do feto suíno, até sua idade adulta, ao longo dos primeiros cinco meses de vida dos animais. O propósito específico do presente projeto que Prof. Jamal liderava era justamente minimizar essas mutações, que estavam entre os principais obstáculos para tornar aquele procedimento escalável.
Prof. Jamal não estava muito preocupado com as mutações em si. Na prática, as mutações praticamente não afetariam em quase nada o desenvolvimento do órgão humano e, tecnicamente, não comprometeriam o posterior transplante. Além disso, as chances de se produzir um indivíduo mutante saudável eram mínimas. Provavelmente o animal nem sobreviveria muito tempo. Mas as implicações éticas de se criar animais com características humanas é que precisavam ser evitadas. As diretrizes internacionais exigiam que os protocolos fossem rigorosamente seguidos. Se descobrissem um porco por aí com qualquer mínimo resquício de estruturas humanas na anatomia de seu sistema nervoso, por exemplo, seria um prato cheio para a imprensa internacional e destruíram com sua carreira.
Ele se sentia frustrado por estar preso a tantas regras. Se pudesse desenvolver fetos suínos com DNA humano livremente, isso abriria novas portas para o conhecimento e a compreensão da natureza humana e até mesmo para salvar vidas. Os avanços seriam incalculáveis. De qualquer forma, as principais janelas epigenéticas para mutações cognitivas ocorriam nas primeiras três semanas, e os animais roubados já eram todos bem mais velhos que isso.
De repente, Prof. Jamal lembrou.
— E a fêmea gestante?
— Levaram junto.
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