Assim que cheguei ao escritório fui avisada de que a minha mãe tinha saído. «Graças a Deus, tempo para mim!» pensei e segui rumo ao meu local de trabalho: aquele maldito sótão.

- Por hoje estás dispensada.- A voz de Max ecoou naquele sótão já quase vazio, horas depois.

- O que fazes aqui?- perguntei ainda assustada.

- Vim buscar-te, passei pela tua mãe, disse que esperava mas ela insistiu que eu te levasse já embora.- ele disse enquanto me dava a mão e me ajudava a levantar.

Assim que ele me levantou os nossos rostos quase se tocaram e eu senti a respiração dele no meu pescoço. Mas eu não podia, por mais lindo e maravilhoso que ele fosse, não podia haver nada...

- Obrigada- agradeci e afastei-me rapidamente.- Vamos?

- Vamos.

Pelo caminho falamos das coisas mais variadas e Max fazia-me rir.

Assim que chegamos ao campo de futebol ele estacionou.

-Eu queria que viesses aqui comigo, uma última vez antes de fazeres voluntariado aqui.- ele disse sério e nervoso

- Porquê?- perguntei

- Porque eu quero te mostrar umas coisas. Quero que tenhas a certeza que é isto que queres fazer...não quero que desistas como fez o teu irmão, porque isto é muito importante para mim...- ele disse tímido e sem me olhar.

- Max? Eu não tenciono desistir...vamos lá ver isso?

Ele levantou-se calmamente e ajudou-me a sair do carro.

- Isto é muito pessoal. Quase ninguém tem acesso a esta sala.- disse-me assim que chegamos a uma porta laranja no interior do estádio.

- Okay, mas porquê?- perguntei séria

Ele não me respondeu apenas virou a cara rapidamente, mas eu ainda fui capaz de ver uma lágrima a escorrer pelo seu rosto.

- Este era o meu irmão mais velho. Só durou até aos 21 anos.- ele disse com a voz rouca e quase a desabar em choro quando olhou para uma foto.- tinha o mesmo problema que estas crianças e no entanto era um lutador...

- Lamento...

- Eu também...só eu e ele sabemos como lamento. Mas, eu não mostrei isto ao Leandro. Sempre tive esperança que com todas as suas maluquices ele entendesse que fazer isto era importante para mim.

- Eu sei que ele sabe.- tentei defender o meu irmão.- Talvez não imagine é o motivo...

- Não o posso culpar.- ele interrompeu-me.- Na verdade, tudo o que eu quero é dar a estas crianças aquilo que o meu irmão...o meu campeão...não pôde ter. Entendes?

- Sim.

- Ainda queres fazer parte desta equipa?

- Claro que ainda. Max, eu estarei do teu lado em todas as ocasiões que estas crianças precisarem...- respondi enquanto o abraça forte.- Agora somos amigos..

- Obrigado.- ele disse enquanto enxugava algumas lágrimas.

- Ora essa.- sorri- anima-te, tenho a certeza que ele está orgulhoso de ti, olha no que te transformas-te! És um rapaz maravilhoso que se preocupa com os outros.

- Obrigado...por tudo...- ele disse respondeu enquanto se sentava ao lado de uma mesa cheia de cartões e taças.

Ele estava mesmo cansado, tinha olheiras gigantes e eu estava a ficar preocupada.

- Tens dormido bem?- perguntei quase sem pensar

- Não. Porquê?

- Anda, vamos para minha casa.... tens de descansar e eu vou tratar de ti.

- Achas mesmo? Não sou nenhuma criança, não te preocupes...- ele disse calmamente

- Claro que me preocupo, tens jogo amanhã....

- Okay, só aceito por isso mesmo...- ele olhou-me carinhosamente, como só ele me sabia olhar

- Então vamos, eu conduzo.

Ajudei Max a entrar para o lugar do pendura e fechei a porta. Depois de contornar o carro sentei-me ao volante e comecei a conduzir em direcção a minha casa.

- LEANDRO???- gritei assim que cheguei a casa

- Sim?- ele gritou de resposta

- Preciso de ajuda!!!

Rapidamente ele apareceu á minha frente em fato de treino e perguntou o que eu queria.

- Para começar que vás buscar o nosso irmão...- respondi com um sorriso

- És uma parvalhona!- ele respondeu enquanto me dava um abraço e voltava a entrar.

- E tu um idiota!- respondi assim que ele fechou a porta.- Já viste isto Max? Nem te ligou nenhuma...

- Deixa para lá. Já está habituado com a minha presença.

- sendo assim...vamos entrar?

- Parece boa ideia..- ele respondeu com um sorriso tosco.