Quando acordei João já estava a tomar o pequeno almoço e, mais estranho ainda, a minha mãe ía passar o dia em casa.

- Isso quer dizer...?- perguntei confusa com a decisão dela.

- Que está na hora de nos tornarmos numa família, como era antes.

- Isso nunca mais vai acontecer e sabe os motivos...

- Dá-me um desconto Mary.

- Até posso tentar, mas lamento, eu e João já temos planos para hoje. Quem se sabe talvez de tarde possa estar um pouco com ele enquanto eu vou resolver a minha vida?

- Isso quer dizer...

- Quer dizer que eu vou levar o João a jantar na casa de um amigo especial tanto para mim como para ele.

- Mary, tudo bem...acho que posso conciliar isso com um pouco de trabalho...

- Como queiras!- respondi enquanto virava costas e subia para me arrumar.

Quando terminei olhei-me ao espelho, as calças de ganga e a camisola que me cobriam não me davam a forma de corpo ideal, e isso não me preocupava. Sempre fui de estatura média e nunca me preocupei com esse tipo de coisas.

E além do mais, aquele era o meu estilo. Sempre fora, não seria agora diferente.

- Estás pronta?- João abriu a porta sem bater sem nada.

— Estou pequeno.

- Não me vais berrar?- disse surpreso

- Porquê?

- Entrei sem bater...podias estar sem roupa.

- Deixa isso para lá, talvez te grite mais tarde. Agora não estou com cabeça para isso querido. E tu? Prontinho e queres mudar alguma coisa?

- Prontinho!

Sorri com aquele pequeno homem á minha frente e fechei a porta do quarto.

- Mãe? Já vamos!

- Divirtam-se....

(....)

- Olá, tudo bem querida? — perguntou Kristy assim que abriu a porta.

- Tudo bem e por aqui?

- Tudo igual, posso só pedir que não façam barulho? O Max ainda está a dormir.

- Viemos cedo de mais?-perguntei um pouco nervosa com aquela surpresa

- Não, nada disso. Ele deve estar mesmo a acordar. Porque não vais até ao quarto dele? Eu fico com o teu irmão...tenho a certeza que nos vamos dar muito bem.

Agradeci e subi até aquela divisão. Bati á porta mas ninguém me respondeu por isso, abri com cuidado e acabei por entrar. Com a pouca luz que entrava eu senti o quarto bastante confortável e bem no meio da cama dormitava o corpo de Max. Rondei a cama até conseguir focar a sua cara. Naquele momento o rosto dele estava sereno e eu não conseguia decifrar aquilo que ele estava a pensar ou a sentir. Parecia tão calmo...tão tranquilo...

Acabei por me sentar numa cadeira que ele tinha ao lado da secretária e fiquei assim, a olhar para todos os cantos sem ter noção daquilo que realmente estava a observar. Mas acabei por fazer algum barulho e ele acordou assustado.

- Desculpa.- sorri com a atrapalhação dele.

- O que fazes aqui?- ele perguntou com uma cara fofa mas engraçada.

- Uma longa história...desculpa ter-te acordado, estavas a dormir tão bem...

- Que vergonha...nunca deixei que nenhuma rapariga, para além da minha mãe, me vissem dormir.

- Porquê? Ficas tão giro...tão calmo.- sorri enquanto falei

- Estás a gozar certo? Agora até eu mesmo fiquei com uma ideia de mim Gay.- ele fez uma careta

- Não sejas parvo!

- Okay, eu não sou...quer dizer, pelo menos vou tentar...mas queres dizer-me o que fazes aqui?

- Porque não tomas um banho...enfim, isso que vocês os rapazes costumam fazer quando acordam e depois falamos? A tua mãe ía gostar de ser ela a contar-te a história.

- O que quiseste dizer com isso?

- Com o quê?

- "Isso que vocês os rapazes costumam fazer quando acordam..."?

- Nada de especial.

- Mary!

- Que queres? Nunca estive assim...coise...não sei o que os rapazes fazem quando acordam. Se é o mesmo que nós, raparigas, ou se nem por isso...seu idiota! Tens uma mente perversa...

- Sabes uma coisa? Vou fazer isso mesmo, é bem mais divertido tomar banho sozinho do que aturar uma chata como tu!- Max respondeu com um sorriso, mania de ser engraçado, não é? Como eu odiava(amando) isso..

- Como queiras!

- Perfeito!

- Óptimo. — respondi antes de bater a porta do quarto dele.

(...)

Depois do almoço Max levantou-se e foi até á varanda, senti que ele precisava de falar e por isso segui atrás dele.

- O que se passa?

- Nada...

E foi assim que estivemos quase meia hora sem falar, simplesmente a olhar para um horizonte imaginário.

- Mary, o João quer ir para casa...- Kristy abriu a porta e avisou calmamente

- Diga-lhe para se vir despedir de Max então, e obrigado.

- Como desejares.

- Então...- Max começou — Tens planos para a tarde?

- Pensei em ir ver as condições do campo de futebol, não quero ser uma estranha assim que começar a trabalhar.- sorri

- Achas que posso ir contigo?

- Claro que sim, irei adorar. Mas apenas com uma condição...

- Xau Max!!!- João interrompeu e caiu em cima dele aos abraços.- Anda Mary, anda....quero dormir!

Porra, mas que pequeno mas chato! Porém eu amava-o e não me importava com essas birras que ele fazia ás vezes.

- Já vou João, vai descendo. Tenho de me despedir do Max. Esperas lá em baixo por mim?

- Sim...

Sorri e olhei para Max.

- O que ías a dizer? Só com uma condição...que condição?

- Tens de me dizer o que te está a preocupar. O porquê de estares estranho, assim...

- Eu digo...- sorriu de forma tosca.

- Ficarei á espera.

Demos ambos um abraço bem apertado, e como eu sentia saudades daquele abraço.... Depois saí da varanda e deixei-o lá com os seus pensamentos misteriosos...

O que é que realmente se passava comigo? Porque é que ultimamente Max tinha de ser tão importante na minha vida? Cada vez eu entedia menos. Só tinha a certeza de que com o tempo, Max estava a tornar-se um ponto seguro. Um amigo especial. Alguém demasiado importante para eu deixar ir embora da minha vida com bastante facilidade.