Notas iniciais
Oi gente EHEHHE
Quero contar uma long story short

Eu era do Nyah anos atrás, deu aquela treta com a categoria de bandas, migrei pro Spirit, agora o Spirit tá de sacanagem com os usuários sendo arbitrário pra porra e fazendo o que bem entende excluindo história e conta aloprado e eu fiquei com medinho de acordar um belo dia e ver que a minha conta não existe mais por denúncia furada (é mais ou menos assim que tá a situação por lá)

Então vou trazer minhas histórias pra cá por precaução NÉ H8AOFHAO8DIHSAIO

Então vamo nessa e boa leitura

O silêncio era sepulcral.

Tal como sua analogia funcionava, Yoongi entendia que isto se dava pelo clima de morte instaurado pelos ares. Só havia mortos e morte ao seu redor.

Depois de uma noite terrível, talvez tivesse encontrado um pouco de paz sentado ali no chão, com o namorado deitado em seu colo. Ainda que estivesse só dormindo, mas ele sabia que o mesmo acordaria novamente. A grande marca de dentes vermelha e ainda fresca no pescoço do garoto loiro escorria um pouco do líquido já frio nos dedos da mão que segurava sua cabeça. Park Jimin teve muito azar, isso sim. Teria conseguido se safar do ataque sofrido se não tivesse se distraído por míseros segundos.

Yoongi gritou. Chorou, esperneou, extravasou a fúria e a frustração de todas as maneiras possíveis que vieram à mente. Depois de dar um último beijo nos lábios trêmulos do namorado, paralisou ao vê-lo fechar os olhos e parar de respirar levemente. Foi suave. Parecia apenas estar tirando uma soneca.

Nem se dera ao trabalho de questionar a si mesmo como faria para se virar dali para frente, todo o seu grupo havia sido mordido e morto. Só restou ele. Porém, não conseguia deixar o corpo de Jimin para trás, sentia que era sua obrigação livrá-lo de se tornar um cadáver andante. Igual aos outros que arrasaram com seus companheiros.

Levou cerca de seis horas, talvez mais, talvez menos, mas Yoongi contara mentalmente quando o sol pôs-se a nascer e iluminar a clareira repleta de mortos. Então, sentiu uma pequena vibração vinda do corpo que segurava. Depois mais uma. E aí os dedinhos começaram a se mexer e dobrar devagar. Fitou o olhar sobre o rosto do loiro, percebendo como sua boca abriu um pouco e os lábios se mexeram sutilmente. Era difícil aceitar que seu amado agora estava voltando como uma daquelas criaturas descerebradas e sem humanidade. Yoongi já havia matado vários zumbis, mas eram todos irrelevantes para ele. Aquele ali em seu colo não.

No momento que Jimin abriu os olhos, o tempo parecia ter parado. Ao mesmo tempo, Yoongi queria acreditar que aquele era seu Jimin, mas precisava se forçar a voltar à realidade e estar atento para não se deixar levar pelas emoções. Fez uma pequena carícia com o polegar no rosto gelado do garoto que parecia olhá-lo nos olhos.

“Desculpe, jagi. Eu não fiquei ao seu lado o tempo todo como prometi. Mas agora estou aqui com você.”

E antes que o morto que não era mais seu Jimin levantasse já com a boca aberta para mordê-lo, disparou contra a têmpora do mesmo, vendo o sangue jorrar pelo outro lado da cabeça. Deixou um beijo delicado na testa do namorado e se levantou. Pegou uma das pás que jaziam no chão e havia sido usada como arma improvisada noite passada e escolheu um lugar bonito rente a uma árvore frondosa. Cavou fundo o suficiente para ali depositar o corpo de seu amado para que descansasse com tranquilidade. Após enterrar cuidadosamente o garoto loiro e derramar mais algumas lágrimas insistentes, pegou a mochila que era dele, colocando na mesma mais caixas de balas que haviam sobrado dos ex companheiros mortos. Umas duas pistolas automáticas, uma Beretta e uma Glock com o silenciador que haviam feito à mão juntos.

Levou consigo a memória de Jimin e partiu sem rumo.

+

Andar pelas estradas vazias era muito mais exaustivo e demorado quando se estava sem carro. Até usou um dos do antigo acampamento, mas não durou muito – a gasolina estava no fim e logo se esvaiu. Morria de sede, mas precisava poupar água até chegar onde pudesse pegar mais. Na verdade, não sabia nem onde queria chegar.

Depois do baque da noite passada e a perda do namorado, ainda não havia encontrado um tempo para ficar de luto. Tudo tinha de ser muito rápido nas circunstâncias do momento. A imensidão do que estava à sua frente era desconcertante. E ele se odiava por ter deixado as coisas acontecerem como aconteceram. Quanto mais pensava em Jimin, mais pesava em seu peito. Será que... valia a pena continuar...?

Caminhou por mais uns bons metros tendo como trilha sonora apenas o som dos passos sobre o asfalto desgastado. A paisagem estava vazia, mas num breve piscar de olhos, deixou de estar. O movimento que via ao longe, bem longe, tremelicava e caía pelos lados. Ah, deve ser um zumbi andarilho que só esperava para atacar alguém. Meio sem pensar, Yoongi sacou o punhal que levava na cintura e acelerou o passo sem fazer muito barulho, planejando eliminar aquele ali de surpresa e o mais rápido possível. Quanto mais se aproximava, mais os detalhes do ser que andava sem muito equilíbrio apareciam; o cabelo preto e farto na cabeça não parecia muito com o de um morto, nem as roupas quase inteiramente limpas. Porém, num ato automático, Yoongi chegou perto o suficiente para ter o punhal empunhado na mira da cabeça do indivíduo. Então, falou baixo:

“Achei você.”

A mão armada desceu velozmente, mas os acontecimentos seguintes se desenrolaram em frações de segundos. O ser desconhecido se virou e desviou, fazendo Yoongi errar o golpe e temer que estivesse em apuros por estar um pouco fraco e sem reações rápidas. Mas antes que achasse que estava ferrado e que seria atacado por um zumbi, notou os olhos brilhantes e muito pretos do garoto à sua frente, que estava, de fato, vivo. E antes que pudesse sequer se introduzir com um “olá”, o jovem caiu de joelhos no chão.

“Por favor, não me mate!! Por favor! Por favor! Eu nem estou armado!”, com as mãos em forma de súplica, o menino bradava a plenos pulmões.

Ao ver algumas lágrimas fininhas escapando pelos orbes semicerrados, Yoongi se sentiu mal. O garoto era realmente muito jovem de aparência, e estava vagando sozinho...?

“Ei... ei, calma! Guardei aqui, ó.”, mostrou ao outro como depositou o punhal na barra da cintura e deixou as mãos livres, “O que você tá fazendo no meio da estrada sozinho, garoto?”

Assim que a lamúria se cessou, o jovem limpou um pouco o rosto e baixou os olhos, fitando o chão.

“Estou sozinho. Não tenho ninguém.”

“Como...?”

“Eu estava protegido, mas... os perdi ontem.”

Yoongi se manteve em silêncio e esperou que a frase fosse continuada, pois não estava entendendo bem quem o menino tinha perdido.

“Meus pais. Foram mortos por bandidos. Ainda que fossem essas criaturas mortas nojentas seria aceitável, mas... foram outros humanos. Aí a gente percebe que o perigo maior ainda são as pessoas.”

O loiro não pôde deixar de engolir em seco e se lembrar de seu namorado falecido. Sabia muito bem o que era perder alguém importante, então nem ia se dar ao trabalho de perguntar como o jovem estava lidando com aquilo. E mesmo que não fosse do seu feitio, ficou com pena. Simplesmente seguir seu caminho e deixar aquele garoto à mercê do destino não parecia a coisa certa a se fazer, ainda mais depois dele ter confessado estar desarmado.

“Garoto... qual o seu nome?”

“Jeon Jungkook.”

“Hm... quantos anos tem?”

“Dezessete.”

“Caralho, você é uma criança.”, Yoongi acabou praguejando em voz alta, assustando um pouco o então Jeon, “Bem... quer vir comigo? Vai virar comidinha de zumbi se continuar sozinho e sem armas.”

Jungkook acenou a cabeça positivamente num misto de desespero com nervosismo, ainda meio descrente em tudo que tinha acontecido até o momento.

“Então vem. Precisamos achar um lugar para passar a noite.”

+

O sol já estava quase desaparecendo no horizonte e o céu estava transicionando de alaranjado para rosa, e de rosa para lilás e azul escuro. A noite seria agradável, mas relativamente fria devido ao outono estar chegando ao fim. Constatando que estavam cruzando o limite metropolitano da capital, Yoongi tinha certeza de que logo encontrariam pelo menos algumas residências e estabelecimentos comerciais abandonados. Seu estômago se contorcia só de pensar em uma tigela quentinha de ramyun depois de um dia inteiro tendo bebido só uns goles d’água.

Vez que outra bisolhava a face amedrontada de Jungkook. O jovem estava, de fato, agradecido por não estar mais sozinho e em perigo, mas ainda tinha muito medo e provavelmente ainda estava com as memórias da perda dos pais muito frescas. Dava até dó. Yoongi prometeu a si mesmo que daria o seu melhor para ajudar o garoto a se defender.

Quando avistaram uma pequena loja de conveniência, perceberam algumas casas e prédios pequenos a seguir. Já estavam na área suburbana. Correram um pouco até a lojinha antes que escurecesse de fato e ambos ainda estivessem expostos demais. Ao se aproximar um pouco das portas com vidro transparente, o loiro pôde ver que tinha um zumbi lá dentro. Pensou que estariam fritos que houvesse mais e só aquele estivesse à vista, mas já não dava para arriscar mais, era aquilo ou o risco de serem pegos de surpresa no escuro da noite.

“Jungkook!”, chamou baixinho.

O garoto se assustou com a chamada a ponto de gritar, mas antes que o fizesse, tapou a própria boca com as mãos. Yoongi apenas suspirou.

“Fique aqui fora. Vou tentar abater o que está lá dentro sem fazer muito ruído, porque pode haver outros pelas redondezas. Se eu me foder, você foge. Aqui, fica com uma das automáticas, é mais fácil de manusear.”

Entregou a arma para o mais novo, que a pegou com as mãos trêmulas. Jeon parecia querer dizer alguma coisa, mas não chegou a ter tempo, Yoongi entrou na loja mais rápido que uma brisa de vento.

Naqueles segundos que ficou sozinho ali fora, tentou revezar o olhar entre o interior da loja através do vidro e a rua, fazendo o maior esforço para empunhar a arma e deixá-la na mira de qualquer coisa que se mexesse. A verdade nua e crua, é que ele não sabia nem atirar. Segurava a arma mas não sabia sequer onde ia o dedo, a que altura deveria segurar, mais um pouco e seus dedos afrouxariam e a pistola cairia no chão tamanha sua insegurança. Teve sorte de Yoongi não ser um cara mau caráter, porque se soubesse disso, já poderia ter se aproveitado dele como qualquer outro marginal.

Mas tudo ocorreu mais rápido que o esperado. Em poucos minutos, sentiu a mão grande e pesada de Yoongi pousar em seu ombro, causando-lhe um calafrio perceptível a quilômetros.

“Tá tudo bem agora. Ei... sabia que tá travada...?”

O loiro se referia à pistola, e Jungkook ponderou brevemente que talvez aquele fosse o momento ideal para contar.

“Hum...”

“Diz para mim, Jeon. Já atirou com uma arma alguma vez na vida?”

“Hum...”

“Seus murmúrios me dizem que sim. Ai, ai... o que eu faço para te ajudar...?”

Passou a mão pelos cabelos e respirou fundo.

“Vem, vamos tentar descansar um pouco. Tem uns sofás lá dentro.”

+

“E assim, você destrava a pistola e põe o dedo aqui no gatilho. Mantenha sempre o dedo no gatilho quando em necessidade.”

Segurando as mãozinhas trêmulas do mais novo – que segurava a pistola, Yoongi tentou ensinar de forma mais simples possível como usar uma das armas. Céus, sem qualquer instrução, Jungkook era uma presa fácil para zumbis e pessoas. Pelo menos, saberia se defender e não poderia alegar que não tentou caso desse um azar.

“Não é tão difícil. Amanhã te ensino como funciona as que não são automáticas, levam um pouquinho mais de tempo na hora da ação.”, Yoongi estalou os dedos e se espreguiçou, sentindo todas as juntas indo para os lugares, “Você quer dormir um pouco enquanto eu fico de vigia?”

“Vigia? Mas a porta não está trancada?”, os olhinhos, já redondos do jovem, arregalaram ainda mais.

“Nunca se sabe. Não se pode mais dormir hoje em dia... não digo pelos zumbis, porque não estamos mais ao ar livre, mas pelas pessoas. Não somos os únicos sobreviventes por aí procurando abrigo.”

“Do mesmo jeito que fizeram quando tomaram a nossa casa...”

Quando se virou para buscar o olhar do outro, Yoongi percebeu lágrimas. Jungkook estava chorando em silêncio. Yoongi era péssimo em consolar os outros, nunca sabia o que dizer para confortar quando o momento estava pesado. Então fez o máximo que pôde, se aproximando do mais novo no sofá e lhe dando uns tapinhas nas costas. Já era alguma coisa.

“Apenas... apenas arrombaram a porta e apontaram armas para todos nós. Minha mãe... eles queriam... queriam... mas meu pai não deixou, por isso... ele levou um tiro na cabeça. E o som atraiu os zumbis. Então abriram a barriga da minha mãe com uma faca... e deixaram ela lá para distrair o grupo. Eu só corri. Corri e não olhei para trás.”

Yoongi só se deu conta de que seu braço tinha involuntariamente envolvido o garoto num abraço quando sentiu os soluços contra seu próprio corpo. A mão continuava dando tapinhas leves – agora no seu antebraço – numa espécie de embalo para tentar acalmar Jungkook. Que merda... aquele garoto tinha passado por uma experiência pesada e ainda terminou sozinho na estrada. Yoongi pensou consigo que ainda estava em vantagem na categoria “perdas traumatizantes”. Levou a mão até os cabelos de Jungkook e deu uma leve bagunçada nos mesmos.

“Sinto muito. Também perdi alguém importante... ontem.”, o jovem levantou os olhos molhados até fitar os do mais velho, “E por acaso a gente se encontrou. Não é meio que uma coisa de destino...?”

Jeon riu baixinho, pensando que o encontro de ambos foi uma grande sorte. Talvez era mesmo para eles se acharem em meio a aquele esconde-esconde eterno que se tornou o mundo tomado por zumbis e pessoas sem lei.

Peek-a-boo”, Jungkook pousou o indicador no nariz meio arranhado do loiro, “Achei você.”

+

Os dias passaram. A coisa mais importante era continuar juntando alimentos, água e munição, mas quando se questionavam, não sabiam bem para onde estavam indo. Yoongi perdeu o senso de propósito após o ataque em seu grupo do acampamento – sentia que fazia parte de algo maior e era até bom – e Jungkook ainda estava recém aprendendo a enfrentar aquele novo tipo de mundo. Não dava para sair confiando em qualquer grupo de pessoas, pois muitos se mostravam completamente desprovidos de qualquer moral ou sentimento. Por mais que Yoongi não se visse muito como um mocinho, ainda não era um vilão. E tinha Jungkook para cuidar, aquilo fez despertar em si um pensamento de que deveria passar pelo menos algumas boas influências para o mais jovem.

A companhia de Jungkook era agradável. O filho de médicos bem conceituados podia ter tido tudo do bom e do melhor até as coisas desandarem, mas nunca teve um alguém tão próximo assim, nem sequer um amigo; então sempre que podia, fazia algo para arrancar um sorrisinho dos lábios finos do mais velho. Fazia caretas o tempo todo e Yoongi não resistia e acabava rindo com a mão abafando de forma falha o som. E sempre que encontravam algo bom para comer, Jeon oferecia metade do que era seu para Yoongi.

O loiro sentia estar cada vez mais ligado a aquele moleque que, mesmo sendo bem mais novo que ele, conseguia ser mais alto e mais robusto. Quando a relação dos dois foi ficando mais forte, Jungkook começou a dormir abraçado no mais velho, confortável o suficiente para dormir sem medo. E Yoongi delicadamente passou a gostar disso. Nos momentos que a noite caía e começava a esfriar, ambos se encolhiam debaixo de um cobertor e ficavam sentados observando a lua e as estrelas iluminando o céu do alto dos telhados. Às vezes ficavam conversando por horas, tempo demais para que as noites passassem e eles tivessem se esquecido de dormir. Tirando os momentos breves em que tinham de se esconder e fugir de alguns zumbis, era como se o clima entre eles fosse sempre leve. Leve do jeito que era com Jimin.

Até o dia que Yoongi entendeu que estava na hora de deixar esse fantasma se libertar, e se permitir sentir aquela coisinha boa que o deixava com borboletas no estômago. Jungkook o fazia muito bem.

E Jeon estava a cada dia mais esperto e habilidoso. Depois de um pouco de treinamento, preferiu uma carabina de mira precisa a uma pequena pistola. O loiro compreendeu que tinha um tipo de significado simbólico; carregar um rifle tornava Jungkook forte, forte da mesma maneira que se sentia por dentro depois de passar o que passou e continuar seguindo em frente. “Segue em frente, sempre há outros troféus”, dizia ele enquanto caminhava alegremente. Até quando ele seguiria em frente...? Até não precisar mais de Yoongi? Isso o deixava mal.

Num dia desses que chovia forte e ficar abrigado era a única opção possível, Jungkook limpava a Beretta desmontada do mais velho com algodão e uma escovinha. O som das cerdas passando entre as peças metálicas da arma era o único a ser ouvido no ambiente além dos pingos de chuva lá fora. Yoongi fumava um cigarro no outro canto do cômodo, longe para que o cheiro não se alastrasse muito. Um suspiro audível. O moreno largou as peças na mesinha onde tinha se acomodado há alguns minutos e foi em direção ao outro. Agachou-se e ficou com os olhos na mesma altura sua – já que Yoongi se quedava sentado no assoalho de madeira.

“Ei, espera eu terminar e vamos montar a Beretta juntos!”, Yoongi virou o rosto para o lado oposto, não querendo que a fumaça fosse de encontro com o rosto do mais novo.

“Não me importo. Pode fumar. Meu pai era cardiologista e fumava uma carteira de cigarro por dia. Estou acostumado.”

“Hum. Mas então por que... o que... tem alguma coisa para me dizer...?”

Silêncio. E chuva. E dois rapazes se olhando bem dentro dos olhos.

“Por favor, não me deixe, hyung. Diga que vamos ficar juntos até o fim.”

Mais silêncio. Mas ambos estavam entendendo perfeitamente o que estava sendo dito através daqueles olhares. Yoongi sabia.

“Até o fim.”

Estendeu o mindinho, e Jungkook logo se apressou para entrelaçá-lo com o seu próprio. Um sorriso tenro se fez no rosto do loiro, que se surpreendeu quando o mais novo se atirou em seu colo, abraçando-o apertado. E assim que tirou o rosto da curva do pescoço do seu hyung, olhou-o mais uma vez profundamente e foi se aproximando devagarzinho. Até que seus lábios encostaram nos de Yoongi. O gosto forte do tabaco misturado com o pudim de frutas que tinham comido mais cedo deixou um doce amargo interessante. Yoongi sentia-se pertencendo a algo maior novamente.

+

Num início de tarde não muito frio e com pouco vento, Yoongi deu um selinho nos lábios de Jeon e disse que voltaria logo. Iria até uma das residências daquela área rural para checar se havia mantimentos que pudessem usar. O garoto disse que queria acompanhá-lo, mas o loiro afirmou que seria rápido, e que seria melhor que ele ficasse guardando a casa que ambos usavam naqueles dias para que ninguém a tomasse. O moreno concordou, e acenando rapidamente, voltou para dentro.

Deu uma olhada na quantidade de munição que tinham, recarregou todas as armas e limpou os punhais sujos de sangue seco. Passou um tempo ocupado sem se atrelar a tempo, apenas empenhado em suas funções. Quando as mãos começaram a doer um pouco e tirou uns segundos para estalar os dedos, olhou pela janela e sentiu o coração parar um pouquinho.

Estava anoitecendo.

Yoongi não tinha voltado.

Mil possibilidades se passaram por sua cabeça, entre elas, a que deveria ficar calmo e aguardar mais um pouco ou a que precisava sair urgentemente até a residência vizinha e procurar pelo outro. Seu coração preferiu acreditar que a segunda era a coisa mais certa a se fazer, e jogando a mochila em um dos ombros e segurando sua carabina no outro, saiu de casa.

Com agilidade e cuidado, foi seguindo o caminho nada urbano pelo chão de terra batida e mata quase intocada, mantendo o foco em possíveis zumbis que por ali transitassem. Nunca havia corrido tanto e uma distância tão longa a pé, mas logo que avistou a propriedade mencionada mais cedo pelo mais velho, respirou e preparava-se para correr mais. Mas ouviu um barulho de passos.

Deu uma volta completa no mesmo lugar, tentando localizar de onde vinha o som, apontando o rifle e com o olho na mira. Pouco depois, viu um vulto entre algumas árvores não muito distantes. Mirou novamente e estava disposto a atirar assim que o ser não identificado passasse por seus olhos. Quando ser que parecia, de fato, um zumbi voltou a ficar visível, Jeon não hesitou e atirou. Porém, a bala passou milimetricamente do lado, não acertando o alvo. Não tinha tempo para se punir mentalmente por ter errado, apenas recarregou o rifle e tornou a focar no alvo.

Mas o alvo não era bem o que imaginava.

Percebendo as mesmíssimas roupas que Yoongi usava quando saiu de casa, Jungkook estremeceu por alguns segundos e esperou que tivesse encontrado seu hyung são e salvo.

“Hyung... uau! Não acredito que quase atirei em você! Ainda bem... ainda bem que eu errei... e...”

E desejaria não ter errado o tiro quando Yoongi levantou a cabeça e o olhou nos olhos. Não eram mais os olhos de Yoongi. Não era mais Yoongi ali na sua frente, com a camiseta preta e a jaqueta empapadas de sangue e terra e a marca de dentes profunda perto da clavícula. Aquilo não era mais Yoongi.

Jeon sentiu o bolo se formando em sua garganta e as lágrimas embaçando sua visão, a mesma visão que tinha de se manter limpa pois o cadáver andante de Yoongi se aproximava de forma desengonçada, emitindo sons e ruídos perturbadores. Não queria acreditar que isso estava acontecendo, que tinha perdido Yoongi para uma fatalidade, por um descuido. Sentiu-se impotente, incapaz de retribuir tudo o que Yoongi fez por ele e o fez sentir. Como um baque, não queria acreditar que o Yoongi que segurava pelos ombros e imobilizava as mãos agora só o via com o único propósito de matar e comer. Como qualquer outro zumbi.

Empurrou o Yoongi zumbificado no chão, prendendo-o com o peso do seu corpo. Jungkook sentiu uma descarga de adrenalina tão forte que não pensou em mais nada a seguir.

Peek-a-boo... achei você.”

Tirou a faca que levava no cinto e nem cogitou o contrário. Na altura do ombro direito de Yoongi, lançou a lâmina, uma, duas, três vezes, mais algumas até que o braço caísse fora. No esquerdo, o mesmo procedimento até que o membro saísse também. E num movimento rápido, abriu a mochila que não estava totalmente fechada e tirou um alicate. Com uma pedra não muito grande, a boca do loiro zumbi que não parava de morder o ar mordeu a mesma. Segurou o queixo já gelado e mórbido do outro e tentando ao máximo conter os movimentos bruscos da cabeça, arrancou o primeiro dente. Os dentinhos adoráveis que Jungkook adorava ver quando Yoongi sorria. Um atrás do outro.

Agora, o único sorriso que restava era um banguela, de gengivas pútridas e rotas. Não havia mais braços para abraçar. Os olhos esvaziaram. Mas aos olhos nublados e tristes de Jungkook, Yoongi ali estava.

“Você prometeu... então vamos ficar juntos... até o fim.”

Puxou a corda que amarrou firmemente no pescoço do zumbi que começou a segui-lo, sem se agitar muito. Parecia lógico que tirando os dentes e os braços de um zumbi ele não atacasse mais, certo? Não havia mais perigo. Yoongi nunca foi perigoso, foi uma salvação. E continuaria sendo para Jeon, só que agora de um jeitinho meio diferente.

Jungkook não queria mais brincar de esconde-esconde. Doía demais.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!