Pedaços Transformados

98 Não podia acreditar


não podia acreditar

CALUM, 13 ANOS.

Depois disso, tudo foi tão... vago.

Distante.

Perdido.

Sem sentido.

Calum sentia-se tão vazio, tão seco e feio e triste; tão cheio de sofrimento e dor.

As lágrimas começaram a encher nos seus olhos e deslizar por suas bochechas e pingar por sua mandíbula antes que sua mente conseguisse processar o que acontecia – seu corpo já sabia antes de sua mente saber.

E Calum não queria aceitar.

Tudo era tão errado, tão injusto, tão cruel.

Calum conseguia imaginar alguém rindo dele, perguntando-o onde estava sua sorte – ele também queria saber. Onde estava sua sorte? Onde estavam as pessoas que amava? Onde estavam as pessoas que perdeu? Não consigo. Nunca mais. Não naquela vida.

Calum não podia acreditar.

Não quando Liz parou o carro do nada e colocou as mãos no rosto e começou a chorar, desesperada, toda a compostura que um dia poderia ter fingido ter... longe – longe como as pessoas que amava, longe como quando seu coração estava inteiro e não aos pedaços.

Não quando Liz virou-se para ele e o puxou para um abraço, para saber, sentir, que ele ainda estava ali, que ele estava perto e vivo e bem e... Ali. Ao seu lado.

Não quando pegou seu celular, as mãos tremendo violentamente, os olhos embaçados e a boca seca, incapaz de falar uma palavra, e ligou para Kora, para sua mãe, soluçando que... que ele tinha... que ele...

Não quando chegou ao hospital e viu pessoas correndo desesperada de um lado para o outro e tropeçou para o balcão, seguindo sua mãe que segurava Liz tão frágil e quebradiça ao seu lado, com tanta força que Calum não podia acreditar que aquela era sua mãe – sua mãe não era forte daquele jeito, Liz não era fraca daquele jeito, Andrew e Julie não podiam...

Calum ainda não podia acreditar quando Luke surgiu na sua frente e caiu em seus braços e ele o segurou, apertando-o tão forte que podia ter deixado marcas, olhando tão profundamente nos seus olhos para ver se tudo estava ali e então o puxando para os seus braços, porque...

Não estava.

Julie não estava ali.

Andrew não estava ali.

Calum segurou Luke fortemente nos seus braços, temendo soltá-lo e deixá-lo ir e nunca tê-lo ao seu lado novamente – ele ainda não podia acreditar no que tinha acontecido, mas não queria testar sua tão mal azarada sorte, ele só queria...

Calum só queria que tudo fosse como antes, que Julie não estivesse numa cirurgia, sob o risco de nunca mais andar novamente, e que Andrew...

Andrew estivesse vivo.

Mas ele não estava.

Calum ainda não podia acreditar.

(E nem queria.)