não iriam?

setembro, hoje

—Vou ter que pedir que façam silêncio – pediu a enfermeira.

Luke não precisava ouvir isso, porque seus passos era o único som que ouvia naquele corredor.

Não, não, não – o corredor era silencioso, mas...

Seu coração batia alto.

O sangue rugia em seus ouvidos.

A mão de Julie apertava forte a sua e ele não sentia os próprios dedos.

Sua respiração saia entrecortada, meio ofegante, meio sem ar, meio que desesperada.

Com medo.

O que teria atrás daquela porta?

Luke forçou-se a abri-la.

A primeira coisa que notou, antes mesmo de entrar no quarto, foi sua mãe. Ela parecia cansada, cansada como se não tivesse dormido há dias. E talvez fosse verdade, porque hoje era terça e ela sempre só vinha para casa dia de segundas, quartas e sextas, fora feriados e finais de semana – às vezes não, às vezes ela demorava mais do que dois dias para chegar em casa, às vezes ela cumpria com sua palavra, às vezes ele não a via por muito tempo, mais tempo do que queria.

Observando-a, Luke pensou que sua mãe devia ter ficado sem dormir para chegar cedo em casa, porque amanhã era o aniversário de Calum e... hoje... hoje era o dia que Malia morreu, ele se lembrou, não que tivesse se esquecido, não tinha como esquecer, só que... estava enterrado bem fundo em suas memórias, em alguma parte que ele não acessava.

Estava lá, Luke sabia, sentia, mas tentava não pensar, e agora aquilo o atingiu com toda força, porque Malia havia morrido hoje e hoje Calum... Calum podia...

A segunda coisa que Luke tentou não ver foi Calum, porque... porque ele não sabia se seria forte – ele meio que esperava tubos e máquinas apitando, um sinal de morte iminente e algo que mostrasse o quão doente seu amigo estava só de olhar, contudo...

Sim, certo, Calum estava um pouco pálido, tinha um soro conectado a sua veia e dormia profundamente, como Luke há muito tempo não percebia, mas parecia bem.

Bem, ele soltou o ar que sabia que segurava, surpreso por quanto era, por quão melhor estava só de vê-lo, pelo nó que parecia se desatar em seu peito e o aperto que afrouxava em seus pulmões.

Luke respirou.

E voltou a olhar para sua mãe, esperando um veredito, esperando palavras tranquilizadora e promessas falsas, mas sua mãe sussurrou rouca "ei, crianças" e abriu os braços e Luke puxou ou foi junto com Julie, não importava, e então os três abraçavam-se e ele tentou não pensar no quanto alguém faltava ali, Luke tentou focar-se no quanto se sentia seguro e amado e que, por hora, todos estavam bem.

E iriam ficar melhor.

(Não iriam?)