meia-noite

CALUM, 9 ANOS.

O relógio badalou a meia-noite e Calum piscou atordoado. Ele... tinha... dormido? Uau, Calum meio que esperava passar a noite toda acordado e não ser acordado por Andrew, cutucando-o. Por um momento, ele olhou-o sem entender – que horas eram? – e então buscou sua irmã com os olhos, assustado.

Só existia uma razão para Andrew estar acordando quando era tão tarde e Calum se sentia... Havia alguma parte de si que esperava aquilo. Uma explosão. Um cabum! Algo que acabasse com tudo, destruísse todas as coisas que amava completamente. Havia alguma parte de si que ficou... aliviado por aquela bomba finalmente estourar, por não ter que ficar andando com as pontas do pés e os ouvidos atentos, apenas esperando.

E então ele suspirou completamente aliviado – porque não era nem uma dessas contas.

(Ainda não, alguma parte dele pensou.)

(Calum a ignorou.)

(Não completamente.)

Malia estava sentada no outro sofá, dormindo com os pés de Julie sobre suas pernas, meio que caindo para o lado contrário, como se tentasse ficar o mais longe dela sem retirar os pés sobre si.

—Para cama, vamos – disse Andrew, dando um sorriso tranqüilizador como se soubesse o que ele pensava. – Acorde, Luke.

—Hum, sim? – murmurou seu filho, mantendo os olhos fechados enquanto virava-se para Calum e pressionava a bochecha em seu ombro, suspirando.

Calum congelou, porque... não era como se ele fosse como Malia e não gostasse que as pessoas o tocassem – ele era meio que o completo oposto dela e sentia alguma coisa dentro de si que parecia um monstro sedento por toques – mas... ele não gostava, não estava acostumado (porque ele com certeza gostava), de como os Hemmings o tocavam normalmente.

Eles não pediam, eles faziam.

Eles não receavam, eles agiam.

Calum gostava disso – de ser tocado por ser tocado, sem explicação, sem receio. Eles o tocavam apenas porque eram o que faziam, como se comunicavam, como diziam que se amavam... e Calum gostava disso.

—Você não vai acordar ninguém desse jeito, Andrew – repreendeu Liz. – É por isso que eu sou sempre vista como a mãe chata, você é muito mole. – E então gritou, batendo palmas: – Acordando! Para cama!

—Mãe! – reclamou Julie, tapando os ouvidos com as mãos. – Dormir. Mais um pouco.

—Na sua cama. Você vai dormir lá. Vamos, levante-se – ordenou sua mãe, pegando seu braço e ajudando-a. – Você também, Malia.

—Mais cinco minutos, mãe – murmurou ela, caindo de cara no braço do sofá e dormindo profundamente.

—Sim, filha, claro – disse Liz, revirando os olhos. – Levante-se. Agora. Você vai ficar só olhando?

—A visão está ótima daqui – comentou Andrew, mas já estava pegando Malia nos braços e levando-a pela escada. – Meninas para um lado, meninos para o outro... para onde você vai, Calum? Meninas para um lado – disse ele, apontando para o quarto de Julie, o quarto que entrava – e meninos para o outro – completou, sinalizando o quarto em frente. – Essas crianças de hoje em dia – suspirou Andrew, balançando a cabeça enquanto entrava completamente no quarto, colocando Malia na cama ao lado da sua filha – não sabem nem diferenciar esquerda da direita.

—Quando eu te conheci, você também não sabia – comentou Liz, passando por ele com lençóis e travesseiros extras.

—Psiu, mulher, não fale todos os meus defeitos num só dia.

—O que? Foi fofo quando você disse vire a direita e depois começou a gritar perguntando se eu era suicida ou pretendia sequestrá-lo. Quando na verdade queria matá-lo.

—Repita isso de novo, querida, porque eu ainda não acredito – disse Andrew.

—Eu queria matá... Calum? – Liz parou ao vê-lo ainda na porta. – Você ainda está por aqui? Eu não disse que queria matá-lo. Você não ouviu isso. Eu nunca diria isso.

Calum balançou a cabeça, caminhando para o quarto da frente de costas, sem tirar os olhos de Liz. Ele certamente não ouviu aquilo. Ele devia estar dormindo.

—Ele não ouviu, ouviu? – questionou Liz atrás da porta num sussurro. – E se Calum começar a acreditar que eu sou algum tipo de psicopata que se casou com o marido apenas para matá-lo às escondidas? Tipo uma viúva negra?

—Luke? – murmurou Calum, olhando para a porta.

—Hum?

—O natal é sempre assim?

—Agradeça por ter perdido o do ano passado – disse ele de um modo que queria dizer não pergunte.

Calum não perguntou.

—Hum – disse ele sabiamente. – Seus pais são sempre assim? – perguntou, embora não achasse que era uma pergunta melhor.

—Assim?

—É, você sabe, brigando sempre...

—Eles não estão brigando – interrompeu Luke, franzindo a testa. – Julie está certa. Eles estão apenas...

—Sendo amorosos?

—Papai gosta de ficar irritando a mamãe e mamãe gosta de quando papai fica irritando ela.

—Isso não é normal – disse Calum, piscando.

—O que é normal? – questionou Luke, irritado. Ele odiava a palavra normal, ele odiava de coração a palavra normal. O que era normal? – Eles se amam. Eles não estão brigando. E dá para ver que eles estão brincando e não brigando, mamãe sempre sorrir quando papai chama ela de querida mesmo que diga que não gosta e papai mal consegue manter os olhos longe dela.

—Você pode dizer o que quiser, mas sua mãe é uma tsundere.

—Você é um otaku, Calum, aceite.

Notas finais
Eu já disse como amo Liz e Andrew estou com inveja?