definitivamente

maio, quatro meses atrás

Luke queria todos os pontos do mundo agora, nesse instante, o quanto antes. Ele queria que sua irmã dissesse que era mentira, que estava brincando, que não estava apaixonada por Ashton; ele queria voltar a fita e não perguntá-la porque ela estava usando um dos seus pijamas de pokémon, ele queria não saber que ela só usava ele quando a situação era crítica.

Luke queria que a situação não fosse crítica.

Ou que sua mandíbula não estivesse doendo, no local que Ashton havia socado-o. Ou que seus dedos não doessem por tê-lo socado primeiro. Ou que não sentisse seu coração quebrando por sua irmã estar apaixonada e por não ser recíproco.

Ashton era cego?

Ashton tinha problemas?

Ashton não... Como Ashton podia não gostar da sua irmã? Sim, Julie era um porre às vezes, mas era o melhor porre que alguém poderia pedir, era o seu porre preferido, era um porre que Luke não cansaria de ter.

—Para dentro — rosnou sua irmã quando ficou cansada de vê-los brigando em frente de casa. — Vira-latas têm mais classe que vocês.

—Mas Julie... — começaram os dois ao mesmo tempo, apontando para o outro sem deixar de olhar para ela. – Foi ele que começou!

—Não perguntei quem começou – disse Julie, fingindo-se de irritada, embora os cantos dos seus lábios teimassem em subir. Luke queria saber quem ela achava que estava enganando; provavelmente todos. – Agora entrem e terminem isso dentro de casa sem quebrar nada. Céus — ela suspirou — vocês nem sabem fingir que são educados.

Luke sentiu a vergonha e a percepção do que tinha feito, do fato de ter arrastado Ashton para fora de casa e de ter dado o primeiro soco, de ter se comportado como alguém que achava que violência era a resposta, de ter descontado em Ashton tudo que sentia.

Vergonha cobria Luke completamente, por dentro, por fora, de todos os cantos.

Luke arrastou os pés, sentindo os grilhões da vergonha detendo-o, e a adrenalina deixando o seu corpo e o cansaço entrando.

—Ela está sugerido que briguemos dentro de casa? – sussurrou Ashton, assim que ele passou na sua frente, indo em direção a entrada, a Julie.

Esqueça a vergonha e o cansaço, Luke ainda queria socá-lo. Ashton tinha algum problema para conversar com ele ou... Oh, sim, ele tinha um problema, porque tinha rejeitado sua irmã.

Luke queria bater a porta na cara dele... Mas Julie o avisou com um olhar que nem pensasse nisso, que ela permaneceria aberta, e disse a Ashton:

—Não, claro que não. Agora vamos cuidar desses ferimentos. Você vai primeiro, Luke – declarou sua irmã, puxando-o para a cozinha.

—Eu estou pior do que ele – reclamou Ashton. – Eu não mereceria uma atenção especial?

A atenção especial que Luke queria dá-lo era outro soco na cara, era deixar suas próprias mãos pior. Tudo bem que Ashton já estava bastante machucado, que Luke tinha feito um trabalho maravilhoso em colorir sua pele com vermelho e roxo e cutucar algumas costelas além do indicado, mas nada chegaria perto de como sua irmã devia estar se sentindo...

Definitivamente outro soco.

Ashton merecia outro soco.

Luke queria tanto socá-lo novamente.

—Não — disse Julie, confusa. — Por que eu te daria uma atenção especial? E mamãe vai me matar se Luke ficar com alguma cicatriz nesse rostinho lindo. Não é, querido? – questionou ela, beliscando a bochecha do seu irmão com força.

Idiota, idiota, idiota, pensou em cada torção. Eu te amo.

—Ei... – reclamou Luke, tentando se desviar, mas só sentindo mais dor. A única forma de evitar a dor era seguir sua irmã como se fosse um cachorrinho obediente enquanto ela marchava para a cozinha. – Isso está doendo.

—Essa é a intenção. Aprenda que eu não preciso que você entre em brigas por mim, Luke. Não quando você nem sabe lutar direito – murmurou Julie, empurrando-o para uma cadeira.

—Ashton está pior do que eu – resmungou Luke, remexendo-se desconfortável na cadeira.

Que mundo era aquele e onde ele estava? Era algum tipo de mundo invertido? Porque ele, Luke Hemmings, era o que dava lições de moral para Julie, para sua irmã, e não o contrário, mas... Ele merecia isso, Luke sabia. Ele não deveria ter começado uma briga, mas Ashton também não deveria estar... estar... estar pegando suas irmãzinha! E depois tê-la rejeitado!

Que mundo era aquele em que sua irmã era rejeitada? Havia algo de errado com ele!

—Ashton só está pior do que você porque se sente mal – explicou Julie, vasculhando a geladeira. – E não devolveu os golpes além do necessário. Ou você achou realmente que era melhor do que Ashton lutando, Luke? Faça-me o favor.

Sim, sim, sim, não, Luke bufou. Ele sabia que estava errado, ele esperava que Julie não contasse para sua mãe, ele se perguntava como não tinha percebido antes.

—Cristo, Luke, já entendi – disse Julie, empurrando um saco de pão de queijo congelado no rosto dele. Luke recuou, surpreso pelo tom cansado. – Eu e Ashton? Não. Nope. Not. No...

—Eu não disse isso – retrucou ele, puxando o saco das mãos dela. Sua irmã o deixaria pior se continuasse empurrando-o daquele jeito. – Eu só não consigo acreditar como eu não percebi isso quando as provas estavam bem visíveis e na minha frente.

As provas eram tantas que Luke nem sabia por onde começar, mas ele era um idiota, então, sim, claro, ele não veria o ciúme, a preocupação, o cuidado, o fato de estarem dispostos a renunciarem algo pelo outro.

Isso era fofo, pensou Luke... Até se lembrar que a garota em questão era sua irmãzinha e isso era horroroso.

—Não que eu aprove – disse, rapidamente.

—Ou que eu tenha pedido sua aprovação – lembrou sua irmã.

—Ou que você fosse ligar para ela – concordou ele.

—Ou que eu e Ashton tenhamos algo realmente – lembrou Julie, dando um olhar despreocupado ao próprio, mas ainda sim carinhoso, ainda avaliando todos o seu corpo e então parecendo ter um peso a menos nos seus ombros.

Ashton a encarou em retorno, parecendo preocupado por tê-la preocupado, parecendo triste por ter batido no seu irmão e decepcionado-a, parecendo amá-la profundamente e completamente.

—Ou que vocês não irão ter se continuarem se olhando desse jeito – murmurou Luke. Como ele não tinha percebido isso antes?

—O que você disse? – perguntou Julie, voltando-se para ele. Luke abriu a boca para desviar do assunto (ele não diria o que realmente pensava) quando ela balançou a cabeça. – Não importa. Mande Ashton vim para a consulta dele – disse ela, sorrindo provocativa de um jeito que Luke sabia que dizia "serei a enfermeira dele" (ele preferiria não ter sabido isso). – E não saiam brigando no meio da sala se não jogarei água gelada em vocês!

—Você já está gritando – sussurrou Luke para ela – então porque você não o chama?

Porque ela estava obrigando-o a fazer isso?

—Porque vocês dois vão conversarem como animais civilizados – gritou Julie dando as costas a ele para ver seu outro paciente. – Ouviu, Ashton?

Curvando a boca numa careta, Ashton não respondeu, apenas se levantou do sofá e trombou com Luke na metade do caminho para a cozinha com bastante força.

Luke podia ouvir seus ossos estralando, assim como os de Ashton, podia sentir a dor reverberando por todo o seu corpo, mas era por sua irmã, era pela honra da sua irmã, que ele se manteve firme e não hesitou em sua caminhada.

—Irwin – ofegou Luke sem olhar para trás.

—Hemmings – disse Ashton, do mesmo jeito,embora parecesse um pouco melhor.

Luke queria socá-lo, com toda certeza ele queria. Como Ash podia ter a cara de pau de estar beijando Julie debaixo do seu nariz e depois a rejeitado quando ela se confessou?

—Conversem direito – rosnou Julie, sem olhá-los. Como sua irmã podia estar lidando tão bem com isso? Como ele não pode perceber antes isso?

—Hunf... – bufou Luke, mal humorado, mas se virou. – Você está bem?

Eu posso te bater novamente?, ele queria perguntar.

—Você bate mais fraco que uma garota – retrucou Ash.

Luke pensou no que aconteceria se ele cutucasse-o nas costelas para mostrar o quanto seu soco de garota era fraco. Não iria doer muito se ele apenas encostasse o dedo, sem fazer pressão... Isso mostraria a Ashton a não...

—Luke – assobiou Julie em aviso. – Nem pense nisso.

—Deve ser por isso que sou eu quem estou mancando – retrucou Luke, não cedendo aos seus desejos, sendo forte.

—Você vai deixar isso? – questionou Ash, voltando-se para Julie, quando não conseguiu pensar em mais nada.

—Por quê? Você precisa de uma garota para te defender? Eu pensei que Luke batia como uma garota então por que você está mancando?

—Acho que eu ganhei – sussurrou Luke, sorrindo ao continuar seu percalço, sentindo um pequeno conforto apesar de tudo, apesar de todas as suas dores, apesar da quase-que-certeza de que estaria completamente dolorido e mancando e roxo antes que sua mãe chegasse, apesar de... de não saber o que fazer em relação a Ashton.

Não era como se fosse uma surpresa saber que Ash sentia algo por sua irmã (seria uma surpresa se ele não sentisse), mas era uma surpresa saber que sua irmãzinha tinha começado a gostar de alguém e ele não percebeu. Que tipo de irmão era desse jeito?

Esqueça o conforto, Luke queria saber como era tão cego assim.

Não, melhor ainda, Luke queria saber como Ashton era, pois só sendo para ter rejeitado sua irmã — Luke não estava querendo se gabar nem atirá-la para os lobos, mas como Ash podia não querê-la? Como Ashton podia tê-la rejeitado-a?

Luke definitivamente queria socá-lo.