Pedaços Transformados
54 Conversar
Notas iniciais
conversar
CALUM, 12 ANOS. LUKE, 12 ANOS.
—Precisamos conversar – anunciou Julie, dando uma pausa dramática... como se Luke não soubesse que eles precisavam conversar.
Desde que a série favorita de Julie havia terminado, os anúncios de venda começaram e ela ficou calada, observando todos aqueles produtos que não precisava, Luke sabia que eles precisavam conversar.
Agora que ela havia dito aquelas palavras e se recusava a olhá-lo, Luke tinha certeza que eles precisavam conversar. E ele não queria. Se Julie não queria iniciar uma conversa, mas sentia que devia, Luke não queria nem ouvir. Nada de bom viria.
—Eu soube que você está se sentindo culpado por eu ter tentado ser amiga de Agatha...
—Você soube? – repetiu Luke, olhando para Calum que parecia querer uma panela de cozimento portátil.
—É claro que... psiu, olhe para mim – ordenou sua irmã, batendo no seus ombro e não parando de cutucá-lo até que Luke olhou para ela. Uma coisa era ela não querer olhá-lo, outra era ele não olhá-la. – Eu sou uma fada, é claro que sei. Essas cousas não me são ocultas.
—Cousas?
—Ocultas – completou ela, solene. – E você só tem metade da culpa por Agatha, porque Agatha era uma idiota e eu preciso ser uma idiota às vezes, caso contrário vocês não seriam dignos de minha pessoa.
—Dignos?
—De mim – resumiu Julie. – E você não é uma má pessoa. Se você fosse uma má pessoa, Luke, eu seria...
—Não uma fada? – provocou ele.
—O que? Não! Boa ou má, eu sou uma fada, e nada, nunca, ninguém, mudará isso. Se você fosse mal, quase qualquer pessoa seria.
—Quase? – ecoou Luke, levantando as sobrancelhas.
—Calum não – apontou Julie.
—Hã, sobre isso... Eu tenho uma coisa a...
—Você chutou um cachorrinho? – interrompeu Julie. – Ou qualquer outro animal? Porque eu sou contra violência.
—Hã, não? – ofereceu Calum.
—Então espere sua vez. Eu fiz amizade com Agatha, porque, bem... – Julie pigarreou, parecendo constrangida, e Luke afundou no sofá, porque o que ele não queria havia chegado. – Eu me aproveitei dela.
—Sim, sabemos dessa parte. Você queria substituir...
—Não – interrompeu Julie antes que ele falasse. – Não foi isso. Não completamente. Foi porque...
—Porque... – insistiu Calum, inclinando-se para frente, curioso contra sua vontade, enquanto Luke recuava, querendo não ouvir.
—Bem, Agatha estava me perseguindo demais, eu pensei que ela gostasse de mim...
—É, ela queria ser sua amiga – disse Luke sem entender o ponto, o problema. Gostar de alguém era o primeiro passo para uma amizade, não?
—Não esse tipo de gostar – murmurou Julie, revirando os olhos. – Estou falando de gostar gostar, mas não realmente gostar, gostar do tipo... romântico?
—Ah... – murmurou Luke, então ficou calado e de boca entreaberta, porque era muito para ele processar, porque... Sua irmãzinha estava crescendo? Sua irmãzinha estava se apaixonando? Sua irmãzinha estava... Sua irmãzinha teve o coração quebrado por Agatha?
—Eu sou gay – confessou Calum rapidamente, as palavras pulando da sua boca, percebendo que aquele era o momento dA Conversa, de confessar como se sentia... e se sentindo como se Luke estivesse desaprovando Julie, querendo desafiar seu amigo a dizer qual era o problema, e mostrar a Julie que não importava... Não importava de quem ela gostava, de como se sentia, Calum a amava do mesmo modo, de todo modo, de qualquer modo.
—Nós sabemos, Calum – disse Luke, recuperando sua voz. – Nós somos seus amigos e não precisamos que você nos diga algo assim. Eu sei – disse ele, falando por si mesmo e apertando a mão do seu amigo uma vez antes de deixá-la ir. – Eu simplesmente sei. Você é gay. Você é totalmente, completamente, para garotos.
—Hã... então por que... você não está... Julie...
Calum abriu a boca e... e a fechou, sem saber o que dizer. Por que Luke tinha ficado surpreso então? Por que se sentia um pouco mal por todos saberem que ele era gay se... se ele não disse? Por que ninguém estava fazendo um alarde sobre isso? Por que Luke o olhava como sempre?
—Luke também, a propósito – informou Julie quando o silêncio ultrapassou um segundo. Aqueles olhares entre os dois, excluindo-a, eram desconfortáveis.
—Desculpe-me? – piscou Luke, voltando-se para ela.
—O que? Eu vi você encarando Sam e Dean.
—Era uma olhada puramente clínica! – defendeu-se Luke. – Eu podia estar pensando em ter aqueles cortes de cabelo!
—Querido – sorriu Julie, passando a mão pelo cabelo do seu irmão e deslizando-a pela sua bochecha – você nunca terá o cabelo de Jared Padalecki. Me diga – disse ela e Luke sentiu que era um gatinho e podia ronronar ao senti os dedos dela massageando sua bochecha – você estava realmente pensando nisso?
—Sim – disse ele, tentando ser forte e aguentar o olhar de sua irmã. – Não.
—Está vendo, Calum? – disse Julie, dando um tapa na bochecha dele de leve. – Sem problemas. Somos todos pessoas que estão para garotos.
—Desculpem-me? – piscou Luke pela segunda vez. — Eu perdi algo? Todos? Todos? Como você faz parte de todos?
—Eu pensei que você fosse...
Calum desistia dessa família, desistia das palavras. Ele realmente, verdadeiramente, desistia. Aquele não era o seu momento. Aquela não era sua conversa. Tentar colocar em palavras o que sentia era um caso perdido e ele desistia.
—Muito fofo da sua parte, Calum, confessar que é gay para mostrar apoio para mim, obrigado, mas... – Julie balançou a cabeça, estralando a língua. – Nem um pouco bonito da sua parte achar que Luke... Eu nem consigo... Você perde o posto de boa pessoa para mim – decretou por fim.
—Julie, por favor – pediu Luke, fechando os olhos por um minuto e então encarando-a, tentando não titubear para deixar claro que ele falava sério. – Sem arrodeios nem meias verdades. A verdade, toda ela. O mais breve e rápido possível.
—Breve e rápido é um redundân...
—Julie – avisou seu irmão.
—Ok – murmurou ela. – Deixe-me organizar meus pensamentos. – Julie respirou, inspirou e começou a citar tópicos. – Eu pensei que Agatha gostasse de mim romanticamente falando.
—Redundância – avisou Luke simplesmente.
Julie o ignorou. Ela já estava resumindo tudo ao não dizer por que achava isso.
—Eu pensei que já que eu não sentia atração por garotos talvez fosse por meninas. Eu descobri que Agatha gostava de meninos e eu nem um pouco dela. E... eu sinto que falta algo – disse, franzindo a testa ao encarar seu quarto dedo meio levantado, meio dobrado – mas não consigo me lembrar o que pode ser...
—Como você chegou ao fato de que sente atração por garotos? – questionou Luke, questionando-se realmente questionava aquilo.
—Bem, eu não sinto atração por garotos. Eu já disse que sou asseuxal.
—Asseuxal – repetiu Calum sem perceber.
—Mas você... – balbuciou Luke.
Julie, sorriu, sentindo que aquele era o momento de falar e ser ouvida – que eles iriam ouvi-la realmente e não apenas fingir, como normalmente faziam.
—É, asseuxal. Não é parecido com assexuado à toa, assim como seres assexuados não precisam de sexo para se reproduzir, asseuxal não acham a idéia atrativa, não somente a idéia como uma pessoa. É como... – Julie tentou pensar numa analogia que eles entendessem, mas era difícil. – Como olhar para todos os seres vivos e sentir que eles são os seus irmãos, é simplesmente sem... – Julie movimentou a mão entre ela e eles. – Sem química.
—Nos temos química, Julie – cantou Luke, tentando não assimilar as palavras sexo, reproduzir e atrativa saindo da boca da sua irmã, da boca inocente da sua irmãzinha.
—Sim, nós temos – suspirou Julie, apaixonada e melancólica. — Mas infelizmente ela é totalmente platônica. Eu queria tanto ser demissexual, sabe? – Ela suspirou pela segunda vez, triste. – Sentir atração por alguém que você é íntimo, mas se não tenho com vocês isso então... – Terceiro suspiro e primeiro dar de ombros que dizia "sem esperança". – Sem futuro. Por isso eu cheguei a conclusão que sou heterromântica.
—Eu não consegui acompanhar – disse Calum, quase levantando a mão para se desculpar com a professora.
—Arromânticos não acham a ideia de se apaixonar atrativa – explicou Julie – assim como asseuxais não acham a atração em si atrativa. Bem, eu entendi assim. E o que importa é a minha opinião sobre mim, porque eu decido o que sou, como me sinto, como expresso isso, como vocalizo o que entendo. E se eu estiver errada não tem problema, eu posso mudar depois, eu não preciso de um rótulo, e não preciso dizer nada disso a ninguém, desde que... Desde que eu esteja bem – refletiu, dando de ombros – tudo vai ficar bem.
—Uau – assobiou Luke, impressionado. Era simplesmente... Ele balançou a cabeça. – Uau.
—Eu sou heterromântica – resumiu Julie para Luke. – Eu sinto atração intelectual por garotos, mas não por garotas, porque garotas são... Urg, não são para mim. Nada contra você, Luke – disse ela rapidamente. – Mas maquiagem, salto alto e falar de garotos, fingindo que não está falando de garotos? Nop. Eu não gosto de garotas.
—Julie – chamou Calum, quebrando conscientemente sua palavra de não falar, porque... Ele precisava. Ele precisava entender Julie. – Você... você é uma garota? Por que... Você não gosta de garotas?
Era muito até para Calum, por que como ela podia ser uma garota não gostando de garotas? Era meio que... uma contradição? Era meio que... Julie.
—Eu sou uma garota, Calum – disse Julie, como se ele estivesse louco. – Eu apenas não gosto dessas garotas estereotipadas, como se ser garota se resumisse a vestir rosa e brincar de bonecas.
—Você está de rosa – apontou Calum para o seu vestido rosa de festa, lembrando-se que eles tinham uma festa para ir, mas... Quem se importava com uma festa aquela altura do campeonato?
—Apenas porque ficou bonito em mim – defendeu-se Julie.
—E você tem uma boneca na sua cama – dedurou seu irmão.
—Porque eu gosto.
Julie deu de ombros e Calum decidiu que era muito até para ele e que ele não precisava entender Julie, apenas saber que ela era uma fada, uma boa pessoa mesmo que não pensasse assim e que ele a amava. Isso era o suficiente – deveria ser, Calum estava achando difícil aceitar.
—Vocês combinaram? – questionou ele. – Porque... Sério. Um dia de diferença. Ontem, você com essas autodúvidas, autoconhecimento – apontou para Luke que parecia envergonhado e depois mudou para Julie, que não parecia nem ofendida (estava mais para orgulhosa pela semelhança com o irmão). – Hoje, vo...
—Ah – disse Julie, perdendo o sorriso orgulhoso e desviando os olhos culpados, ao perceber o que isso significava.
—O que foi esse "ah"? – perguntou Luke. – Julie...
—Hum, é que... – Julie brincou com o babado, puxando os fios soltos e então, encontrando o que queria, ela levantou a cabeça quando Luke pegou sua mão. – Papai não acha que isso é uma coisa boa. Ele acha que nos temos que ser, aprender a ser, independente um do outro...
—Como assim? – questionou Luke, embora tivesse entendido tudo bem, tudo muito bem. – Papai disse que nós... nós temos que aprender a ser independente um do outro?
—É – disse Julie, assentindo. – Foi o que eu disse. "Como assim?"
—Você não vai sair dessa com "como assim?"
—Como assim? – provocou Julie. E então suspirou, porque provocar era engraçado, especialmente quando era com Luke, mas a perspectiva de não ter o seu irmão ao seu lado não a deixava feliz, nem um pouco. – Você vai para o acampamento de verão.
—Ah – disse os garotos e Julie nem tentou não perguntar o que era aquele "ah", porque ela sabia, sentia.
Era "ah", "ah" e "ah", era "ah, ela estaria sem seu irmão", "ah, talvez seu pai estivesse certo e eles precisassem de espaço", e "ah, porque ele/ela/eu?"
—Bem. – Luke tentou sorrir, tentou se levantar, tentou puxar sua irmã pela mão e girá-la, vendo o vestido dela se armar e rodar, e tentou fingir que estava bem, que tudo estava bem, embora fosse difícil, embora nada estivesse bem. (E conseguiu realizar três das quatro coisas que tentou.) – Nós temos um baile para ir, não?
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