Pedaços Transformados
67 Amigos
amigos
CALUM, 12 ANOS. LUKE, 12 ANOS.
Deixar Julie e Michael sozinhos não era para provar a sua irmã que podia fazer amigos, mas para provar a si mesmo que eles eram amigos.
Se Michael sobrevivesse um tempo com Julie isso significaria que ou Luke era seu amigo ou Julie era uma pessoa incrível – e, embora Luke achasse que sua irmã era incrível, isso não era tão fácil para ser percebido em apenas um encontro. Ou dois. Ou mais. Era preciso muitos.
Se Michael fizesse esforço para ser ao menos agradável com Julie, Luke teria a prova que ele precisava, a certeza de que fez um amigo, sem toda aquela dúvida de "somos amigos ou não?" a cada instante.
Talvez fosse errado – parecia que era, como se Luke estivesse roubando, como se não saber se eram amigos fosse o fundamento de uma amizade, mas, sinceramente, ele não tinha paciência para esses joguinhos.
Quem tinha paciência para esses joguinhos?
Calum lhe diria que não tinha jogos, que ele estava pensando de mais.
E Julie era tão socialmente reclusa que amizade deveria ser um conceito abstrato e fantasioso para ela – Luke estava brincando, mas ela não... só... Julie tinha amigos na escola, online, nos rpg, (e talvez imaginários) mas, de carne e osso e conversa frequente, apenas ele e Calum.
E Luke queria quantidade e qualidade e sua irmã com amigos variados.
Luke queria que Michael fosse amigo dela – ele já tinha sua aprovação.
Luke queria que sua irmã tivesse amigos – mesmo quando estava pensando em si, quando queria ser egoísta, Luke se via colocando-a e em primeiro lugar, mas...
Julie tinha uma amiga.
E ele não sabia.
—Quem é essa? – questionou Luke, parando alguns passos antes da sua irmã e sua nova amiga.
—Ciúmes? – provocou Calum.
E era verdade. Luke estava com ciúmes. Quando foi que sua irmã fez uma amiga? Como ele não soube? Como ela conseguia ser tão confiante e convincente?
Julie parecia brilhante, falando com alegria e mexendo os braços, animada. Ela riu e Luke se perguntou qual foi a última vez que a viu rindo para um desconhecido, para alguém que não fosse da sua família, sem nem uma hesitação, não sendo nem um pouco cautelosa – apesar de Luke saber que ela estava cautelosa e que, mesmo assim, estava tentando fazer uma amiga.
—Você não está? – retrucou Luke para Calum.
—É claro que sim – sorriu ele. – Por que você acha que eu disse que estava com saudade?
—Por quê? – Luke levantou a sobrancelha.
—Você não estava aqui durante as férias – respondeu seu amigo, como se fosse óbvio. – E às vezes nem Julie.
—O que? O que você quer dizer?
—E eu tive que ficar sozinho – continuou Calum, ignorando-o – quando Julie saiu com ela.
—J-Julie saiu com ela? – gaguejou Luke.
—Você não ouviu a parte que eu estava com saudades? – questionou Calum, falsamente indignado, exasperado, trocado.
Luke olhou para ele e balançou a cabeça para si. Desde quando seu amigo era tão publicamente sentimental? Parecia até que ele tinha aprendido com Julie a ser sincero de forma sarcástica, para que não saísse machucado depois.
—Eu também estava com saudades – confessou Luke. – De tuudo isso.
—Claro que estava. – Calum sorriu em retorno e Luke se viu percebendo novamente que os olhos dele eram cinzas e não pretos. – Ei, Julie, quem é ela mesmo? Você não me disse.
—Perguntem ao seu novo amigo Michael... – respondeu Julie, caminhando até eles. – Sobre a velha amiga dele.
—Ela é amiga dele?
—Ela era amiga dele – corrigiu sua irmã. – E ela tem nome.
—Que eu não sei qual é – completou Luke.
—Você está certo – suspirou Julie, dramática. – Vamos?
—Você não disse o nome dela.
—E nem vou. Vamos? – repetiu.
—Julie – disse Luke, chocado. – Pare de ser mal educada e nos apresente a sua amiga.
—Nop – disse ela. – Ela não é minha amiga.
—Não? – repetiu Calum, cético. – Ela não é? Eu não... acredito.
—Ela é minha parceira.
—Tipo romanticamente? – questionou Luke, franzindo a testa, perguntando apenas por perguntar porque era óbvio que a resposta era não.
Ele esperava que a resposta fosse não.
A resposta de Julie tinha que ser não, porque ela era asseuxal e arromântica, porque não havia faíscas entre ela e sua "parceira" e porque Luke recusava-se a aceitar que sua irmã havia começado a namorar e não tinha lhe dito.
—Nop – disse sua irmã, confirmando suas suspeitas. – Ela é tipo minha aliada contra as garras desse mundo, desse "oh, mundo cruel" – declamou, levantando a cabeça e a mão direita para o alto. E então pigarreou para realmente declamar, como fazia antes de dizer “vá para a luz, Eli-zabeth!”: – A noite tem mil olhos. E o dia apenas um; contudo, a luz do mundo radiante morre com o sol morrente. A mente tem mil olhos, o coração apenas um; porém, a luz de uma vida inteira morre quando é feito o amor.
—Você está citando Desventuras em Série? – perguntou Michael, bufando surpreso enquanto se aproximava.
—Hum... – Luke viu sua irmã avaliando Michael com novos olhos. – Acho que você não é tão ruim assim. Alguém que cita DES não tem como ser tão ruim assim.
—Claro. – Michael sorriu e Calum perguntou-se qual era a conversa de fundo, sobre o que eles realmente conversavam. – Eu concordo com você: alguém que cita DES não te como ser tão ruim assim.
—É sou eu – Calum inclinou-se para o lado, para seu amigo, sussurrando – ou você também acha que eles estão flertando?
—Julie não está... – Luke parou. Julie passou a mão no nariz, coçou a orelha e riu. – Oh, não – gemeu. – Eles tão flertando.
Passar a mão no nariz não seria nem uma dica por si só, era apenas algo que sua irmã fazia quando estava envergonhada, mas coçar a orelha e rir? Rir abertamente? Não tentar nem ao menos fingir que não queria rir? Luke não tinha dúvidas que, se ela estivesse sentada, estaria com as pernas cruzadas – estar com as pernas cruzadas era o marco do flerte, do flerte "eu não ligo para você, mas estou flertando do mesmo jeito".
—Você não... – Calum pigarreou, chamando sua atenção para ele. – Você sabe.
—Não? – disse Luke, confuso. – Eu não sei. Do que você está falando?
—Você não está... – Calum apontou para Michael, balançando a mão sem dizer nada. – Você sabe.
—Se você disser "você sabe" mais uma...
—Você e Michael — disse ele, como se explicasse tudo. – Como realmente você e Michael.
—Ahn? Não! – gritou Luke, sentindo que ficava vermelho ao entender a implicação do que estava sendo dito. – Oh, meu Deus!
Luke começou a rir e Calum o seguiu, um pouco envergonhado por ter sugerido algo desse tipo e um pouco aliviado por não ser algo desse tipo. Calum gostava de Michael, embora ele pudesse ser um pouco arrogante (só tinha lugar para um arrogante na sua vida e esse era Julie), mas não sabia se aguentaria ver seu melhor amigo flertar com seu outro amigo.
—Você sabe – provocou Luke – garotos que dão em cima da minha irmã não é o meu tipo. Ou garotas – reconheceu, inclinando a cabeça enquanto pensava. – Você acha que Berkeley, já deu em cima de Julie?
Oh, sim, Calum suspirou. Ele tinha se esquecido (ou tentado se esquecer) que Luke "gostava" de Berkeley. E, pensando bem, Calum voltava atrás na sua palavras: ele preferia Michael a Berkeley. Melhor ainda, ele preferia Julie, assim nada mudaria – talvez as coisas ficassem um pouco intensa e inapropriada para os seus olhos, mas nada anormal ou que ele não estivesse acostumado, estaria tudo dentro dos limites e da normalidade do seu cotidiano.
—Eu te disse, Julie – Michael disse – eu sou o que você precisa.
—Levem-no daqui – ordenou ela, cansada. – Sério. Você não está irritado com esse garoto dando em cima de mim?
—Não.
—Calum? – pediu Julie.
—Eu não sou seu namorado, Julie. E Michael está sendo tão irritante quanto você normalmente é, e não irritante do jeito irritante e mal educado e sem salvação e desrespeitoso.
—Embora você seja – completou Luke. – Menos a parte do desrespeitoso. Algumas vezes não.
—Tudo bem, tudo bem. – Julie respirou fundo antes de esticar a mão. – Nós podemos ser amigos, Michael.
—Não é assim que amigos se cumprimentam – disse Michael, abrindo os braços e balançando-os ao seu lado, com expectativa.
—Oh, não, não, não... – Julie tropeçou para trás, tentando escapar, mas Michael a segurou, puxando-a para si.
—E você pode me chamar de Mike – ofereceu ele.
—E você pode me soltar – Julie retornou, sentindo os braços duros ao seu lado, negando-se a participar disso.
—É assim que meus amigos me chamam – continuou ele, ignorando-a.
—Que amigos?
—Você.
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