aguentar

MICHAEL, 13 ANOS.

Michael fechou os olhos, rangendo os dentes tão alto e tão concentrado em não ouvir mais nada, que quase não escutou o apito finalizando o fim do segundo tempo. Ele inspirou, respirou, e finalmente não aguentou mais isso.

Ele não se inscreveu para aguentar isso.

Ele não era o capitão do time de basquete para aguentar isso.

Ele não escolheu ser amigo de Luke e companhia para aguentar isso.

Ele não aguentaria isso.

—Resolvam isso! – gritou, não aguentando mais e jogando a bola que segurava com força no chão. – Ou fiquem no banco! Ou se matem! Ou morram! Mas parem! Pa-rem! Ou vocês resolvem isso ou vocês nunca mais vão ser titulares enquanto eu estiver vivo – decretou Michael. E completou, sem tirar os olhos dos dois: – E não quero nem saber se é possível ou não, Julie, eu vou tornar isso possível.

—Uhh – zombou ela, sorrindo enquanto se aproximava. – Eu gosto quando você é educado desse jeito, Mike.

—Não estou no clima de flertar, Julie – disse Michael.

—Eu não estou...

—Você não tem nada para dizer como assistente do clube? – interrompeu, olhando-a sugestivamente.

Julie podia ser uma boa assistente, não havia nem uma que Michael iria querer além dela, mas... Realmente, não era suas habilidades de enganar os oponentes que ele queria agora, Michael queria suas habilidades sentimentalistas falsas.

—Claro que eu tenho – respondeu ela, olhando-o daquele jeito irritante em retorno, antes de encarar seus amigos, irmãos, idiotas, Michael não ligava para o que fosse, ele só... não queria lidar com isso. Ele queria isso resolvido o mais rápido possível. E sua assistente era a melhor resposta. – Estou envergonhada de vocês – disse Julie. – Por vocês. Não por mim, eu não estou envergonhada – explicou-se rapidamente. – Mas acho que posso sentir a áurea envergonhada da mamãe daqui – comentou ela, balançando as mãos ao redor, como se sentisse realmente algo no ar.

Michael balançou a cabeça, incrédulo. Julie achava que essa história iria funcionar? Mas manteve a boca fechada, porque não seria ele a não acreditar que Julie conseguiria. Ela conhecia os dois melhor do que um dia ele poderia, ela sabia quais eram os pontos fortes e fracos e o que faria diferença.

E Liz devia ser assustadora, porque ambos estavam pálidos e aterrorizados.

—Já estou vendo a palestra que mamãe vai dar – delirou Julie, tremendo – sobre falar palavrões...

—Nós não... – começaram os dois, mas então se olharam e pararam, apertando os lábios fortemente e desviando os olhos.

Michael revirou os seus. De volta à estaca zero. E seus quinze minutos de intervalo iam embora...

—Você tem três minutos, Julie, se não...

—Calado – ordenou Julie, sem olhá-lo. – Eles não vão jogar.

—O que? – questionou Michael, surpreso, porque, por mais que quisesse não colocá-los na quadra, os dois eram os melhores. Tirando a si mesmo, é claro. Mas um time não era composto por um. Michael não podia defender, atacar e passar a bola sozinho, ele precisava de companhia, de mais 4 jogadores.

—N-não... – gaguejou Calum.

—Você não pode – disse Luke, incerto.

—Nós vamos...

—É – concordou o outro sem ouvir o fim.

—Então resolvam isso – simplificou Julie, passando a mão no cabelo e jogando-o por cima do ombro. – Até porque, seja lá o que for, é idiota. Pode ter certeza que é. Vocês têm meu selo de idiotice A+. E, seja lá o que for, não vale a pena – continuou ela, tão triste que Michael poderia pensar que ela tinha perdido alguém e se arrependia. (Ha! Michael conseguia ver bem Julie se arrependendo.) — Esqueçam, finjam que nunca aconteceu, e então, quando forem maduros, lidem com isso.

Michael olhou nervosamente de um para o outro e então fixou os olhos em Julie e se acalmou, porque ela era uma mestra e Michael tinha que ter confiança em suas amizades – e/ou assistentes.

—Michael – chamou ela.

—Sim – respondeu prontamente.

—Eles vão jogar. Eles vão jogar e ganhar, se não... – Julie sorriu e Michael tremeu. – Se não mamãe vai saber que palavras feias eu ouvi saindo da boca de...

Michael não sabia quem se virou primeiro para quem e anunciou o nome do outro, mas então os dois se abraçavam, tão forte que ele se perguntou como podia vê-los tremer, e soube que Liz era assustadora.

Michael poderia ter sentido um pouco de pena se não estivesse ali para ganhar.

Ou se Calum e Luke não houvesse arruinado suas chances.

Ou se Liz não fosse a razão deles estarem de volta ao eixo – Michael estava escolhendo acreditar em Julie, porque pior não podia ficar, porque ruim com eles, pior sem eles, porque se não...

Michael prometeu a si mesmo, assim que a pausa terminou, que, se não ganhasse aquele jogo ou perdesse com uma diferença mínima, seria ele a dizer a Liz sobre as palavras feias que ouviu, porque ele não estava ali para aguentar sozinho.

Para o bem, para o mal, eles eram uma equipe e, quando um acabasse com suas chances de vencer, Michael faria favor de retribuir o sentimento de felicidade.

Notas finais
Michael é uma pessoa competitiva.