Pedaços do Meu Coração
1 Capítulo 1 O mar secou
“A infinidade do meu mundo terminará hoje, o meu espaço sideral tornar-se-á finito, começará e acabará no teu olhar, estremecerá e vacilará com um simples toque do teu corpo e ressuscitará e imortalizar-se-á com a união dos nossos lábios…
Porque o tempo não é rebobinável nem em pensamentos de inocência, saber que toco o teu rosto sem matéria e sinto a doce essência da tua alma, algo tão simples como o encontro fronteiriço de dois átomos, saber que tudo é tão real e ilusório como o teu sorriso para mim…
Dói tanto quando me lembro das coisas simples do nosso amor; o mar, a areia, as rochas negras e o teu sorriso celestial como um aconchego ao meu coração…
O nosso amor é feito de coisas tão simples como o enlaçar de mãos e longos silêncios em que encosto a cabeça no teu ombro… Porque o silêncio é a arma dos imortais… E sentir a tua presença a meu lado é o suficiente para te amar e a sua quebra é demais para eu aguentar… O mar espiritual não separará, mas unirá os nossos corações…
“Chiu… Não fales…”
É melhor que o nosso amor se mantenha em silêncio… É tão bom ambos sabermos que nos amamos e mantê-lo calado para nós…
Para quê dizer “Amo-te” se as mãos uma na outra o dizem? Para quê falar se o coração ouve por si só? Olho o teu olhar e sinto que ele responde “Amo-te”; “Também te amo”, responde a minha mão, enquanto aperta a tua…
É então que raios cruzam os céus da minha mente e o teu sorriso escapa-me por entre os dedos das mãos como água… Um pedaço do meu coração é arrancado, a minha alma voa para longe com o teu rosto e uma lágrima constrói o seu leito na minha face iludida… Porque é que o impossível é o desejado?
“Nada é impossível!!”; pronunciam os teus doces lábios, como um botão de rosa – “Basta pensares no meu sorriso, ele jamais te abandonará…”
Como gostaria que isso fosse verdade!
Mas a tempestade é dona do meu oceano e os ventos contraditórios são a minha tempestade interior…
A tua pureza é uma ambição inalcançável e os teus olhos nunca brilharam nem nasceram para mim…
O meu mar secará hoje, deixará de existir para mim o Oceano Pacífico e o mar do Japão engolir-me-á para sempre…
Com muito amor…
Suzuki Akira
-Reita…
Ruki segurava uma carta na mão, na qual a tinta estava esborratada devido às lágrimas que Matsumoto deixaria cair pela sua face.
Parecia-lhe impossível o que acabara de ler, nunca lhe passaria pela cabeça que o seu amigo o amasse de uma forma tão pura e hedionda. Todavia…
Uma luz pareceu formar-se na cabeça de Ruki…
«
Ruki corria agora pelo areal da praia, descalço, desesperado, ferindo os pés nalguma pequena concha ou rocha e chorando dolorosamente…
Reita… Por favor, não…
“NÃO!!!!” – gritou.
“A infinidade do meu mundo terminará hoje”, “longos silêncios em que encosto a cabeça no teu ombro”, “o mar espiritual não separa, mas une os nossos corações… “o meu sorriso jamais te abandonará…”, “os teus olhos não brilharam nem nasceram para mim…, “o meu mar secará hoje…”
O Reita ia-se matar!! Não podia ser!!
Relembrava agora, mentalmente, o lugar preferido de Reita; sempre que se sentia triste, deprimido ou com necessidade de reflectir ele ia para o “Sítio”, como lhe gostava de chamar. Era uma pequena falésia, onde a brisa do mar batia suavemente e as rochas frias lhe serviam de apoio ao coração ferido.
Talvez também fosse o lugar escolhido para morrer… Só de pensar nisso, Ruki arrepiava-se e obrigava-se a andar mais depressa.
Era também junto a essa falésia, que outrora haviam rido juntos, aturado as bebedeiras de Uruha e o mistério de Aoi, onde Kai revelava o seu lado mais sádico…
“ – Uruha???! Que raio estás tu a fazer? – perguntou Kai, sorrindo com as suas belas covinhas.
-Estou a tentar dar um beijo ao Aoi e fazer o pino ao mesmo tempo…
-Nem penses que te vou beijar!!! — requeria Aoi, chateado -Estás bêbedo!!!
-Eu sei muito bem o que quero!!
-Não sabes não…
-O Uruha quer ser um vampiro!!! Ahahahahahahahahah – gozou Kai.
Reita e Ruki riam à gargalhada.
-Também andaste a beber, Kai? — Reita picava.
-Cala-te, idiota!!!
Reita adquiriu um ar mais sério.
-Nunca nos vamos separar, pois não? — perguntou.
-Não, jamais.
Os olhos de Akira brilharam perante a resposta de Matsumoto.”
Reita não havia cumprido a sua promessa, ia abandonar os amigos, e sobretudo ia abandoná-lo a ele.
Esperava ainda chegar a tempo…
Fale com o autor