Pedaços Transformados

118 Vida - P A R T E D O I S


vida – P A R T E D O I S

CALUM, 13 ANOS.

Calum não podia acreditar que aquilo aconteceu, porque... Uou. Não era simplesmente "uau, que incrível!", com tantas exclamações quanto possível e um tom admirado e impressionado e feliz, era muito mais do que isso.

Era Luke, beijando-o na bochecha, era Luke beijando-o na frente da sua irmã, era Luke beijando-o e Julie caminhando (no sentindo figurado, é claro, porque ela não estava andando) rumo ao "estar bem", era Luke beijando-o não porque iria embora, mas porque não podia ficar e... porque estava feliz, não porque estava se despedindo.

Era Luke beijando-o porque o amava

—Isso foi tão homo – comentou Julie, tardiamente, porque... Uau. Ela ainda estava processando o que aconteceu.

Calum tinha que concordar.

Aquilo era tão...

—Eu sou homo – disse depois de um segundo, percebendo que, sim, ele era.

—Muito homo – continuou ela, empurrando o ombro contra o dele, provocadora.

—Ah, é? – Calum sorriu, levantando a sobrancelha e inclinando-se para beijá-la na bochecha. – E o que você diz disso?

Julie colocou a mão na bochecha e inclinou a cabeça, encarando-o chocada e impressionada e sorrindo tão... tão sincera, tão doce, tão triste, que Calum a amou mais um pouco.

—Isso foi tão hétero – comentou ela, os olhos brilhando de lágrimas.

Calum riu, sentindo todos os pedacinhos pequenos dentre de si unindo-se novamente, sendo remendados, embora aqui e acolá ainda faltasse um pedaço essencial. Muitos pedaços essenciais. Mas Julie riu, tão quebrada e hesitante quanto ele, como se não soubesse o que fazia, o que faria, e Calum soube que as coisas estavam ruins e podiam ficar piores, mas que elas iriam melhorar.

Era um desejo.

Era uma certeza.

Era uma esperança.

Era a vida.

E, naquele instante, a vida nunca tinha sido tão bela.

Calum ficava triste por precisar arruinar essa alegria.