Pedaços Transformados

70 Traição - P A R T E D O I S


Notas iniciais
É claro que a rainha dos idiotas não podia ficar de fora - eu estava meio assim quanto a escrever isso, mas é como eu disse. Eu não posso escrever um rpg se não falar da Rainha Fada, como você (que não leu Isso não é...) vai entender a loucura da personagem sem isso? Não tem como.

traição – parte dois

JULIE, 12 ANOS.

Ser uma rainha era difícil.

Ser Rainha Fada era ainda mais difícil.

Ter decidido que seria os dois complicava tudo ainda mais.

Julie amava coisas complicadas, mas até ela tinha que admitir que aquilo era um novo nível de complicação.

A coroa não caiu na sua cabeça com um peso de responsabilidade e confiança e preguiça, Julie era uma simples camponesa até que decidiu brincar e testar a sorte (ou azar, depende de qual versão ela contava) e puxou a espada cravada na pedra e... O resto era história, como diziam.

Sim, sim, Julie sabia, isso era claramente um reconto de Arthur e Excalibur com muito mais magia do que apenas Merlin. E muitos monstros. E povos mágicos. E uma linha do tempo realmente confusa – não apenas porque o cenário parecia algo medieval e então surgia algo steampunk sem nem uma explicação além da necessidade daquilo precisar existir, mas porque às vezes a história começava de um ponto e depois ia para o outro e voltava com tudo.

No primeiro ano de Julie nos RPG Live Action, ela foi escolhida para ser rainha das fadas numa audição – era talento natural, seu pai brincou – e teve uma grande luta contra o rei tirânico, que era seu verdadeiro pai, pelo trono que era dela (e seu verdadeiro pai fez uma participação especial, aproveitando mais do que deveria o momento e fazendo algo na linha de "Julie, eu sou o seu pai").

No segundo ano, eles decidiram voltar alguns anos no cenário e fazer a história de fundo da Rainha Fada, como ela chegou ao topo; como perdeu tudo, menos o seu irmão gêmeo mais velho e o seu melhor amigo, por causa de um incêndio que queimou toda a sua aldeia; como tiveram que sobreviver roubando e treinando uns aos outros por vingança; como ela puxou Excalibur da pedra (Tecnicamente, Julie tinha dito quando todos os principais líderes se reuniram para verem suas próprias histórias passadas e como elas se relacionavam, que não foi Excalibur que foi puxada, Excalibur foi dada pela Dama do Lago, a espada puxada foi... Julie não se lembrava do nome, mas todos a ignoraram. Novidade.) e como, por fim, ela conseguiu o trono.

(Claramente, Julie não seguiu esses tópicos, ela tinha sua própria história para contar e aquelas reuniões só serviam para compartilhar o fardo da nobreza ao molho de sangue e relacionamentos sórdidos.)

E agora, ao que parecia, seu terceiro ano seria como ela chegou ao fundo do poço, como tudo estava pacífico e então... bum! Ela é traída!

A história de sempre, Julie supôs. O velho clichê que todo mundo gostava de “o herói consegue ficar por cima, cai e depois ressurge das sombras”, com mais força, brilho e ressentimento, sem a inocência da juventude e o slogan "o bem vence o mal" a cada instante.

Embora... as coisas tivessem saído do controle.

Do seu controle.

Na reunião daquele ano, a maioria voltou por um pouco mais de liberdade para decidir o que aconteceria, se concentrando nos conflitos internos de cada reino, sem realmente uma grande guerra envolvendo todos eles – Julie achou isso chato (ela preferia a grande guerra!) e sugeriu, por baixo dos panos, que talvez, apenas talvez, alguém do seu grupo confiável era influenciável a uma traição...

Julie suspirou, impaciente pela demora da sua morte agonizante acontecer e daquelas chamas começarem – talvez ela não devesse ter sugerido algo tão aberto a interpretações, mas, sinceramente, não tinha nada de divertido em saber o que iria acontecer, porque, no final (ou começo) todos roubavam e compartilhavam as informações com seus súditos, tentando impedir que fossem os perdedores.

Julie estava cansada dessas mentiras na corte e queria algo real; queria provar a si mesma que podia fazer planos sem conhecer todas as variáveis, apenas as mais importantes, e ainda sim ser a vencedora no fim, a última a ficar de pé.

Julie queria ver ser podia realmente ser considerada Rainha Fada.