Pedaços Transformados
163 Se tivesse
Notas iniciais
se tivesse
setembro, hoje
Algumas coisas eram sem sentido.
Mais do que algumas coisas eram sem sentido, porque se tivesse como... como...
Como coisas ruins podiam acontecer com pessoas boas?
Como coisas boas pareciam passar bem longe delas?
Luke não entendia.
E não sabia se queria.
E não estava comprando essa história de que era para o melhor delas, de que elas eram anjos e que o lugar delas era no céu.
Não mais.
Não sempre.
Não agora.
Luke preferia pensar que nem sua irmã e acreditar que tudo era um acaso do destino, uma variedade infindável do que acontece a quem e quando escolhida pelo Universo, de que... nada. Qualquer coisa era melhor do que não haver nenhum motivo especial para Calum estar ali; qualquer coisa, inclusive uma punição por algo que fez ou ainda vai fazer, pode fazer, era melhor do que não saber por que.
Por que eu?
Por que ele?
Por que Calum?
Luke perguntava-se quem estava sendo punido, ele ou sua mãe, já que nada acontecia com eles, já que ver e ser incapaz de fazer algo para ajudar era pior do que ser o alvo. Ou talvez fosse algum tipo de maldição de família desconhecida – não era difícil imaginar isso vindo dos seus avôs paternos e/ou do avô materno incógnita. Ou talvez fosse uma praga que recaia sobre todas as famílias que não se encaixavam nos padrões e que eram felizes apesar disso, que eram felizes justamente por isso.
Sim, Luke conseguia ver bem isso acontecendo: o ciúme corroendo todos aqueles que não tinham o que eles tinham, a inveja para ter ao menos um pouco, e, finalmente, a raiva por saber que nunca teriam; todas aquelas pessoas irritadas por serem iguais e irritadas por não serem diferentes unindo-se em um círculo e lançando azar e jogos de palavras e sacrifícios e então dizendo "desejo que eles nunca tenham paz!".
Luke suspirou. Deveria ser algum tipo de carma, ele tinha certeza. Luke não sabia que tipo, não sabia como, mas tinha que ter um motivo para tanta coisa triste e morte ocorrer na sua família, deveria... deveria...
Céus, Luke suspirou novamente, querendo afundar ainda mais no sofá, mas ciente que não tinha como, que não tinha nada que podia fazer, que se tivesse não estaria naquela situação lastimável, refletindo sobre tudo e tudo, que não era nada, que nem Julie sempre fazia independente do momento.
Se tivesse algo para fazer, Luke não estaria se arrependendo – não estaria passando e repassando em reprises mentais todos os sinais de que havia algo de errado com Calum, não estaria lembrando-se de como Calum estava sendo irresponsável com a própria saúde e não estaria se culpando por não tê-lo impedido, por não ficar ao lado dele ao invés de ter seguido Julie e Ashton, por não ter dito que estava apaixonado por ele enquanto tinham tempo.
Enquanto tinham tempo, ecoou sua mente de acordo.
—Eu vou...
Luke não sabia para onde iria – ele olhou ao redor, procurando algo para fazer e... não encontrou nada.
Se tivesse algo que pudesse fazer, Luke não estaria sentado num sofá relativamente confortável da sala de espera do hospital (a cadeira que sentou quando Julie havia torcido o tornozelo nem era tão ruim, mas agora parecia uma tortura), esperando ver seu amigo, mas ao lado dele.
Se tivesse algo para fazer, Luke não estaria se sentindo um inútil, alguém que não servia para nada, nem para confortar sua irmãzinha, que estava “sentada” ao seu lado, encarando fixamente o nada, como se temesse piscar e adormecer, como se temesse piscar e nunca mais acordar, como se temesse piscar e perder tudo...
Os pés dela descansavam-se sobre suas pernas, enquanto o tronco encostava-se em Ashton, que tinha um braço ao redor dos seus ombros, os olhos fechados, o queixo descansando na outra mão e um peso na forma como seus dedos moviam-se, traçando padrões aleatórios na pele de Julie, que não condizia com a delicadeza e suavidade dos seus traços em suas obras, mas era certo para a ocasião.
Se tivesse algo para fazer, Luke não estaria pensando no quanto aquilo aquecia o seu coração, no quanto aquela cena era confortável, no quanto era bom saber que Julie havia se apaixonado e que era recíproco (era uma droga quando não era), porque Luke sabia que ela estava muito bem sozinha, mas a vendo ao lado de Ashton daquele jeito, deixando-o que a apoiasse, ele sabia que ela tinha encontrado a pessoa certa, bem como Ashton, que parecia ter todo aquele peso dissipando-se conforme a tocava.
Se tivesse algo para fazer, Luke não pensaria nada disso.
Se tivesse algo para fazer, Luke não estaria com ciúmes.
—Eu vou... – Seus dedos contraíram-se sobre as pernas da sua irmã e ela virou-se para encará-lo tão cansada e tão triste que Luke levantou-se, piscando os olhos que queimavam, engolindo o bolo em sua garganta, e anunciou: – Eu vou tomar café.
Se tivesse algo para fazer, Luke não iria chorar.
(Ele esperava que não.)
(Ele afastou-se por precaução.)
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