Pedaços Transformados
65 Provar
Notas iniciais
provar
CALUM, 12 ANOS. LUKE, 12 ANOS.
—Então – disse Calum quando ficaram sozinhos. – Por que você queria Julie e Michael juntos? Ou será que – ele sorriu, levantando as sobrancelhas – você não conseguiria ficar longe de tuudo isso?
Luke sorriu.
Até que percebeu que Calum falava sério.
É claro que Calum falava sério, murmurou uma vozinha irritante na sua cabeça. Ele tinha deixado Julie e Michael sozinhos! O que ele tinha na cabeça para fazer isso? Era claro que todos iriam perceber. Ele tinha deixado Julie e Michael sozinhos! O que ele tinha na cabeça para fazer isso? Por que ele tinha deixado Julie e Michael sozinhos?!
Oh, sim, respirou Luke, entretanto, por mais forte que respirasse, era como se o ar não chegasse completamente aos seus pulmões, apenas o essencial para se manter vivo; era como se tivesse algo na sua garganta que o impedisse – de respirar, falar, colocar para fora o que pensava, o porquê de querer Julie e Michael sozinhos.
—Hum – pigarreou Luke, mas o "algo" na sua garganta continuou. – É, hum...
—Sim? – disse Calum pacientemente.
—Eu estou... meio que... procurando a aprovação da Julie?
—Você está me perguntando?
—E-eu não... sei?
—Sabe? – retrucou seu amigo calmamente.
Luke odiava o fato de demorar tanto para pensar sobre o assunto, para ter um argumento indiscutível (não estava funcionado), enquanto Calum parecia tê-los na ponta da língua, pronto para colocar para fora e derrubar toda sua convicção – inexistente – facilmente.
—Sim, certo – suspirou Luke, ciente da derrota. – É que... é o primeiro amigo que eu faço que não conhece realmente a Julie, que não sabe no que está se metendo, que eu escolhi... Quer dizer, você é meio que... – Calum assentiu, não ofendido, porque se soubesse como Julie era, se fosse por ele mesmo, ele não sabia se os teria como amigo agora. (Graças a Deus, não foi sua escolha, porque, graças a Deus, Julie e Luke eram os melhores amigos que poderia pedir.) – E ter a aprovação da Julie? Acho que eu me sentiria o ganhador do Nobel – confessou, meio que... envergonhado. – Eu quero provar a Julie que eu... também posso.
Luke conseguia pensar em várias perguntas para se fazer nesse momento (O que? Por que? Como?) e diversas, variadas, formas de acalmar, dizer que não precisa preocupar com isso, que ele não precisa da aprovação de Julie para fazer amigos – Luke sabia que não precisa da aprovação de Julie, mas...
Calum o olhou. Somente isso. E Luke não sabia o que pensar – alguma parte dele achava reconfortante o fato de não estar sendo julgado, enquanto as parte que faltava estava ressentida pela falta de reação. Calum não iria dizer nada?
Seus olhos estavam normais, seu rosto neutro e, por mais que Luke o encarasse, tentando ver alguma emoção, tudo parecia tão sem valor. Olho no olho não era a conexão mais poderosa que existe, a porta da alma e a janela do coração? Então por que ele não conseguia entender...
Luke parou, percebendo que... Calum tinha olhos cinza?! Como ele nunca percebeu algo desse tipo? Quem se importava com Michael e o que Julie pensava sobre ele quando Luke sempre achou que os olhos de Calum fosse preto? Como nunca percebeu essa diferença clara?
(Porque ele nunca tinha olhado por tempo suficiente, a voz irritante atacou novamente.)
—Essa é sua resposta final? – questionou Calum depois de um tempo.
Luke piscou, boquiaberto, e então praguejou enquanto marchava para longe:
—Ah, vá se...
—Liz! – gritou Calum, arregalando os olhos e acenando para alguém atrás de si. Luke rapidamente se calou e virou-se devagar, assustado, para sua mãe... não existente. – O que? – defendeu-se seu amigo, cruzando os braços e os lábios num meio sorriso. – Parecia ela. Tinha os mesmos cabelos pretos e...
—Minha mãe não tem cabelo preto – interrompeu Luke.
—Não? – ecoou Calum. (E, se Liz não fosse sua mãe, se não a conhecesse desde que nasceu, Luke poderia ter acreditado nele.) – Eu jurava que os cabelos dela eram pretos.
—Julie é uma péssima influência – murmurou Luke, impressionado, mas não surpreendido. – Não devem mais existir pessoas boas no mundo, qualquer uma é influenciável agora. Esse mundo não tem mais salvação, porque uma alma, uma boa alma – ressaltou falando alto, mas não gritado (por amor de Deus, eles estavam num hospital!) – foi corrompida!
Calum não discordou, não reagiu, apenas comentou, solidário:
—Espero que Michael sobreviva a ela.
Ah, sim, Michael, lembrou-se Luke, desanimado.
—E você? Por que você queria Julie e Michael juntos?
—Eu queria ficar com você – respondeu Calum dando de ombros, inocentemente.
Mas...
Luke o olhou cético. Ele conhecia seu amigo e conhecia as más influências que o influenciava. E não iria cair naquela conversa.
—Calum...
—O que? – Ele piscou os olhos, magoado. – Eu não posso querer ficar com você ao invés de Julie?
—Não.
—Hum, certo – murmurou Calum, revirando os olhos. – Eu queria ficar com você. É verdade – insistiu. – Só que... Bem, não é o principal motivo. Ou talvez seja uma consequência bem vinda. Ou talvez...
—Minha nossa, Calum, pare de enrolar e... Como é que você diz? – Luke parou, fingindo pensar, embora soubesse o que iria dizer. – “Dá uma de Julie?”
—Eu não estou dando uma de Julie – retrucou Calum, cruzando os braços. – Se eu estivesse já teria te dito que não quero ficar ouvindo Julie falar sobre como Michael é irritante. Mas eu te disse? Nãão.
É, Luke sorriu. Calum estava dando uma de Julie. E qual era o problema? Ele podia fazer o mesmo.
—Você está com ciúmes? – perguntou, sorrindo mais ainda.
—Não – respondeu Calum. – Eu só não quero ficar com dor de cabeça.
—Hum – disse Luke, estreitando os olhos, não convencido.
—E eu queria ficar com você – completou Calum, abrindo um sorriso que Luke classificaria como tímido, mas ele se recusava a ler seu amigo agora, sem nada que pudesse comprovar que estava certo (sem Julie por perto para chamá-lo de mentiroso).
—Hum – disse Luke, sem comprometimento, mas sorriu em retorno.
—Agora você diz que queria ficar comigo também – provocou Calum, empurrando-o com o ombro.
—Hum.
—Vou aceitar isso como um "sim".
—Hum.
—Se você disser "hum" mais uma vez, eu vou... eu vou...
—Hum?
—Eu vou – Calum sorriu, vitorioso, voltando a andar – dizer a Liz que o filhinho querido dela falou...
—Você não faria isso! – gritou Luke, interrompendo-o. Quem se importava se estavam ou não num hospital? Sua mãe o mandaria para um se soubesse o que ele disse! – Calum – pediu agora, num sussurro deplorável, deixando para trás todo seu amor próprio.
—Hum – cantarolou seu amigo, abrindo a primeira porta e entrando, sem olhar para trás.
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