Pedaços Transformados
233 Obviamente
obviamente
setembro, dois dias depois
—Olá, senhora Hood — cantarolou Luke animado, de costas a ela.
—Luke — disse Kora, surpresa, parando na entrada da cozinha. Da sua cozinha. — Você por aqui... — Seus olhos desviaram-se para o relógio na parede. — A essa hora. — Suas sobrancelhas franziram-se. — Quando você chegou?
Ela não se lembrava de ter ouvido a campainha tocar — não que significasse algo, depois que tomava seu remédio e deitava na cama, ela não escutava mais nada.
—A senhora já estava dormindo — respondeu Luke, como se não fosse importante, balançando a espátula no ar como se fosse um chefe de cozinha. Ou aquela fosse sua casa.
—E você está aqui porque...
—Por Calum — disse Luke, confuso. Parando, ele virou-se para encará-la antes de virar a panqueca. Era óbvio. — Obviamente.
—Obviamente — concordou ela. — Por que?
—Por que o quê?
Kora suspirou, puxando a cadeira e desistindo. Obviamente. Obviamente ele era igualzinho a irmã. Um idiota.
—Por que você está aqui por Calum?
—Porque ele precisava de mim.
—E ele precisava de você porque...
—Panquecas! — anunciou Luke, pegando um prato, colocando-o na frente dela e virando a frigideira. — Molho de chocolate, morango ou sem molho?
Kora suspirou novamente. Igualzinho a irmã. Ela cortou um pedaço da panqueca e o colocou na boca, mastigando-o distraidamente. Por que essas crianças nunca respondiam o que se perguntava? Não que ela pudesse dizer algo quanto a isso, mas ainda sim...
—Isso está gostoso — comentou Kora, surpresa. — Quando... quando você começou a cozinhar?
Luke sorriu, fazendo uma mesura e aceitando o elogio. Quando ele começou a cozinhar? Desde que conseguia se lembrar, a cozinha era seu lugar. Era ali que ele e seu pai... que Luke sentia que eles tinham algo em comum, que ele sabia que era bom, melhor do que sua irmã.
Luke gostava, sempre gostou, de como se concentrava naquelas tarefas, em cortar, misturar, provar, e se esquecia de seus problemas; em como existia uma receita por trás e em como você podia chegar ao que se queria sem segui-la — Luke não sabia como explicar, só que era algo que ele era bom e Julie não era e ele tinha em comum com Andrew; que ele errava, aprendia, tentava e conseguiria; era algo que ele continuou tendo mesmo quando perdeu tudo, quando estava sozinho, quando não tinha mais Julie ao seu lado; era algo que o fazia sentir que não estava sozinho, que seu pai estava ao seu lado.
—Luke? — chamou Kora, quando ele não respondeu. — Está... — Caminhos não exploráveis a frente, pensou ela, consciente que ultrapassaria uma fronteira bem delimitada entre eles. Kora engoliu em seco. — Está tudo bem?
—Não poderia estar... Oh. Meu. Deus. Eu volto atrás com a minha palavra — murmurou ele, os olhos arregalando-se. — Você sabe pentear os cabelos, Julie?
Sua irmã revirou os olhos, bocejando enquanto virava a cabeça para um lado e passava os dedos pelo cabelos, tentando desembaraçá-los, e então desistindo ao chegar na metade e os dedos não conseguirem mais descer e virando a cabeça para o outro lado, fazendo o mesmo. E desistindo.
—Maravilhosa — disse Julie para si sonolenta. — Mara... — ela bocejou — lhosa. Oh, panquecas — murmurou, gananciosa. — Lukeeeee. — Julie piscou, fazendo beicinho.
Luke revirou os olhos. Novamente? Talvez. Como ela podia ser tão fofa? Como ele podia dizer não?
—Sente-se que eu te sirvo.
—Eu te amo — declarou ela, abraçando-o.
—Hunf — bufou ele, colocando as mãos na cintura dela. – Obviamente. E você só diz isso porque quer minhas panquecas.
—Não! — exclamou, ofendida. Realmente ofendida. Ela ainda devia estar dormindo, pensou Luke. — Quer dizer, sim, mas não. Não apenas isso.
Julie cantarolou enquanto alisava a cabeça no ombro dele, subindo-a e descendo-a como se fosse um gato. Ela definitivamente ainda dormia. Sua irmã tinha dois comportamentos diferentes – três se a conhecesse direito e soubesse contar: um)antes de tomar café, quando ainda estava dormindo e era a pessoa mais carinhosa e melosa e grudenta que conhecia; dois)depois do café, não querendo ver sua cara mais nunca na vida nem na galáxia; e três)quando queria retirar toda cafeína do seu organismo e dizer que ainda dormia para poder ser carinhosa e ter uma desculpa para isso.
—Qual o milagre para você já estar acordada?
—Calum. Você sabe que eu tenho uma coisa chamada espaço pessoal, certo? Calum desconhece que também tem quando está dormindo.
—Você desconhece que tem– murmurou Luke – quando está dormindo.
—Hum? Mas eu estava acordada e Calum estava me abraçando! Sabe onde a mão dele estava? – sussurrou Julie, horrorizada. Olhando para Kora antes de continuar, que fingia não ouvir e que não precisava fingir não entender, porque não entendia, sua irmã completou: — Eu vou voltar para cama agora.
—Hã? – murmurou Luke, sem entender. Por sua irmã iria voltar para cama? Ela gostava de ser assediada? Não que ele não confiasse em Calum (Calum era gay e se não fosse ainda teria vários “se, se” que nunca iriam se realizar), mas... Sinceramente, quem Luke não confiava era Julie.
—Hã? – Kora também não entendia. Nada. Nem um pingo. Nunca. Ela nunca havia entendido nem um deles, não apenas os gêmeos Hemmings, mas os seus próprios gêmeos Hood. Ela não entendia Calum,
Julie fez uma careta, franzindo as sobrancelhas, desgostosa e sonolenta e cansada. Quem conseguia ficar acordada aquela hora da manhã? Seu corpo era programado para não acordar em dias que não tinha aula.
—Calum acordou – anunciou ela com o mesmo entusiasmo que sempre teve na sua vida, em toda a sua vida. Nenhum.
Luke não perguntou como ela sabia, ela sempre sabia. Sua irmã sempre sabia. Antes do telefone e/ou da campainha tocar. Antes de alguém atender. Antes de alguém se arrepender. Segredos eram derramados fora, desculpas eram desnecessárias, o fim estava sempre próximo.
Ficando nas pontas dos pés, Julie passou os dedos pelo cabelo do seu irmão, dizendo “bom garoto” e deu um beijo de esquimó nele.
—Boa noite, Luke. – Esbarrando em Calum na entrada da cozinha, ela bateu o quadril no dele, desestabilizando-o e sorriu. – Bom dia, Calum.
—Hum – balbuciou ele, ainda não acordado, esticando os dedos para alisar os cabelos dela, como ela tinha feito com Luke, mas no fim tocando em sua orelha.
—E ligue para a mamãe! – gritou ela, desaparecendo nas escadas. – Ela está preocupada.
O telefone tocou.
Luke suspirou.
O telefone tocou novamente.
—Oh, panquecas – suspirou Calum. Luke ofereceu mecanicamente o prato que tinha pego para sua irmã. – Para mim? – Calum colocou a mão no coração, não surpreso. Excesso de xarope de chocolate? Ele tinha feito para Julie. – Obrigado.
—Luke? – chamou Kora. – Para você. – Ela esticou o telefone para ele. – Liz.
Luke suspirou, mantendo o telefone longe assim que sussurrou:
—Ei, mãe.
Fale com o autor