notícia ruim

setembro, um dia depois

Aquele dia não começou bom, mas Liz esperava do fundo do seu coração que terminasse.

Primeiro, ela acordou com sua filha e seu genro num complor, tentando roubá-la – não que fosse a primeira vez que sua filha tentava isso, mas ainda era uma surpresa ver Ashton acompanhando-a.

“Não, Julie, não vamos fazer isso”, ela ouviu Ash sussurrar e tudo o que mais queria naquele momento era que eles calassem a boca. Por que crianças eram tão irritantes? Liz não queria ser uma mãe chata, (ela deixava-os irem a festa desde que não voltassem muito tarde ou bêbedos, ela não era muito rígida com namoros, além de nada de dormirem juntos antes do casamento; “e, sim, Julie, dormir juntos em todos os sentidos que você pode imaginar e eu sei que são muitos”, Liz podia ouvir Julie reclamando até em seus pensamentos) mas era difícil não ser uma mãe chata.

Seus filhos tornavam isso uma tarefa difícil.

"Não, Julie, agora não, não vamos sair enquanto é madrugada, volte para cama", murmurou, virando-se para o outro lado e dormindo. Um sono profundo e angustiante, um sono que parecia mais uma queda bruta do que pacifica, um sono que a deixou mais cansada do que relaxada.

Depois (horas mais tardes ou segundos ou minutos ou quanto tempo fosse, Liz estava tão cansada para se importar, ela só queria dormir), Kora ligou.

—Kora? — murmurou Liz, sonolenta, apertando os olhos embassados para a tela do seu celular.

—Liz — engasgou Kora, no telefone. — Oh, céus, graças a Deus, eu pensei que algo tivesse acontecido, porque você não ligou ou mandou mensagem e ainda não vi Calum hoje que... Desculpe — disse ela de repente percebendo que divagava. — Digo, por ligar essa hora. Mas é que...

—Está tuu — bocejou, olhando para o relógio na cômoda antes de empurrar o rosto contra o travesseiro e murmurar: — Só é seis horas e eu dormir duu... as... — Seus olhos fecharam-se — horas direee — Liz suspirou, aconchegando-se naquele imenso conforto e... e deixou o peso do mundo sair dos seus ombros.

—Liz? — chamou Kora preocupada.

—Hã... Oi — piscou, tentando manter-se acordada. — Oi, oi — Ela levantou-se jogando as cobertas para o lado. — Diga, estou ouvindo você e... Droga! — praguejou, lembrando-se. — Oh, céus. — Seus olhos percorreram o quarto e suas pernas viraram geléias abaixo de si, tremendo com o peso súbito do mundo sendo jogado de volta em cima de si. — Droga.

—Liz — repetiu Kora, impaciente. — O que está acontecendo?

Liz odiava dar más notícias e nunca sabia como dizê-las. Como dizer a Kora que seu filho estava internado (porque ela tinha obrigado o médico a fazer isso) sobre a suspeita de câncer?

Nesses momentos, Liz sentia falta de Andrew... mentira, ela sentia falta dele a todo instante.

Ele não saberia como dizer isso, ele nunca sabia como ser sensível; ele era que nem Julie e apenas dizia, sem aumentar ou diminuir, sem exagerar ou mentir, e a sensibilidade estava nisso, na verdade por trás de cada palavra. Liz era a que normalmente se oferecia para dar essas notícias tristes ou então era a convocada, para prestar apoio e um ombro, um ouvido, um coração, foi isso que aconteceu da outra vez.

Andrew havia pedido para que ela conversasse com Kora e convencesse-a a deixar Calum ficar com eles um pouco, ao menos um pouco, e ela nunca negaria um pedido feito pelo coração dele, não quando seu coração queria o mesmo.

Calum era seu.

Assim como era de Kora.

Tanto quanto era de Kora.

Quando sugeriu a Kora que poderia ficar com Calum enquanto ela se reerguia, encontrava forças para isso, Liz sabia que era para o melhor — Andrew não sugeria se não fosse.

Quando sentou com Kora e conversou sobre disforia de gênero, sobre o fato de que chegaria um momento em que Calum poderia sentir-se completamente angustiado em seu corpo, desajustado a ele, Liz desejava que Andrew estivesse com ela para lhe dizer se era verdade ou não, em como podia ajudá-los nesse caminho, em quais seriam as consequências, sejam elas positivas ou negativas, de usar qualquer tipo de remédio ou hormônio para adequar o corpo dele ao gênero.

Agora, quando tinha que confessar para Kora que Calum podia ter o mesmo que a outra filha dela, Liz queria Andrew naquele instante ao seu lado, para dizer que tudo iria ficar bem ou para simplesmente segurá-la, porque Liz queria cair, sentia-se caído, e queria que ele a segurasse, a impedisse, a ajudasse a reunir todos os pedaços e colá-los juntos novamente, para ajudá-la a dizer a Kora o que precisava ser dito.

—Desculpe – disse, simplesmente. – Eu esqueci de te dizer.

—O que? – questionou Kora. — Calum está bem?

—Ele está bem – declarou. — Só que... — Liz hesitou. Como dizer isso? — Calum desmaiou e eu o levei para hospital, provavelmente não é nada, só...

Seus olhos queimavam. Provavelmente? Ela queria rir. E vomitar. O gosto de suas palavras amargavam seu próprio paladar.

—Provavelmente? — repetiu Kora, como se tivesse ouvido-a.

—Devido ao seu histórico... — disse Liz, devagar. — A Malia ter tido câncer... Eles acharam melhor confirmar se... — Ela respirou fundo. — Se não é isso que Calum tem.