Pedaços Transformados
187 Implícito
implícito
setembro, hoje
—Como você pode estar tão calma? – questionou Julie, sua voz monótona, mas ainda sim tão emocionada para si mesma.
Como isso podia estar acontecendo?
Como sua mãe podia estar tão calma?
Julie conhecia sua mãe assim como se conhecia, e, pois mais que tentasse negar, ela sabia que tinha mais de Liz em si do que do seu pai – e tudo que Julie mais queria era quebrar coisas, quebrar tudo e deixá-los como ela estava, como se sentia.
Como sua mãe podia estar tão calma?
Julie querer chorar até não ter mais lágrimas, gritar até não ter mais voz, implorar até não ter mais forças.
—Julie – silabou Ashton, pegando a mão dela e apertando-a, prevendo brigas num futuro não tão distante. Era por isso que ele era necessário ali. – Não comece.
Ash ainda podia ouvir a voz da sua mãe, pedindo para que ele ficasse com Julie antes que ele dissesse que ficaria com ela, e a exclamação súbita, que deveria ter vindo acompanhada de olhos arregalados (Ashton conseguia ver os olhos arregalados como se Anne Irwin estivesse na sua frente) e o pedido urgente para não deixar Liz e Julie sozinhas, para evitar guerras e fins de mundo desnecessários, e o desejo que tudo iria ficar bem.
—Como eu posso estar calma? – riu Liz e ela parecia quebrada, cada som que saia da boca dela era um pedaço de vidro afiado, que cortava, despedaçava, torturava. – O que sobra para mim se eu não estiver? O que... – Ela engoliu em seco, apertando as mãos contra o volante até que elas estivessem pálidas, sem sangue, e respirou e inspirou e relaxou seus dedos, diminuiu o aperto, deixou toda dor e sofrimento ir embora. – Vai ficar tudo bem, Julie.
Julie queria ter essa fé, mas ela ouviu o "não vai?", que estava implícito, assim como o fato daquilo ser uma pergunta, uma súplica, um desejo... Julie acreditava nisso e era isso que importava.
Ela sorriu.
Ela tinha fé.
Ela tinha esperanças.
O que sobrava para não ter?
O que ela tinha a perder?
—Sim, vai – concordou.
Julie acreditava.
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