Notas iniciais
Oiii

estranho & normal

LUKE, 4 ANOS.

Luke não sabia por que não se ouvia, por que nunca ouvia a pequena voz no fundo da sua mente que dizia para nunca ouvir sua irmã, mas ele nunca a ouvia – a voz na sua mente, se ele a ouvisse seria uma bênção – e sempre se arrependia. Sério, quando Julie teve uma boa ideia? Sério, quando ele iria parar de ouvi-la? Sério, quando ele iria aprender a não ouvir as boas ideais da sua irmã?

—Pela milésima vez, Luke – disse sua irmã sem paciência: – Eu vou te empurrar e você só vai pedalar. Imagine que está com rodinha se for mais fácil para você.

A voz dela dizia "o que tem de difícil nisso?" e Luke podia citar vários problemas. E sua irmã retrucaria com várias soluções antes mesmo dele dizer tudo o que queria. Às vezes ele a odiava. Como Julie podia ser assim? Como ele podia amá-la tanto e odiá-la às vezes com a mesma intensidade? Luke não sabia, mas nesse momento ele odiava-se por ouvi-la.

—Isso não vai dar certo – murmurou.

—Confie em mim. Vai – disse ela. E completou para não deixar dúvidas: – Eu aprendi assim, você também irá.

—Você está com o braço quebrado – apontou Luke, distraído.

O selim da bicicleta era desconfortável, a vista da ladeira era assustadora e Luke sentia-se mal, desconfortável, suas mãos estavam brancas de tão apertadas que seguravam o guidom. Descer aquela ladeira, sem saber como, deixava Luke em pânico, porque... Cara, aquela seria uma viagem só de ida, ele não tinha dúvidas. Ele sentia isso do fundo dos seus ossos congelados.

—Não importa – desconsiderou Julie. – E, se, um grande se – frisou ela, apertando os seus ombros – algo acontecer a você, pense na viagem de ambulância que vamos ter.

—Nós não vamos...

—O número está em discagem rápido – disse Julie, tirando um celular do bolso e o balançando.

—Onde você...

—Eu roubei, é claro – disse sua irmã como fosse óbvio. Era. Ultimamente ela estava numa fase de roubona, pegando qualquer coisa que brilhasse; tudo que reluzia era ouro em suas mãos, como se fosse um duende, anão ou o que for que viva no final do arco-íris, dentro de um pote de ouro. – Agora vamos. Adiante! Eu sei andar de bicicleta sem rodinha e você também irá!

—Você não...

—Tchau – cantarolou sua irmã, empurrando suas costas antes que ele pudesse impedi-la. – Pedale, Luke! Pedale! Ou não pedale e seremos gêmeos de gesso! Ah, é, já somos gêmeos...

Luke sentiu seus dentes tremerem ao passo que a bicicleta ia ladeira abaixo, deixando-se ser levado sem fazer nada, tentando apenas manter-se equilibrado para não descer a ladeira rolando... Para não quebrar o braço como sua irmã quebrou há duas semanas.

Vagamente, ele ouviu Julie gritando algo sobre pedalar e apenas quando sentiu seus pés descalços queimando por causa do atrito contra o piche, Luke lembrou-se de colocá-los sobre os pedais e fazer força sobre eles, resistindo contra aquele peso que parecia puxá-lo para frente, para baixo, para uma queda e um rolamento trágico.

Cada vez com mais força, cada vez mais rápido, cada vez mais animado com o vento forte batendo no seu rosto e queimando seu sangue, cada vez mais próximo do fim da ladeira, Luke percebeu que não sabia parar e que os freios não funcionavam, não importava o quanto ele os apertasse desesperado. E ele os apertou repetidamente desesperado para saber disso. E gritou. E gritou. E gritou mais um pouco ao cair no chão, gemendo ao rolar para o lado e delirando sobre ouvir sua irmã gritar um "eba!" fraco, distante e animado.

—Oh-oh-oh, cara – disse Julie, puxando o celular do bolso com um grande sorriso. – Parece que dois alguém aqui serão duplamente gêmeos ao ter nascido no mesmo dia e ter gessos sobre os mesmos braços.

—É o outro – murmurou Luke, cerrando os dentes e os olhos, como se isso fosse impedir a vontade de gritar e chorar.

Essa foi a dor que sua irmã sentiu há uma semana? Como... Luke não entendia como ela podia fazer as coisas tão fáceis – e era fazer realmente e não parecer como se fosse. Como Julie pode lidar com aquela dor infernal e com ele desesperado ao mesmo tempo por tê-la visto toda arranhada e machucada? Luke mal podia lidar consigo mesmo! Ele mal pode impedi-se de chorar e gritar e desmaiar...

—Ahn? O que? – questionou sua irmã, desviando os olhos do celular, calmamente. – Você disse algo?

—Eu quebrei o esquerdo, Julie – disse Luke com esforço. – Esquerdo.

—Mas...

—Es-quer-do — silabou ele de dor, raiva e frustração. Como ela podia ser assim?

Às vezes Luke sentia-se tão... normal. Apagado, ofuscado por sua irmã. Sim, sua irmã era impressionante e Luke sabia, mas às vezes ele queria ser impressionante assim. Às vezes ele queria ser corajoso o bastante para descer uma ladeira de bicicleta mesmo sem saber nada. Às vezes ele queria ser que nem ela.

—Por que você fez isso?! – reclamou Julie, jogando os braços para o lado e... Às vezes, como agora, Luke não queria; deveria ser um saco ser tão impressionante vinte e quatro horas por dia para os outros. – Ops – disse ela, encarando o celular roubado agora roubado e estilhaçado no chão. – Ops – repetiu quando seu irmão não reagiu. – Luke? – chamou Julie preocupada, colocando a mão no ombro dele e o sacudindo. – Você está bem?

—Não! – gritou Luke. – Você está apertando o meu braço quebrado!

—Ops.

—Você ainda está...

—Eu já disse ops! – gritou Julie.

—Ops não é desculpa!

—Ops – provocou ela, revirando os olhos para seu irmão. – Pare de drama – reclamou, batendo a mão... E vendo seu irmão recuar. – Ops – recuou Julie, apertando os olhos. – É sério, não estou fazendo isso de propósito.

Luke não sabia se sua irmã falava ou não a verdade, ele apenas tinha uma vaga lembrança sobre ter certeza que estava certo sobre aquela viagem fantástica na ladeira ser apenas de ida. E que aquela seria a última vez que ouviria uma boa ideia de Julie. Sem chance de ouvi-la mais uma vez. Sem chance dele ser tão idiota assim, deveria ter um limite sobre ser um idiota e Luke estava certo que ele tinha ultrapassado o dele.

—Você quebrou o celular! – gritou Luke, tentando se esquecer daquela dor.

—E você o braço – desafiou Julie, cruzando o braço e empinando o nariz. – O que é pior? Eu posso dizer que fiquei assustada com você choramingando, mas qual é a sua desculpa para ter descido uma ladeira de bicicleta sem saber andar de bicicleta?

—Julie – disse ele, rangendo os dentes. – Julie é minha desculpa. Em quem você acha que mamãe e o papai vão acreditar?

Julie ofegou, não era preciso nem pensar para saber a resposta. Seus pais nem pensariam para saber a resposta. Quem iria pensar para saber a resposta dessa pergunta? Claramente não alguém que a conhecia.

—Você não faria isso – recuou Julie, horrorizada, mas seu irmão ficou mais uma vez calado e ela suspirou. – Desculpe. – Julie esfregou os olhos e Luke viu que eles estavam um pouco vermelho, levemente úmidos. – Você está bem?

Hesitante, Julie aproximou-se, mas não o tocou, olhando-o com olhos vermelhos e lacrimejantes e medrosos. E Luke sentiu-se amolecendo e culpado, porque ele devia saber melhor do que ninguém que sua irmã reagia do seu próprio jeito estranho em situações que não queria lidar, normalmente jogando o que segurava no chão e sendo mais despreocupada sobre o que acontecia do que o normal, como se mostrar preocupação fosse uma fraqueza, como se ser que ela agisse assim com ele. Luke queria que sua irmã se sentisse segura com ele para ser quem era, completamente segura, e não apenas segura o suficiente para ser quem era às vezes, quando se esquecia de fingir.

—Não – respondeu Luke, honestamente. – Meu braço está quebrado, está doendo.

—Hum-hum. – Assentiu Julie, paciente. – Eu vou dar um jeito nisso. Eu te coloquei um braço quebrado, eu vou te tirar um braço quebrado.

—Você não tira um braço quebrado...

—Eu sou Julie Hemmings! – anunciou Julie vitoriosa enquanto dava um giro de 360° graus. – Eu... Oh, meu Deus! Adivinhe? – questionou, saltitando ao olhá-lo animada. – Nós vamos andar num carro com sirene! Eu sempre quis andar num carro com sirene!

—Você quebrou o celular – disse Luke, desorientado. Isso era o que chamavam de alucinação? Porque sua irmã estava tendo uma por ele.

—Você realmente não está bem – murmurou Julie, balançando a cabeça. – Nós vamos presos, é óbvio. Eu sempre quis ir presa... – delirou ela mais um pouquinho. – Espere aqui.

Antes que Luke pudesse impedi-la, sua irmã saiu correndo para o meio da pista, gritando socorro e agitando os braços como se corresse de algum perseguidor, em direção a um carro de polícia que parou repentinamente.

—Qual o problema? – questionou o guarda alarmado, levando a mão ao quadril.

—Meu irmão – disse Julie, ofegante. – Ele... Ele... – Ela respirou fundo, ofegante e dramática ao arregalar os olhos para completar: – Ele quebrou o braço.

Luke suspirou e revirou os olhos. Nem quando ele quebrava seu braço, ele era o protagonista da sua vida. Mas ele também sorriu. Nem quando ele quebrava seu braço, sua irmã era algo além dela mesma. Impressionante.

Notas finais
Hum... Fico sem saber o que dizer quando posto tantos capítulos contínuos.