Pedaços Transformados
64 Desculpa
desculpa
CALUM, 12 ANOS. LUKE, 12 ANOS.
Não importava como Luke pensasse nisso, de que maneira olhasse, em qual ângulo estivesse, ele ainda estava jogando sua irmã para cima de Michael – Michael que ele nem conhecia direito, que poderia ser um psicopata ou pior: um fã de Star Wars! Era tudo que faltava na sua vida: um fã realmente comprometido em levá-lo para o lado escuro da Força!
E (aquilo seria como Julie gostava de repetir, para enfatizar que falava sério) era jogar jogar, realmente jogar, e não fingir, brincar ou provocar enquanto jogava sua irmã em cima de Michael, porque... Luke queria que os dois ficassem juntos. E aparentemente não era o único.
O caminho todo até o hospital não foi silencioso, com Julie e Michael se empurrando e provocando, Calum tentando ficar o mais longe possível daquela confusão, Andrew contando histórias sobre como sua esposa era e o quão difícil foi conquistá-la, e Luke... Luke ficou em silêncio.
Ele gostava de ouvir Julie, admitiu Luke. Tinha algo na voz da sua irmã que o deixava fascinado e encantado – e talvez um pouco apaixonado. Ela era completamente desafinada, todavia... Julie tinha uma boa voz. E Luke gostava de ouvi-la. Era quase como ouvir uma sereia falar, embora sem aquela história de interior ruim ou aparência enganadora, porque Julie era linda – embora, Luke tinha que reconhecer (ele não era totalmente cego a respeito dela), que sua irmã era boa apenas no fundo, tão fundo que era fácil para Luke imaginá-la não aguentando o próprio peso de maldade e virando um buraco negro de amor.
É, suspirou Luke, jogando a cabeça para trás e então para frente, batendo-a uma vez contra a parede, diante daquela constatação. Se ele continuasse assim, com essa obsessão pela sua irmã, tentando dar mais valor aos pequenos gestos de bondade de Julie do que ela merecia, vendo e vendo-os novamente como se estivesse no horizonte de eventos do buraco negro, nunca esquecendo, Luke Hemmings não duvidava que algum dia pudesse descobrir que estava apaixonada por sua outra metade.
Sua melhor parte.
Sua irmã gêmea.
E, embora Luke não soubesse o que pensaria disso, o ele de agora não queria isso. Então...
—Dividam-se em dupla – ordenou seu pai quando todos entraram no hospital, na ala infantil, com crachás que diziam “visitante”.
E três coisas aconteceram ao mesmo tempo.
Sua irmã perguntou:
—Pode ser dupla de três?
Luke disse:
—Eu vou com Calum.
E Calum...:
—Eu vou com Luke.
E então dois irmãos falaram ao mesmo tempo:
—O que?
—Você não quer ir comigo? – questionou Julie, fingindo tremer o lábio, olhando de um para o outro, ignorando Michael. – Ninguém me quer?
—Não vou levar para o lado pessoal – anunciou Michael. E continuou a murmurar, tentando se convencer disso: – Não vou levar para o lado pessoal, não vou... Não é porque não tem querem que não te querem, Michael. Não, imagina.
—Qual o problema? – questionou Calum, curioso pela reação de seu melhor amigo. – Você queria ir comigo, certo?
—Sim – concordou Luke. – Mas...
Uma coisa era ele mesmo querer, outra era Calum – e Luke não esperava isso. Ele esperava convencê-lo, talvez forçar-lo um pouco e chantageá-lo muito, mas... Luke tinha um motivo para querer Julie e Michael juntos, entretanto qual era o de Calum? O que Calum pretendia?
—Ótimo, parece que tudo já foi decidido – disse Andrew, batendo as palmas uma vez para chamar a atenção de suas crianças... e Michael.
—Eu vou com Calum ou Luke? – questionou Julie, curiosa. – Não decidimos ainda.
—Com nem um dos dois – respondeu seu pai. – Você vai com Michael.
—Hã... – Julie olhou para cada um, meio que... perdida? – Não? Eu vou com Calum ou Luke ou com Calum e Luke.
—Não – disse seu pai, devagar. – Você vai com Michael.
Julie abriu a boca para retrucar quando percebeu que não tinha o que dizer e voltou a fechá-la, para descobrir que... Ela tinha que discordar. Era mais forte do que ela. Era seu propósito de vida.
E Julie não gostava de ser previsível.
—Tudo bem – disse ela, embora fosse difícil, parecesse que mastigasse papelão ou emborrachado ou qualquer outra coisa ruim de mastigar. – Eu vou com Michael.
—Você vai co... Você vai? – piscou Michael, com os olhos arregalados. – É claro que você vai – murmurou ele, substituindo a surpresa por um sorriso arrogante. – Não conseguiu ficar longe de tuudo isso, não é?
—Eu agradeceria se você me deixasse longe de tuudo isso – imitou Julie, contorcendo seu corpo daquele jeito que parecia uma lagarta.
—É bem simples o que vocês têm que fazer – anunciou Andrew, tentando desviar seus olhos daquele requebrar esquisito. – É apenas... Meus olhos estão queimando – interrompeu-se, arregalando-os até não enxergar nada antes de continuar: – Apenas se dividam e vão para os quartos das crianças, conversem, brinquem, as distraiam. Pode ser difícil para vocês, mas... – Andrew parou, piscando rapidamente, porque seus olhos queimavam, ressecados. Ou talvez porque estavam muito lubrificados, com muitas lágrimas, e ele queria chorar. Era difícil dizer, os dois eram possíveis, talvez os dois acontecessem. – Às vezes uma desculpa para sorrir – continuou Andrew – é tudo que elas precisam, então dêem isso a elas.
Dá isso elas? Calum entendia o que Andrew queria dizer. Algumas vezes, as pessoas estavam tão ocupadas preocupando-se com a doença, que se esquecia da pessoa por trás dela; que sorrisos eram tão importantes quanto remédios, que esperança era quase tão bom quanto a realidade, que sua irmã não voltaria, mas que ele não estava sozinho.
Malia era uma presença constante na sua mente e qualquer coisa lembrava Calum da sua irmã, qualquer coisa era uma sugestão daquilo que perdeu, daquela sua parte que nunca encontraria novamente, contudo ele não estava só, não fora apenas ele que perdeu alguém importante para si – e podia ser que seus amigos não entendessem completamente aquele sentimento (e que isso nunca acontecesse), mas Calum não estava sozinho.
Como se para comprovar isso, Julie deslizou para o seu lado, passando os braços ao redor do seu quadril e agarrando-se a ele com se fosse um coala, piscando os olhos rapidamente enquanto fazia biquinho e então esfregou o nariz contra o seu ombro.
Calum sorriu e contornou sua cintura, inclinando a cabeça contra a dela, ciente que mostrar carinho publicamente a deixava constrangida, mas que ela estava fazendo mesmo assim.
Por ele.
Para mostrar que se importava, que estava ali e o amava.
Calum esperava que ela soubesse que era recíproco.
Mas, o que realmente o surpreendeu (Julie fazendo algo que se envergonhava? Pff, normal.) foi Luke aproximando-se dele até que seus ombros se tocassem, empurrando-o uma vez como se dissesse “estou aqui” e continuando lá, querendo dizer “ainda aqui”.
Calum o empurrou de volta, grato por eles estarem ali, grato por estar ali, por Andrew tê-los trazido.
Andrew não os trouxe ali porque quatro crianças iriam fazer alguma diferença – ou talvez fosse justamente por isso. Talvez eles conseguissem dar um sorriso a alguém, esperança a alguma criança, fazê-las perceber que não estavam sozinhas, que alguém se importava, porque (às vezes) ter alguém que se importava tornava as coisas suportáveis, dava uma desculpa para elas continuarem.
Talvez elas tivessem perdido a vontade de continuar por si, mas talvez elas percebessem que não tinham problema usar outras pessoas como desculpa para continuar. Não tinha problema continuar e não desistir porque não queria deixar seu animal de estimação sozinho, ou porque não queria que as pessoas sofressem, ou porque as meias que usava eram quentes e bonitas e você queria ver se o chão estava gelado se colocasse os pés no chão com elas. Qualquer desculpa era válida para viver.
(Calum sabia que sim.)
E, talvez, uma desculpa fosse o que elas precisavam.
E, talvez, eles conseguissem dar isso a elas.
E, talvez, um dia, uma desculpa não fosse necessária e eles pudessem viver por si mesmo.
(Calum tinha.)
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