Pedaços Transformados
174 Como
como
setembro, hoje
Luke suspirou, fechando seus olhos, torcendo pelo momento que sua irmã sairia, pelo momento que sua irmã seria a bela e responsável e ouvinte atenciosa... que ela o deixaria para ser tão lastimável quanto podia, sem acordar Calum ou preocupar todos.
—Você não vai dizer nada? – questionou Julie, sua voz saindo abafada de sua posição fetal. – Não vai dizer que é para eu ir para casa? Que você não me quer aqui? Que Calum também não iria querer? Que você sabe do quanto é horrível para eu cheirar esse branco que queima tudo, por dentro e por fora, de dentro e para fora?
—Por quê? – murmurou Luke, mantendo seus olhos fechados para não mostrar sua tristeza, porque era uma das coisas que sua irmã mais odiava: pena e tristeza por ela justificada. Sem justificação? Essa, sua irmã amava. – Você já sabe de tudo isso. E você odeia obviedades.
Sim, ela odiava. Sim, ele sabia. Sim, ela não iria sair dali.
Luke sabia disso.
Julie sabia disso.
Ashton não estava ligando nem um pouco.
—Ok – disse ele, lentamente. – Tuudo bem – continuou, quando os dois recusaram-se a se olhar, como se temessem não conseguir segurar todas as lágrimas e conflitos se fizessem. – Eu vou ligar para minha mãe, dizer o que aconteceu, e então estamos indo para sua casa, Julie.
—Estamos? – ecoou Luke, abrindo os olhos, assustados. Ele tinha ouvido “estamos”? Com Ashton incluído nesse “estamos”? Desde quando eles eram um pacote fechado para negócio?
Julie bufou, fechando os olhos enquanto encolhia-se numa bola confortável em sua poltrona confortável. Hã-hã, sim, claro, ela estava indo, ela já estava lá. Ashton esperasse sentado.
—Claro que sim – respondeu Ash, como se fosse obvio. Porque era. – Eu não vou deixar Julie sozinha. E você não quer que eu a deixe sozinha – avisou, lembrou... Luke não sabia, mas não, ele não queria sua irmã sozinha naquele momento. – Ou sozinha com Liz – sussurrou, ao passar por ele.
É, Luke concordava. Ele não queria as duas sozinhas juntas. Julie amava a mãe e Liz amava a filha, Luke não tinha dúvidas quanto a isso, mas elas duas sozinhas? Não, ele não queria. Deixar ambas sozinhas era desumano, era apostar no fim do mundo, era pior do que jogar gasolina em cima delas e tocar fogo, esperar o circo pegar fogo.
—Julie? – Luke a chamou, um momento depois que Ash saiu. Julie continuou calada, ela não iria sair dali. – Querida? – zombou, quando sua irmã não respondeu.
—Ah, me poupe – murmurou ela, pegando a almofada atrás de si e jogando-a com força no seu irmão, sentindo-se feliz e um pouco envergonhada por ele ter ouvido isso.
—Ei, cuidado! – exclamou Luke, desviando-se. – Garoto enfermo aqui – apontou.
—E desmaiado – completou Julie, solidária.
Luke suspirou.
Julie o acompanhou.
Oh, céus, ela odiava esse clima. Ela odiava climas. Ela odiava o fato de precisar pensar antes de falar, de se preocupar com o que fosse ser dito, de que machucaria alguém, de que podia ser insensível ou desrespeitosa... Ela definitivamente odiava não ser quem era, de que ela mesma era quem se impedia disso.
Ela odiava isso.
Mas ela era egoísta – se tinha uma coisa que Julie Hemmings era, era egoísta. E agradecia por não estar sozinha, por estar com ele, com seu irmão. Por estarem juntos.
Nesse momento.
Naquele momento.
Por todos e em todos os momentos.
Julie correu para os braços do seu irmão, não o pegando de surpresa, porque ele já a esperava, e o abraçou forte, apertando-o tão apertando que esperava costelas fraturadas, que pensou que era uma garotinha novamente com medo de trovões, com medo de estar sozinha, com medo de perder todos que amava.
(Ela era.)
Contudo o que sentiu foi os braços dele ao seu redor.
—E-eu... – gaguejou ela.
Luke suspirou novamente, mais uma vez, mais uma vez... Ele estava cansado. Ele queria que Julie fosse para casa, ele não a queria ali, Luke a puxou para perto. E sua irmã estava certa: Calum também não iria querê-la ali. Não quando o preço era tão alto, não quando Julie sentiria-se tão mal, não quando ela teria lembranças que todos queriam esquecer, queriam que ela esquecesse.
—Eu sei. – Sorrindo melancólico para sua tão tão tão querida, Luke limpou as lágrimas dela e se inclinou, plantando um leve beijo em sua testa. – Eu também te amo – murmurou.
—Eu não quero ir – sussurrou ela.
—Eu sei – disse, embora soubesse que não era verdade. Sua irmã não queria deixá-lo, não queria abandoná-los, não queria que ele sentisse abandonado, mas ela não queria ficar.
—Mas... eu tenho que ir? – disse Julie, confusa.
Luke ouviu “não quero deixá-lo”.
—Eu sei.
—Você vai me ligar?
—É claro.
—Promete?
—É a verdade.
Julie balançou a cabeça, concordando. Promessas eram quebradas, sempre eram; promessas eram feitas com esse propósito, mas não verdades. Verdades eram ditas porque eram, porque apenas eram. E seu irmão nunca mentiria para ela.
Ela saberia.
Ela sentiria.
Ela o faria se arrepender.
—Eu te amo – disse, porque palavras desse tipo, quando eram verdadeiras e sinceras, precisavam ser ditas e não guardadas.
Luke sorriu para si, puxando-a para mais perto, como se fosse possível, sentindo cada respiração como se fosse sua, cada batimento dela reverberando em si, cada medo, cada tristeza, todo amor.
Como alguém podia amar outro alguém tão profundamente?
Como alguém podia amar outro alguém mais do que a si mesmo?
Como ele não podia confiar em sua irmã para coisas simples, fáceis, e acreditar nela para todo o resto, com toda sua vida, com seu coração?
—Eu sei – confessou, assoprando em seu ouvido e sentindo-a rir, se arrepiar, amá-lo.
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