Pedaços Transformados
293 Apenas irritação
apenas irritação
outubro, duas semanas depois e dois dias
Calum tinha um mantra — do seu quarto até a porta da frente, ele sentiu a ficha caindo, finalmente acreditando no fundo do seu ser, que ele tinha um encontro.
—Eu tenho um encontro — murmurou Calum, constrangido. E animado. E corando. E... Cara, ele respirou fundo, não acreditando, ele tinha um encontro.
—É o seu encontro? — perguntou Kora, sorrindo para ele. — Julie finalmente chegou?
—Julie? — repetiu Calum, confuso, seus pés parando e depois seu corpo. — Eu não vou sair com a Julie.
—Ah — balbuciou sua mãe, perdendo o sorriso e então recomeçando-o assim que ele pareceu desaparecer. — Quem é a garota de sorte? — questionou. E então não sorriu. Calum estava começando a se irritar com todos esses sorrisos e não-sorrisos. — Ela sabe que você é...
—Não é uma garota — interrompeu Calum.
—Oh.
—É o Luke — continuou.
—Você — Kora piscou, sem palavras. — Você vai sair com Luke? Como só vocês dois? Num encontro?
—Sim — respondeu Calum. Eles já não tinham concordado que ele iria sair num encontro?
—Mas você... Você é um garoto — balbuciou Kora, sem entender, olhando-o de cima abaixo como se ele não fosse mais um garoto. — E Luke.
—Sim... — disse Calum, lentamente. Ele tinha certeza das duas coisas: ele era um garoto e Luke era um garoto e ele era gay... Ok, três. E... Oh, Calum entendeu a confusão da sua mãe. Era isso. — Mãe — disse, firme, fingindo que era uma alucinação, que não era real, porque ele sabia que não diria nada daquilo se fosse, se acreditasse que era real. — Eu sou um garoto e não vou fingir que não me magoa o fato de você não aceitar isso. Não estou pedindo para você entender ou concordar comigo, apenas aceitar que é assim que eu me vejo. Eu sou um garoto. E não sei como explicar isso a você. Ou a qualquer outra pessoa. É apenas como eu me sinto, como eu me sinto bem, confortável. Eu ser um garoto tem relação apenas comigo. Eu sou ele e dele e Calum. Eu não sou Callie, não sou uma garota. Eu nunca fui. Por que você não pode acreditar em mim? — questionou, desesperado. As palavras que sempre quis falar saindo, pulando para fora da sua boca, sendo ditas e não podendo mais ser pegas de voltas. — Faz diferença se eu sou uma menina ou um menino? Eu ainda sou seu filho apesar dos pronomes. E você ainda é minha mãe... apesar de tudo. Eu não me transformei em uma pessoa diferente, eu sempre fui essa pessoa, eu apenas... Não sabia. E eu gostar de garotos não quer dizer que eu não seja um garoto. Existem garotos que gostam de garotos e garotas que gostam de garotas. Existe de tudo nesse mundo. E eu sou um garoto que gosta de garotos. E eu gosto de Luke.
Kora não se moveu, não disse nenhuma palavra e Calum riu, um som seco e quebradiço, e suspirou, não mais feliz e apenas cansado.
—Eu vou sair — murmurou, esfregando os olhos que estavam secos... Assim como ele. Sem lágrimas, sem ressentimentos, apenas irritação. — Não espere por mim.
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