Peculiaridades
3 Excentricidades
Notas iniciais
O sino acima da porta tocou indicando que o cliente havia finalmente decidido ir embora. Olívia e Heitor ficaram um tempo em silêncio.
—Ele é esquisito.- Disse o garoto, sobre o rapaz que falava pelos cotovelos e tinha levado uma quantidade absurda de cadernos pautados.
—Esquisito como?
—Sei lá… esquisito.
—Ele não é esquisito…Ele só é excêntrico.
—Excêntrico como? Igual a você?
—Excêntrico como você.
—Eu não sou excêntrico.
—Claro que você é. Olívia retrucou. — Não excêntrico de um jeito ruim, mas de um jeito legal. Tipo, você é um bruxo aprendiz!
—E isso é excêntrico?
—Claro que sim.
—Você também é excêntrica.
Olívia soltou um risinho. Deu a volta pelo balcão e foi até as prateleiras, arrumar novamente todas as coisas no lugar. Heitor acompanhou, ajudando a jovem a terminar.
— Vocês dois são excêntricos. — Marco disse aparecendo ao lado de uma das prateleiras, fazendo com que Olívia desse um pulo.
—Eu não sou excêntrica. E exatamente a quanto tempo você está aqui? — Olívia não conseguia se acostumar com a ideia de que Marco podia simplesmente se materializar dentro da loja a qualquer momento.
— Há alguns minutos. Deu tempo de assistir aquele cara tagarelando coisas sem nexo. Ele é esquisito mesmo.
Olívia arqueou a sobrancelha esquerda e resolveu ignorar, reorganizando a pilha de cadernos na prateleira.
—Já vamos começar?- Heitor perguntou a Marco enquanto olhava o relógio em seu pulso.- Está cedo, não? O que você faz aqui tão cedo, falando nisso?
—Eu tenho uma coisa pra mostrar. Vocês podem me acompanhar? O rapaz disse indo em direção do depósito.- Ou vocês preferem discutir excentricidades?
Olívia estava mesmo querendo sair para o intervalo, mas não estava muito certa do que a esperava no depósito. Ao chegar no local se deparou com uma caixa de papelão igual aquelas de Pet Shop, específicas para o transporte de animais. A garota hesitou um pouco, assim como Heitor, que cruzou os braços e fitou o primo mais velho que parecia muito empolgado.
—Ah qual é?- Marco abriu ainda mais o sorriso. — Quem vai ver o que tem aí dentro?
— Eu passo. — Disse Heitor.
Olívia olhou pra ele e engoliu em seco, mas tomou a missão para si. A garota se aproximou da caixa e deu uma boa olhada. Não quis espiar pelos círculos cortados para a ventilação no interior. Desfez o laço azul que prendia a tampa e deu um gritinho estridente quando viu o conteúdo.
—Aí Meu Deus! — Ela parecia impressionada.
Heitor se aproximou e espiou para dentro da caixa.
—É um gatinho!- Olívia estava em crise.- E muito fofo!
Dentro da caixa, um filhote de gato branco estava olhando para o lado de fora, encarando Olívia e Heitor com os seus grandes olhos com duas cores diferentes: amarelo e azul. Sem conseguir se controlar, Olívia tentou pegar o gato no colo, mas assim que sua mão tocou a pelagem macia do animalzinho se transformou em uma fumaça e se dissipou por completo. A garota deu um passo para trás assustada. E logo após ouviu um miado agudo do outro lado do recinto. O gato estava flutuando perto de Marco e depois mergulhou em direção às caixas do depósito.
— É um gato mágico! — Ela parecia ainda mais empolgada.- Como o gato de Cheshire, em Alice no País das Maravilhas!
Heitor apenas acompanhou o gato com o olhar, vendo o filhote flutuar novamente perto de Marco e depois mergulhar no ar novamente, desaparecendo por completo e então passando bem perto de Olívia, que tentou agarrá-lo mais uma vez.
—É um presente pra você, Heitor! — Marco disse. — Tia Adelaide acha que é uma boa ideia você ter um animal de estimação, ela disse que vai melhorar as suas habilidades de relacionamento e também a ter mais responsabilidades.
—O que? — Heitor exclamou.
Olívia estava espiando para dentro da caixa novamente, encantada com o gatinho, finalmente conseguindo puxar o filhote e segurá-lo.
—Eu não preciso de mais responsabilidades. Eu já tenho que manter minha vida como um adolescente mortal comum e também como um adolescente bruxo, tem toda aquela coisa de ensino médio e os treinos…
—Mortal comum?- Olívia se voltou para os dois.- Então é assim que nos chamam? Gente tipo eu? Parece coisa de mitologia grega...Gostei! — O gato escapou novamente, se dissolvendo em fumaça, e Olívia girou o corpo, tentando acompanhar em qual ponto do recinto o gato reapareceria.
Heitor ficou frustrado, pensando que Olívia teria alguma coisa para dizer em sua defesa.
—É só um gato, Heitor! — Marco disse, parecendo um pouco ofendido.- Não pode ser tão ruim.
—Um gato mágico!- Olívia andava de um lado para o outro, dando saltinhos empolgados. — Você precisa escolher um bom nome pra ele!
—Eu não sei se é uma boa ideia. Como é que eu vou cuidar dele na loja? Ele fica sumindo e aparecendo o tempo todo. E se alguém ver? Alguém que não pode saber desse tipo de coisa?
—Algum mortal comum? — Olívia quis saber?- Tipo eu?
—Olívia, você está mais para uma mortal excêntrica.- Marco fez graça, sendo ignorado pela jovem, que se limitou a contorcer os lábios.
—E então?- Heitor quis saber.
—É o que vamos treinar hoje! Vou te ensinar alguns encantamentos que ajudam a camuflar qualquer traço de magia e você vai poder proteger o seu gato de olhares curiosos.
—Eu…- Heitor abriu a boca para retrucar mas não encontrou nenhuma resposta.
Olívia deu um muxoxo baixo, sem conseguir apanhar o gato mais uma vez. Quando resolveu que deveria voltar ao seu posto na loja, deu de cara com Adelaide, que voltava com uma sacola de compras de um armazém.
—Olá Querida, já estou de volta!- Ela disse passando direto para o depósito.
Olívia sorriu ao escutar da mulher a sua exclamação de surpresa.
—Marco, você conseguiu um belo novo amigo para o Heitor!- Adelaide disse.- Estou realmente impressionada! Como foi que…
—Eu tenho alguns contatos.- O rapaz respondeu simplesmente.
Olívia abriu um livro que estava lendo e se sentou na poltrona que ficava atrás do balcão. Alguns minutos depois, Marco e Heitor subiram as escadas, levando a caixa com o gato. Heitor apenas lançou um olhar desanimado para a garota e terminou de subir os degraus. Adelaide apareceu novamente e se posicionou ao lado da garota, tomando uma xícara de chá. A senhora começou a ver uma revista de itens antigos e o silêncio ficou instalado na loja por um tempo, sendo interrompido apenas quando um cliente aparecia ou quando alguma das duas fazia alguma observação engraçada fazendo com que as duas caíssem em gargalhadas.
Já era hora de Olívia ir embora, encerrando mais uma tarde de trabalho. Estava um pouco cansada,pois a rotina da faculdade estava ficando puxada. Ela já estava guardando as coisas em sua bolsa e se despedindo de Adelaide quando Marco apareceu e colocou as mãos em seus ombros. Olívia deu mais um pulo de susto, o segundo do dia.
Virou-se para encarar o rapaz e repreendê-lo. Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Marco disparou:
—Você pode ajudar a escolher um nome para o gato? — O rapaz abriu um sorriso enorme. — Heitor está tendo problemas com criatividade.
—Está bem!- Olívia subiu as escadas atrás do rapaz.
— Nós só vamos precisar fazer uma coisa antes de você ir, além de ajudar a escolher o nome dele, claro.
—E o que seria?
—Precisamos testar se você vai ficar imune ao encantamento de camuflagem. O Heitor conseguiu realizar os outros encantamentos, mas como você trabalha aqui e meio que sabe de tudo, não tem porque você ficar sem ver o gatinho, não é mesmo?
—Eu iria ficar furiosa se não pudesse ver essa coisinha fofa!
Heitor pigarreou.
—Podemos começar?
Alguns livros estavam espalhados sobre a mesa, e o garoto parecia bem concentrado.
—Certo, eu preciso fazer alguma coisa ou só sentar e esperar?
—Você pode sentar e esperar. Heitor, quando quiser.
Heitor fitou a Olívia que parecia ansiosa. Ele se posicionou e começou a dizer as palavras que acabara de aprender. Uma energia pareceu se espalhar ao seu redor. Estava feito. A garota se remexeu na cadeira, na expectativa.
—E então?- Marco se dirigiu para Olívia.
—Ah, eu ainda vejo o Ches.
—Ches? — Marco indagou.
—É Ches! Ches é um bom nome.
—Então funcionou.- Marco disse se dirigindo ao primo mais novo dessa vez.
—Ches?- Heitor olhou parecendo indignado. — Esse é o nome que sugere?
—É, Ches, de Cheshire. É um bom nome.
—É melhor do que Miau. Ou Gato. — Marco disse.
— Ches é horrível.- Heitor respondeu.
— Não é não. — Olívia retrucou.
—Cheshire, é um condado na Inglaterra, certo?- Marco disse.
—Certo.- Olívia concordou.
—Condado não é um lugar onde tem nobres e cosias do tipo?
—Tecnicamente sim. -Heitor cruzou os braços.
—Podemos chamá-lo de Dom Gato então. Dom é um pronome de tratamento da nobreza, e Cheshire é um condado e ele é um gato.
—Ah?- Heitor pareceu confuso.
—Perfeito!- Olívia exclamou. Ei Dom! Você é a coisinha mais fofa!
A garota se aproximou do filhote, que estava dormindo. Ela ficou ali, apenas observando Dom dormir enquanto ronronava suavemente. Era mais forte do que ela, nunca conseguia se concentrar em outra coisa quando via um animalzinho tão fofo. O seu celular deu um bip estridente, e a garota o puxou do bolso.
—Aí meu Deus!- Ela levantou abruptamente. — Eu vou perder o meu ônibus!
Olívia apanhou o casaco e a bolsa, puxou os fones de ouvidos e começou a falar sem parar sobre o trajeto do ônibus, tentando pensar na melhor estratégia para dar tempo.
—Hm, corro e pego ele no próximo ponto ou arrumo um atalho pra dar tempo?
Heitor deu de ombros e Marco só ficou observando a garota andar de um lado para o outro.
—Aí, vou precisar escolher uma boa música.- Olívia disse e puxou o celular e começou a procurar alguma coisa.
—Você corre com trilha sonora? — Marco quis saber.
—Eu tenho uma trilha sonora pra tudo!- Olívia parecia nervosa, colocando os fones e começando a olhar para as próprias mãos. Começou a ir dobrando os dedos gradativamente.- Atalho, outro ponto, atalho, outro ponto…
Os dois magos ficaram fitando a garota. Dom Gato acordou com toda a agitação.
—Outro ponto! Melhor correr. Até!- Olívia deu as costas e se preparou. Desceu as escadas em disparada, deixando Dom, Heitor e Marco para trás.
Heitor olhou pela janela e viu Olívia passar correndo rua acima. Dom se espreguiçou e acabou se materializando acima de seu ombro, também observando a rua.
—Excêntrica.- Marco disse por fim.
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