Peculiaridades

5 31 de Outubro l Especial de Halloween


Notas iniciais
O capítulo especial de Halloween está aqui!

Era 30 de Outubro. O dia estava ensolarado e poucas nuvens enfeitavam o céu do lado de fora. Olívia, que estava sentada à mesa, franziu a testa, indignada com a informação que acabara de receber.

— Como assim vocês não comemoram o Dia das Bruxas? Não é tipo um feriado ou alguma coisa parecida?

O garoto à sua frente deu de ombros e continuou concentrado no caderno cheio de anotações sobre citologia.

—Eu tô falando sério, Heitor!- Olívia insistiu no assunto.

—Eu também tô falando sério. Nós não comemoramos o Dia das Bruxas. Não é como se o dia 31 de Outubro fosse uma data comemorativa ou feriado no que você chama de “nosso mundo”.

—Se eu fosse Bruxa, eu comemoraria no dia 31. Daria uma festa, um jantar, qualquer coisa, mas comemoraria.- Olívia se levantou e andou em direção ao caixa.

—Você sabe o porquê do dia das Bruxas?- Heitor ergueu os olhos de um esquema de célula e encarou Olívia. — É só uma festa boba em celebração à coleta e do outono. Os celtas começaram com uma celebração que foi incorporada por outras culturas e foi sofrendo modificações até chegar na festa de Halloween da cultura pop que temos hoje. Estamos no hemisfério sul, não temos motivos para comemorar o outono.

Olívia deu um sorrisinho satisfeito.

— Mas não eram os celtas o povo que acreditava nos druidas? Então existe uma boa razão para os mesmos comemorarem o Halloween! E vocês poderiam comemorar a primavera. A primavera é legal.

—Os celtas eram muito esclarecidos mesmo, mas voltando ao assunto, não comemoramos o Halloween ou o dia das Bruxas ou qualquer outra coisa que você queira chamar. Comemoramos o Natal, aniversários e coisas do tipo, assim como qualquer pessoa.

— A maioria das pessoas comemora o Halloween!- Olívia exclamou.- Eu já fui em uma festa de Halloween muito boa uma uma vez...

—É mesmo?- O garoto fingiu interesse, o que fez Olívia revirar os olhos.

Heitor voltou à atenção ao caderno.

— De qualquer maneira, acho que vocês, os magos, deveriam aproveitar a data e fazer algum tipo de comemoração. Reunir a família e amigos, fazer doces típicos e jogos, sei lá...

—Isso parece festa junina. — Heitor disse por entre os dentes.

Olívia apoiou o queixo em uma das mãos e ficou calada.

— Você parece frustrada. — Heitor disse, parecendo estar se divertindo dessa vez.

— E eu estou frustrada.

— Porque você está frustrada? – Alguém terminou de encostar a porta da loja, sem que a mesma fizesse qualquer barulho, como se o sino acima dela fosse inexistente.

Olívia se arrumou em sua cadeira e ergueu uma das sobrancelhas. Marco tinha mania de entrar na loja sem fazer nenhum barulho, o que toda certeza tinha haver com algum encantamento ou feitiço que ele dominava muito bem.

—E então?- Marco continuou.

—Como assim vocês não comemoram o Dia das Bruxas?- Olívia disparou.

Marco olhou para Heitor, que deu de ombros e trocou a página de anotações, sem dizer uma única palavra. O mais velho começou a rir.

Olívia fechou a cara e se levantou. Amarrou os cabelos em um coque, jogou a mochila nas costas e olhou para o relógio cuco na parede.

— Bom, como combinado, meu expediente acaba mais cedo hoje, eu tenho que ir terminar aquele mesmo trabalho da semana passada. Já fechei o caixa e caso algum cliente apareça, Adelaide deixou bem claro que devem atendê-lo, caso ela ainda não tenha voltado.

A moça se apressou para sair da loja, sem dizer mais nada.

— Ela parecia realmente frustrada. – Marco disse por fim.

***

Dia seguinte, 31 de Outubro, uma quarta-feira. Olívia estava cantarolando uma música de uma banda inglesa enquanto registrava os novos itens ao sistema de vendas. Heitor estava passeando pelas prateleiras, e por algum motivo ao qual Olívia desconhecia, parecia mais bem humorado do que o normal. Adelaide estava na loja, assim como Vicente, que havia retornado de uma viagem de negócios (negócios mágicos, claro). Tudo parecia normal demais, e Olívia não tocou no assunto da tarde anterior.

Estava ansiosa para receber sua carteira de motorista, que já havia sido postada nos correios e pela festa à fantasia promovida pelo centro acadêmico do seu curso na próxima sexta-feira, então sua semana estava sendo ótima. Ela havia escolhido uma fantasia que representava um dos seus personagens favoritos do cinema e estava curiosa para saber o que seus amigos vestiriam para a festa.

—Ei.- Heitor se inclinou sobre o balcão.- Essa música, eu acho que já ouvi antes.

—É Lullaby.- Marco disse, enquanto descia as escadas.- The Cure.

—É sim.- Olívia concordou.-Eu gosto dessa banda.

—Pensei que você só gostasse de boybands.- Heitor comentou, sorrindo.

—Eu também gosto!- Olívia exclamou.- O The Wanted realmente partiu meu coração depois do hiatus. Eu duvido que eles voltem a se reunir. Mas não é só de boybands que minha playlist sobrevive! Tem um monte de coisas diferentes que vai desde divas do pop, r&b e bandas indie. E The Cure está lá meio. Acho que estou com The Cure na cabeça porque vi uma série esses dias e essa música estava na trilha sonora.

—Vou te chamar para fazer a curadoria musical das próximas festas da família.- Heitor disse, depois de gargalhar.

Marco desceu o último degrau e se juntou à Heitor, que tinha voltado para a mesa no canto da loja, juntando o material escolar que havia espalhado ali.

—Que série usaria The Cure como trilha sonora?- Marco perguntou, parecendo realmente interessado.- É uma trilha sonora muito boa, por acaso.

—É uma série britânica, claro.- Olívia não desgrudou os olhos da tela do computador.- Being Human.

—E fala sobre o que?- Marco insistiu.

Olívia contorceu as feições.

—É um drama.

—E o que mais?- Heitor quis saber.

—É um drama sobrenatural! Com vampiros, lobisomens e fantasmas. Não me julguem, ok?- Olívia respondeu na defensiva, sentindo seu rosto esquentar.

— Um bom motivo pra usar The Cure.

Olívia concordou, balançando a cabeça.

***

Olívia atendeu alguns clientes naquela tarde e o tempo estava fechando novamente. As nuvens escuras estavam cobrindo o céu e os primeiros pingos da chuva que parecia que estava chegando pra ficar já estavam cobrindo a vitrine. Olívia suspirou, parecendo um pouco derrotada, pela primeira vez naquele dia. Ela puxou um chiclete de morango de dentro do bolso do casaco e abriu a embalagem vagarosamente, enquanto tinha os olhos fixados na vitrine. O clima parecia um pouco estranho. O tic tac do relógio parecia preencher o ambiente, que agora estava vazio.

Heitor e Marco haviam desaparecido no andar de cima, treinando algum feitiço novo. Adelaide e Vicente também estavam na sala de reuniões desde o início da tarde. Só estavam ela e Dom no andar de baixo agora e o gato estava se enroscando em suas canelas. A garota começou a mascar o chiclete sem muita vontade e fez uma bola cor de rosa que cresceu tanto que quase cobriu seus olhos. Ela repetiu isso algumas vezes até que estranhamente a luz da loja começou a piscar.

Olívia olhou para o teto, fitando a lâmpada que piscava insistentemente. Depois de mais alguns segundos, finalmente ela se apagou por completo. Olívia continuou a mascar o chiclete, tateando o balcão para encontrar o celular e usar a lanterna para clarear o recinto, mas antes que fizesse isso, a luz retornou com um barulho estranho. Duas silhuetas ficaram visíveis em seu campo de visão, o que fez com que ela desse um pulo de susto e que o chiclete estourasse, grudando em seu rosto.

—AHHHHH!- Olívia deixou escapar.- Meu Deus. Seus idiotas!

Olívia olhou para Heitor e Marco que segurava uma caixa roxa bem na sua frente. Os dois tentaram segurar o riso, mas não tiveram sucesso e explodiram em gargalhadas.

A jovem suspirou emburrada e começou a tirar o chiclete grudado em seu rosto.

—Não tem graça!- Ela disparou pela porta, em direção ao banheiro, com Dom seguindo-a de perto.

Quando voltou, com Dom flutuando ainda ao seu redor, encontrou os dois magos dando risada, mas estavam se esforçando para parar.

—Tá legal.- Ela disse.- Já chega. Mas o que foi isso?

—Feliz dia das bruxas.- Heitor disse finalmente.-Ou Halloween. Ou festa da primavera. O que você preferir. -Ele disse secando uma lágrima que escapou, seu rosto estava vermelho de tanto rir. — Apesar de que com esse tempo lá fora, não pareça ser primavera.

Olívia cruzou os braços e observou Marco, não mais recomposto que Heitor colocar a caixa sobre o balcão.

—Pode abrir.- Ele disse ao ver que Olívia não fez menção de encostar na caixa.

—Vocês quase me mataram.- Ela disse.-Eu podia ter tido um ataque do coração ou coisa parecida.

—Foi mal.- Heitor disse, segurando o riso de novo.- Você tem medo de escuro?

—Não.- Olívia estava com a cara amarrada.- Eu só estava distraída.

Olívia ergueu uma das sobrancelhas e abriu a caixa. Dentro dela, no meio de um papel de seda lilás estavam uma pequena quantidade de coisas: uma abóbora de plástico média, daquelas que as crianças usam para pedir doces de porta em porta, um baralho com imagens que parecia ter sido pintadas com aquarela, um caderno com uma capa verde escuro e um jogo com três frascos pequenos preenchidos com líquidos coloridos.

—Ah. Nossa.- Olívia disse, com um sorriso.-Isso é muito legal da parte de vocês.

—É só um presente.- Heitor disse, contornando o balcão e parando ao lado de Olívia.- Você parece mesmo gostar do dia das bruxas. E também uma lembrança de parabéns por ter conseguido sua habilitação.

—Muito obrigada.- Ela disse, abraçando Heitor pelo pescoço que foi pego de surpresa.- E você também Marco.

—Ah, são só algumas coisas que vão te ajudar. — Marco disse.-É um caderno comum, uma abóbora cheia de doces e um baralho feito à mão por uma prima nossa, os desenhos são de criaturas mágicas. Vocês iam se dar bem. Ela se parece com você.

—É. Ela é bem nerd.- Heitor comentou.

Olívia fez uma careta para Heitor, depois se voltou para Marco.

—E esses frascos aqui?

—São umas soluções especiais. — Marco disse.- Só pra te ajudar a se acalmar ou se concentrar nos dias de prova. Você parece que vai surtar sempre que tem uma prova ou um trabalho mais complexo.

—Ah, ok. Poções.-Olívia arregalou os olhos.- E é seguro para mim? Tipo, eu não sou uma maga.

—É só uma infusão de ervas.- Heitor comentou.- Pode tomar. Quando achar que for preciso, é claro.

Olívia deu um sorriso enorme e afagou a cabeça de Dom, que estava se espreguiçando em cima do balcão.

—Agora, já que a chuva está caindo e provavelmente nenhum cliente vai aparecer, que tal subirmos até a cozinha e fazer um lanche de halloween?. O chefe confeiteiro ali fez um monte de cupcakes e cookies.- Heitor disse apontando para Marco que deu de ombros.

***

—Ainda vai demorar um pouco para chegar, mas eu acho que na na outra semana já devo ter o documento em mãos. Meus pais disseram que vão me deixar usar o carro assim que eu estiver mais treinada, então vamos sair nos fins de semana para que eu possa conduzir.

—Você vai se sair bem.- Vicente disse, bebericando o chá.

—Eu espero.- ela mordeu o cupcake de chocolate com cobertura de chantilly verde, decorado de modo que parecesse um monstro.

Estavam todos reunidos à mesa, tomando um chá (como de costume) e saboreando as invenções de Marco. Os cookies estavam decorados com motivos de halloween. O mago realmente era um bom confeiteiro.

—E sua festa?- Adelaide perguntou.- Conseguiu achar sua fantasia?

—Achei!- a garota exclamou alegre.-O chapéu foi o mais difícil, mas um amigo meu trabalha em um brechó e conseguiu um bem parecido.

—Você vai vestida de bruxa?- Heitor perguntou.

—Não. Eu vou vestida como uma versão feminina de Indiana Jones.

—Criativo.- Marco mordeu um biscoito com formato de fantasma.

—Meus amigos e eu decidimos ir com fantasias sobre filmes. É um jeito de evitar roupas repetidas num mar de bruxas, zumbis e piratas ou princesas.

—É, ir vestida como uma bruxa seria clichê.- Heitor concordou.

—Eu espero que se divirta, minha querida.- Adelaide sorriu.

—Eu gostei da ideia de um lanche do dia das bruxas.- Vicente afirmou depois de terminar um cupcake.- Devíamos fazer disso uma tradição. Uma comemoração todo dia 31 de outubro.

O mago se levantou com um sorriso largo e deixou a mesa, voltando à sala de reuniões. Olívia deu uma cotovelada nas costelas de Heitor, com um ar vitorioso.

—O que foi?- O adolescente massageou o local.

—Parece que então vocês vão começar a comemorar o Halloween. Viu só? Não é uma má ideia. E o Marco pode fazer os bolinhos.- Olívia apontou para o outro mago, sentado no lado oposto da mesa.- Você é muito bom nisso! Eu super pagaria por uma encomenda desses cupcakes caso eu precise fazer uma festa.

—Obrigado!- Marco disse com um sorriso presunçoso.- Eu sempre me esforço.

—ARGH.- Heitor resmungou.- Agora ele vai ficar insuportável sobre os dons culinários dele também. Só falta ele querer me dar aulas de como decorar bolos com pasta americana.

—Eu não gosto de pasta americana.- Marco disse.- E eu não vou ensinar meus segredos de cozinha pra ninguém.

Heitor rolou os olhos e bebeu o resto do seu chá. Olívia se levantou, pegando sua xícara e indo em direção à pia. Adelaide a seguiu e com um feitiço não verbal, tirou a xícara das mãos de Olívia, e fez com que a mesma flutuasse até a pia e se auto lavasse. A garota abriu a boca surpresa.

—Pode deixar isso comigo, Liv.- Adelaide piscou para ela.- Você pode ir agora.

A garota sorriu e voltou a se sentar com os dois magos mais jovens. A chuva estava mais forte agora, e as gotas estavam fazendo barulho ao se chocarem no vidro das janelas do andar de cima. O silêncio era reconfortante e Olívia estava apreciando o momento e se sentindo agradecida por ser tão bem recebida no cotidiano daquela família um tanto quanto… peculiar.

—Ah, Liv.- Heitor chamou sua atenção.- Quando que você vai abrir aquela abóbora e dividir comigo?

***

Notas finais
YEY! Consegui publicar esse capítulo :D Se você chegou até aqui, espero que o espirito de Halloween toque seu coração e te inspire (sim eu estou pedindo um rewiew, pode ser até um emoji)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.