Peccato
1 Schermo
Notas iniciais
Os movimentos do pincel eram leves e firmes ao mesmo tempo, a habilidade já era nata para alguém com tamanha experiência e paixão. A cada pincelada a dor parecia caminhar até a saída e deixar aquele pobre coração atormentado.
Sakura suspirou e limpou o suor da testa, por um momento refletiu sobre a sua vida e em como ela nos últimos tempos estava andando por um caminho nebuloso e acidentado. Por mais difícil que fosse para qualquer um entender, ela não conseguia sair daquilo, na verdade bem lá no fundo ela sabia que teria que um dia fugir e enfrentar seus problemas, mas mais uma vez seu receio a inundara.
De repente a porta do seu ateliê é aberta com brutalidade, e de dela um homem corpulento sai, cabelos ruivos bagunçados e olhar mórbido. Sakura encolheu-se na sua cadeira e esperou pelo pior, porém não foi o que aconteceu.
-Você fez o jantar? – A voz de seu namorado saiu embargada e sem emoção como quando ele bebia.
-Não, estava ocupada com a pintura. O cliente está me apressando – ela se encolheu mais enquanto falava – não posso perder mais tempo.
-Faça suas pinturas e me deixe morrer de fome. – Sakura ouviu seus passos desordenados até a cozinha.
Soltou um suspiro enquanto seus dedos voltavam ao trabalho de retocar as sombras com o pincel. Quando seu consciente a dizia que estava na hora de parar, ela guardou as tintas e lavou os pinceis, tirou seu sujo avental e caminhou para fora daquele pequeno quarto cheio de obras de arte.
Sakura tomou um banho agradável para se livrar do eflúvio da tinta e dos borrões coloridos que marcavam seus braços. Algumas manchas não saíam, afinal, aquelas não vieram das tintas. Foram uma cortesia que Sasori lhe dera na última vez que passou da conta com o álcool.
A primeira reação após por roupas quentes foi visitar para sua melhor amiga, Ino. Essa que lhe prestava com apoio e ombro pra chorar também era a provedora de ótimos conselhos e consolos.
Sem que seu namorado percebesse, Sakura se esgueirou por trás da sala, indo direto para a porta da saída. Foi recebida pelo lado de fora com uma rajada entrecortada de vento frio, como se a mandasse voltar para dentro de casa.
Seguiu rente ao passeio, aproveitado de tudo que servisse de escudo contra o vento – uma árvore, uma cerca, uma lata de lixo ou até mesmo um carro estacionado – para se aquecer enquanto ordenava suas pernas que continuassem sem descanso.
A casa de Ino ficava apenas três quarteirões retos de distância da sua, mas numa noite fria, parecia mais estar a três milhas. A insegurança era grande e ela não podia evitar olhar para trás a cada conjunto de instantes para ver se estava sendo seguida.
Logo a casa cor de creme com telhado marfim apareceu próxima, e tudo que precisou fazer foi uma curva no gramado expeço e já estava na porta. Tocou a campainha duas vezes consecutivas, como se pedindo por pressa. Estava congelando do lado de fora.
A passagem se abriu e Ino apareceu atrás. Estava com um roupão quente, cabelos soltos e xícara de café em mãos. Ao vê-la, sua primeira reação foi puxá-la pra dentro.
- Sakura? – ela começou, repousando sua xícara num criado mudo e trancando a porta atrás das duas. – Sasori sabe que está aqui?
- Não. – a resposta foi direta. Não precisava enrolar com Ino, ela já sabia de tudo que acontecia naquela casa. – Hoje não foi tão ruim.
- Que tipo de relacionamento é esse que você se prendeu? – Ino praguejou baixinho, puxando-a para o sofá, na frente de uma quente lareira. – Hoje não foi tão ruim? Sa, não é assim que funciona.
- Eu sei, mas Sasori é um cara ótimo! – sabia que era errado fazer propaganda de um produto que vinha cheio de defeitos, mas era o que tinha sido basicamente treinada pra fazer. – Ele me ajudou a financiar meus materiais e me paga por algumas obras que ele pendura no bar. Eu devia ser grata a ele.
- Foi isso que ele te ensinou a repetir? Sakura, você é melhor que isso. Você é maior que isso! – Ino a segurou pelos ombros balançando-a levemente, como se tentando fazê-la acordar. – Quero que passe a noite aqui hoje.
- Mas enquanto ao Sasori?
- Ele não deve lembrar do próprio sobrenome. Contanto que chegue cedo, ele mal vai perceber que você saiu. Mas eu não quero ver você como uma gata assustada de novo por causa dele. Ou vocês dão um jeito ou terminam. Não existe amor se tudo que você sente por ele é gratidão pelo dinheiro que ele te dá.
***
Tudo que Sakura queria era pintar, ela adorava sujar suas mãos com tinta e ver uma tela branquinha sendo trabalhada. Entrou em várias lojas, mas nenhuma tinha o que ela procurava, ou a tinta não tinha o tom certo ou o preço era muito caro, nos últimos tempos Sasori recusava-se a pegar pelo material, Sakura tinha que se virar com o que sobrava dos pagamentos dos seus quadros.
Numa loja de ponta de esquina bastante arejada ela encontrou um excelente tom de azul e verde por um preço razoável, enquanto pagava ao lojista ouviu uma música baixa tocar. A princípio achou que era o rádio tocando, mas depois percebeu que não havia nenhum aparelho assim no recinto. Após agradecer o vendedor, saiu a procura do som, andou um pouco e custou a ver uma multidão em volta de alguém. Mas pelo visto seu desejo teria que esperar. Caminhava em passos largos na calçada quando ouviu uma voz forte carregando uma doce melodia.
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