Pecadores ocultos (Reescrita)

11 Cap. 11 Rosas à volta


Ele tossiu novamente, levou à mão a boca e limpou em sua camisa branca.

—Você quer o quê? Duvidou ele.

—Pedir Helena em casamento.

—Tem certeza? Casamento é algo sério. Argumentou Carlos.

—Falando assim até parece que se arrependeu de ter se casado. Comentei.

—Não é isso. Mas uma relação a dois é muito complicada. Só peça se tiver certeza.

—Eu tenho certeza, já pensei muito e eu acho que já está na hora de darmos um passo maior em nosso relacionamento.

—Está bem. Pode contar comigo para qualquer coisa.

—Obrigado –Nesse momento percebi que tinha uma mancha vermelha em sua camisa- Carlos isto é sangue?

—O quê?

Ele passou a mão por cima e constatou que era. Olhou-me sem reação.

—Você tossiu sangue. Sabe o que isso quer dizer?

Ele levou o dedo indicador contra a boca, gesticulando para eu falar mais baixo.

—Ângela ficará preocupada se descobrir.

Olhei para as escadas procurando por Ângela que estava descansando no quarto acima.

—Você precisa parar de fumar! –Ordenei totalmente autoritário- Você pode estar desenvolvendo um câncer de laringe ou até de pulmão.

—Está bem –Ele pegou uma carteira de cigarros do bolso e os amassou na minha frente- Eu paro ainda hoje, só não conte para Ângela.

Este receio em relação à Ângela me intrigava, como sua esposa ela tinha direito de saber que seu marido não estava com uma boa saúde, porém, como amigo, resolvi não contar. Carlos parecia me agradecer com o olhar.

Depois deste episódio, Carlos me prometeu cuidar melhor de sua saúde e que iria fazer alguns exames para sabermos o seu estado. Pensei em várias maneiras de como pedir Helena em casamento, mas confesso que eu não sou muito criativo, assisti a vários filmes românticos procurando por uma ideia, ou pelo menos, por uma inspiração. Não consegui nada!

Donabela teve um outro AVC e ficou algumas semanas internada, pensamos que ela não iria resistir, estávamos enganados e novamente ela voltou para casa, tive que esperar um tempo para esquecermos este susto e finalmente eu havia conseguido pensar em algo, além que o momento era oportuno, Helena estava de férias e eu ficaria o final de semana de folga.

Em uma manhã nublada eu tomei a segunda mais importante decisão a minha vida.

—Helena, eu quero te levar em um lugar muito especial para nós.

—Tudo bem. Onde nós vamos? Perguntou Helena ainda não tendo noção do que eu estava planejando.

—Eu não posso contar, é uma surpresa. Apenas se arrume e confie em mim.

Ela me encarou por alguns instantes e sorriu ansiosa com o que poderia acontecer, acho que ela pensou mil e uma coisas. No fim ela concordou e depois de pronta eu abri a porta do carro, ela entrou e entreguei a ela uma venda.

—Pra quê isso? Ela perguntou como se recusasse a usar.

—Para você não saber aonde vamos.

—Não precisa de tanto mistério David! Protestou Helena que me olhava insistindo para eu desistir da ideia de vendá-la.

—Não me venha com esta carinha. Recusei deixá-la sem vendas.

Ela a pôs frustrada com aquilo tudo e nós partimos. Durante o percurso ela não parava de me fazer perguntas. Aonde nós vamos? É muito longe? Estamos chegando? Posso tirar essa venda? E eu calmamente respondia: “Quando chegarmos você saberá.” Não foi uma viagem rápida, já devia fazer uma hora quando um policial mandou encostar o carro.

—Bom dia policial.

—Bom dia. –Ele respondeu intrigado com minha namorada vendada do meu lado- Está tudo bem moça?

—Sim. Helena respondeu.

—E por que você está vendada? Insistiu o policial que me olhava desconfiado, seu bigode o dava um ar de seriedade, e sua pele um pouco flácida indicava que ele já não era tão novo.

—Pergunte ao meu namorado. Falou Helena nem um pouco preocupada se iria me comprometer.

Espantei-me, engoli a seco e tentei explicar a situação.

—Eu vou fazer uma surpresa para ela.

—Precisa mesmo vendá-la?

Este guarda já estava me irritando e nos fazendo perder muito tempo, então resolvi ir direto ao ponto, gesticulando com a mão pedir para que ele aproximasse seu ouvido, coloquei a mão em volta de sua orelha e sussurrei:

—Eu vou pedi-la em casamento.

Ele suspirou forte, desconfiado voltou a me encarar, olhou para minha namorada, balançando a cabeça negativamente e passando a mão na testa ele disse:

—Passe os documentos –Ele checou tudo- Podem ir.

—Obrigado policial. E fomos embora.

Helena começou a rir e eu lhe perguntei:

—Do que está rindo?

—Nada. -Ela negou rindo novamente- Já chegamos?

—Estamos quase. Respondi aliviado pelo policial ter compreendido a situação ou algo assim.

Poucos minutos depois deste acontecimento, finalmente conseguimos chegar. Desci do carro, abri a porta e a ajudei a ficar de pé.

—Pronto. Pode tirar a venda.

Ela retirou e deu um sorriso ao ver onde estávamos.

—E onde vocês estavam David?

Estávamos onde nos conhecemos quando criança, aquela velha praça, já não era como antes, o brilho que ela tinha era somente para nós, em nossas lembranças, ela levou as duas mãos a boca e limpou do rosto uma lágrima que conseguiu escapar, apesar de sensível, Helena não gostava de demonstrar.

—Muitas lembranças daqui não são?

—Muitas. Respondeu resumidamente Helena ainda emocionada com aquilo tudo.

—Ainda se lembra como nos conhecemos?

—Lógico que sim bobo! –Ela me bateu de leve no ombro e andou um pouco mais para o centro da praça- Eu morava descendo aquela rua, no dia do meu aniversário, ganhei meu primeiro cachorro que fugiu para cá.

—Eu o encontrei e você apareceu com um vestido vermelho, o cabelo estava preso em um rabo de cavalo, e você estava preocupada com o cachorro. Completei a história.

—Brincávamos muito aqui, os meninos de futebol e as meninas de pula corda ou boneca.

—Mas nós sempre pensávamos num jeito de juntar todos em uma só brincadeira.

—Homens, desde pequeno já mostrando o que são.

—O quê? Só queríamos nos socializar com vocês.

—E veja só no que deu. Comentou Helena me beijando rapidamente logo em seguida.

—E eu não me arrependo de nada. Comentei a puxando pela cintura e beijando-a intensamente.

—Lembra da Dona Elza? Naquele dia que você me buscou no colégio, entramos no seu jardim, eu fiquei encantada com uma rosa. Eu sempre achei que você iria me dar aquela rosa, mas você nunca me trousse. Disse Helena tentando se lembrar onde ficava a casa de Dona Elza.

Senti uma pedra caindo na minha cabeça, me lembrei de tudo que aconteceu naquela noite, uma tristeza enorme quase me tomou de conta, mas não podia me abater naquele momento.

—Eu lhe entrego flores. Comentei tentando evitar o rumo daquela conversa.

—Qual foi a última vez hein? Ela me perguntou encarando-me como se já soubesse que eu não iria saber.

—Eu lhe entrego! –Insisti- Só não estou lembrado agora de quando.

Ela riu um pouco e viu o banco que sempre ficava à sombra, devido a copa de uma árvore bem próxima a ele.

—Conversamos muito aqui.

—Ângela nunca nos deixava a sós. Resmunguei.

Ela me bateu nas costas e disse:

—O que você pretendia fazer comigo? –Fiquei calado, entretanto sorri maldosamente- Eu que pedia para ela ficar.

—Você tinha medo de mim? Perguntei espantado.

—Não. Mas eu já sabia que você estava a fim de mim. Explicou Helena.

—Nossa! Que convencida. Tentei negar algo que era óbvio que era verdade.

Sentamo-nos no banco, passei o braço por volta dela que apoio sua cabeça abaixo da minha, no meu ombro.

—Apesar de tudo, nós fomos felizes. Comentou Helena.

Sabendo que ela estava pensando sobre os problemas que cada um de nós enfrentamos naquela época decidi me adiantar.

—Nós podemos ser mais felizes.

—Mais do que isto? Duvido. Ela me respondeu.

—Helena? –Ficamos de frente um para o outro, peguei em suas mãos e continuei falando- já estamos juntos há tanto tempo, vivemos coisas incríveis juntos e você é a única pessoa que eu quero passar o resto da vida. Então para ter certeza de que isto vai acontecer — Tirei do bolso a caixinha, a abri e mostrando para ela as alianças, perguntei – Quer casar comigo?

Ela ficou surpresa, se manteve calada por alguns instantes pensando sobre tudo que acontecera ali, passou as mãos pelo rosto limpando algumas lágrimas que logo se sucederam por muitas outras.

—Eu quero! Concordou ela estendendo a mão para mim que tremia um pouco.

Coloquei em seu dedo a aliança e olhei para ela ainda desacreditado do que eu fiz, talvez mais ainda por ela tiver aceitado, eram emoções fortes que estávamos tendo. A beijei como nunca a tinha beijado antes. Foi um dos dias mais felizes da minha vida.

—Eu imagino David. Comentei.

—Ah padre, não consigo imaginar como fui fazer coisas terríveis para Helena.

—Você apenas a traiu David, ela te perdoou e vocês se casaram.

—Na verdade padre, nós nunca nos casamos, o destino nos impediu da pior forma possível.

—Padre Tomás, a final, o que aconteceu entre eles para que ambos viessem tão magoados para igreja?

—Padre João, o que ele contou, me convenceu de que ele realmente a ama.

—Eu duvido disto. Ele traiu Helena com a estagiaria, ele poderia ter evitado ou resistido mais. E ainda foi capaz de fazer algo pior, que segundo Helena foi quando ela mais precisou.

—A questão é que Helena não nos contou toda a história, até porque ela estava ausente nos momentos mais importantes.

—Como assim, ausente?