Pecadores ocultos (Reescrita)
10 Cap. 10 O pecado é ruivo
Depois de tanto tempo namorando ela veio morar junto comigo, conseguiu se estabilizar no emprego de fotógrafa na agência em que a Ângela trabalhava e já estávamos fazendo planos.
—Como serão nossos filhos? Perguntou Helena se erguendo um pouco para me olhar nos olhos.
—Do jeito que você quiser que eu faça. Falei apoiando a cabeça em seu seio confortavelmente e tentando dormir.
—Já são onze horas. Reclamou Helena.
—Ontem teve um acidente na rodoviária e parecia que tinham levado todos os feridos para lá. Justifiquei-me do meu cansaço.
Ela suspirou forte, podia ouvir seu coração batendo mais rápido.
—Pode falar que eu estou ouvindo, é sério. Apenas cansado. Falei tentando evitar uma confusão.
Ela ficou acariciando minha cabeça e voltou a falar:
—Eu gostaria de ter um cachorro.
—Nós podemos ter um agora. Comentei.
—Acho melhor criarmos ele junto com nosso filho – Helena já estava falando sobre família tinha algum tempo e sonhava bastante, mas eu gostava de ouvi-la fazendo planos sobre o futuro portanto que estivesse neles- E ainda estamos namorado, se terminarmos quem fica com o cachorro?
—Não preciso responder esta pergunta.
—Por que não?
—Por que eu não vou me separar de você. Falei logo em seguida dando-lhe um beijo suave.
Ela me olhou sorrindo, ela nunca acreditava no que eu dizia, mas gostava.
—Eu vou preparar o almoço. Será que você acorda até lá?
—Sim senhora. Falei torcendo para que ela me deixasse dormir, a rotina no hospital estava ficando mais difícil devido às festas de carnaval.
Finalmente percebi que ela havia entendido. Depois que o sol se pôs eu já estava de volta ao hospital, que estava uma correria.
—Boa noite Ana.
—Boa noite Doutor David. Hoje parece que temos novos pacientes.
—Eu gostaria de termos mais médicos. Respondi checando uma papelada.
—Hoje é seu dia de sorte, contrataram alguns estagiários.
—Não ajuda muito, mas já é alguma coisa.
Encontrei-me com Rute que já parecia irritada, porém, me cumprimentou:
—Boa noite David.
—Boa noite. Você parece estar com raiva.
—Pelo amor de Deus você poderia me dizer o que estão ensinando na universidade para eles? Tenho que explicar tudo.
—Tenha paciência. Se lembre de que um dia já fomos nós.
—Você não me incomodou tanto quanto ela.
—Ela? Perguntei curioso.
—Mirela Oliveira. A nova estagiaria para nossa área, vou te apresentá-la agora, mas se tentar alguma coisa com ela eu conto para Helena.
—Por que eu tentaria algo?
—Você vai saber. Respondeu Rute vagamente.
Entramos em uma sala onde Rosa estava internada e sempre ela dizia que seus dias estavam contados. Acredito que para ela parecia que era a primeira vez que se internava no hospital.
—Mirela este é o nosso clínico geral, David Rodrigues.
—Olá. Ela falou sutilmente e um pouco envergonhada.
—Olá Mirela. Respondi prestando atenção em sua beleza.
Uma pele branquinha que destacava bem seus olhos castanhos claro, além de ter lábios carnudos, não era muito alta, mas tinha um corpo bem definido e tinha o cabelo vermelho bem vívido.
—Padre confesso que aquela foi a primeira vez que me senti atraído por outra mulher que não fosse minha namorada.
—E aconteceu algo entre vocês?
—Não da forma que o senhor está pensando.
Mirela era uma jovem sonhadora, gostava do que fazia, assim como eu, que sentia prazer em instruí-la. Tínhamos muita coisa em comum, mas eu juro que sempre tentava não distorcer minha relação com ela que deveria ser estritamente profissional. Mas não foi.
*Alguns meses depois
—Sabe o que estão comentando? Falou Rute me pressionando.
—Não dou ouvidos a fofocas. Respondi-lhe de um modo um pouco grosseiro.
—Eu espero que sejam apenas fofocas. Você é mais que um colega de trabalho para mim, trabalhamos juntos há quase cinco anos e lhe quero muito bem, entretanto quero deixar bem claro: Não permitirei baixarias no meu hospital.
—Então confie em mim. Não está acontecendo nada entre nós. Eu amo minha namorada, nunca faria nada assim. Você me conhece. Falei expondo as palmas das mãos.
—Vocês já transaram? –Ela perguntou, me assustando- E eu quero a verdade! Impôs Rute gesticulando com o punho fechado e apontando o indicador para mim.
—Não. Nós não transamos! Neguei esta suposição.
—Nem tiveram nada um pouco mais sutil? Insistia minha colega de trabalho que estava agindo como minha mãe.
—Não Rute! Não tivemos. Estou falando a verdade.
—E era verdade David?
—Sim padre. Ela tentava algumas vezes, mas eu sempre evitava e deixava claro que tinha namorada.
—E como exatamente ela tentava David?
—Apenas se insinuava, nunca tentou nada muito radical.
—Eu acredito em você. Continue a história, por favor.
Rute tentou se justificar daquele comportamento:
—David não é de você que desconfio. Os meses em que ela está aqui percebi que se dependesse dela, já teria acontecido e alguém confiável me contou que ela já disse isto.
—Alguém confiável? Se fosse não teria lhe contado algo que supostamente Mirela falou.
—Sei que é um bom garoto e que não vai me decepcionar. Comentou Rute encerrando nossa conversa.
—Sabe também que eu tenho vinte e oito anos?
Ela nada respondeu e voltou agir normal. Algo que sempre admirei nela era que mesmo desconfiada da Mirela ela sempre era capaz de ser totalmente profissional e nas vezes que nós brigamos ela também agia assim. Algumas semanas se passaram, Helena sempre perguntava como estava o trabalho, talvez tivesse notado que eu sempre evitava falar sobre isso e para respondê-la simplesmente dizia: “Está tudo tranquilo.” Mirela parecia ter desistido da ideia, até que em uma tarde eu estava na minha sala atendendo um paciente.
—Vou pedir para você fazer um exame de vista. Talvez seja este o motivo de suas dores de cabeça frequente.
—Obrigado. Agradeceu a mãe do garoto que não tinha falado muito.
Levantei-me para abrir a porta para eles foi quando Mirela apareceu.
—Desculpe. Você está ocupado.
—Não estou. Já terminei.
Ela abriu espaço para eles passarem e depois a convidei para entrar, deixei a porta aberta, porém, a estagiaria fechou.
—É sobre a paciente Rosa, parece que ela não está reagindo aos medicamentos. Devo aumentar a dosagem?
—Acho melhor não. Talvez devêssemos tentar um tratamento alternativo.
Estávamos em pé próximos à mesa do consultório em que eu estava encostado. Ela se aproximou um pouco, senti o cheiro de seu perfume, sua boca me atraia a cada segundo e eu tentava resistir, mas o desejo era mais forte que eu.
—Você poderia me levar para almoçar? Fiquei sabendo que tem um restaurante aqui perto, mas não sei onde fica.
—Estou um pouco ocupado agora. Mas a Rute já deve estar indo.
O horário de almoço no hospital era um pouco tarde e como alguns funcionários saiam mais cedo, era comum que almoçassem em um restaurante aqui perto em um pequeno grupo de três ou quatro. Porém, eu sabia no que poderia resultar se concordasse.
—Mas eu quero você. Disse ela aproximando a boca bem próxima a minha.
Era possível sentir sua respiração. Ela passou seus braços em volta do meu pescoço e eu não resisti.
—Meu jovem! –Reclamei com ele- você deveria ter resistido.
—Mas padre ela não facilitava.
—Você tem que ser mais forte que o pecado.
—Padre eu resisti o máximo que pude só que aquele era o momento certo para fazermos o que nos era proibido.
—E o que aconteceu depois David.
Sem nenhum controle de mim a beijei intensamente e fui deixando o desejo tomar de conta, a levantei e a coloquei sentada na mesa.
—Tudo tranquilo não é? Falou Helena encostada na parede assistindo o que estávamos fazendo.
—Eu posso explicar.
Sei que é clichê, mas foi o que veio a minha mente primeiro. Ainda estava surpreso sobre o que Helena estaria fazendo no meu trabalho? Ela saiu com ódio nos olhos, olhei para Mirela que não estava preocupada nem se quer envergonhada.
—Helena! Chamei por ela que já estava longe.
Tive que correr um pouco para alcançá-la, pois caminhava rápida.
—Não me toque. Falou Helena evitando que eu lhe tocasse o ombro.
—Espere! Ordenei puxando-lhe pela cintura.
—Se você não me soltar irei gritar no seu local de trabalho.
Algumas pessoas estavam nos observando.
—Vamos conversar. Pedir com uma voz submissa.
—Não quero conversar. Respondeu Helena indo embora.
—Eu lhe avisei. Disse Rute que me assustou chegando de repente.
—Rute eu não quis que isso acontecesse... Ela me interrompeu da minha fútil tentativa de me justificar e disse:
—Se desculpe com ela.
—Meu expediente ainda não acabou.
—Apenas vá e deixe que eu cuide do resto.
Agradeci e fui o mais rápido possível para o estacionamento. Helena chorava enquanto batia de raiva no carro.
—Espere! Deixe eu explicar.
—Explicar o quê? Que seu trabalho estava tudo tranquilo que tinha tempo suficiente para fazer aquela baixaria? Perguntou tentando abrir o carro.
—Ela que me beijou. Perceberia logo depois que esta não é uma boa desculpa quando se é pegue com outra.
—Eu percebi que você estava tentando parar depois que a colocou para sentar na sua mesa doutor! Disse Helena ironizando o doutor de uma maneira cruel.
Ela conseguiu abrir a porta e entrou no veículo. Bati no vidro para que ela me deixasse falar.
—Há quanto tempo você estava lá?
Passei a ideia que eu queria evitar. Ela me olhou enojada de mim, fechou o vidro e foi embora. Quando cheguei em casa percebi que faltava algumas coisas dela. Liguei incontáveis vezes, mas ela não me atendia. Não deixou nem um bilhete dizendo onde estava.
—David?! Chamava-me Donabela que me ligou.
—Donabela, onde está Helena?
—Está aqui em casa, dormindo. Liguei porque percebi que ela não atendia suas ligações.
—Obrigado por me avisar. Agradeci.
—De nada. Acho melhor você deixá-la sozinha por um tempo, não sei o que você fez, mas ela está muito triste.
—Eu entendo. Obrigado de novo Donabela.
Passamos quase uma semana sem nos falar até que finalmente Helena me convidou para conversarmos.
—A quanto tempo vocês tinham um caso? Perguntou Helena olhando-me seriamente.
—Não tínhamos um caso e só teve aquela vez.
—Será que não vai ter a próxima? Desconfiou Helena olhando para a mesa que nos separava.
—Já falei com Rute que me prometeu transferi-la para outro hospital.
—Até quando?
—O mais rápido possível -Respondi apoiando os braços na mesa- Ela que se insinuava para mim Helena, eu juro. Confesso que depois não resisti, mas ela que queria, eu não.
—Então até ela ser transferida eu não vou voltar a morar com você. Ainda não me sinto bem.
—Eu entendo você, mas quero saber se... Ela me interrompeu.
—Sim. Ainda somos namorados.
Não pude conter um sorriso enorme em meu rosto e ela prosseguiu:
—Você me entendeu com a Bruna e manteve tudo em segredo. Então eu posso te perdoar. Não vou te perder por causa de uma vagabunda.
—O nome dela é Mirela.
—Se você falar novamente o nome da vagabunda eu te expulso daqui com uma vassoura.
—Tudo bem amor. Vagabunda então.
Eu me levantei, ela também, queria abraça-la, mas ela parecia relutante, então como sempre tomei a iniciativa e abracei forte, logo depois ela aceitou.
—Eu te amo. Disse Helena.
—Eu também te amo. Respondi com a mesma intensidade.
Beijamo-nos e o final o senhor já sabe padre.
—Pecaram contra a carne novamente.
—Foi para nos entendermos. Justificou-se David.
—E ela te perdoou mesmo? Duvidei.
—Ela ficou mais ciumenta, tinha medo de que pudesse acontecer de novo, mas voltamos a viver juntos. Acho que o fato dela ter me pegado com outra e ainda assim, ter me perdoado e me aceito de volta, me provou que aquela era a mulher que eu queria para minha vida.
—Quanto tempo se passou até que você a pedir em casamento.
—Três meses. Ainda me lembro bem o dia em que eu pedi sua mão.
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