Pecadores ocultos (Reescrita)

2 Cap. 02 Estranhas coincidências


—David! Chamou-me um dos enfermeiros que empurrava a maca.

Coloquei o prontuário no balcão e rapidamente atendi aquele caso. Era uma senhora, já deveria ter mais de sessenta anos, a pele flácida e enrugada com o corpo frágil. Seu olhar me era familiar, a velhice não conseguiu apagá-lo, era misterioso e profundo, parecia o olhar de Helena, minha primeira paixão de adolescente, mas não era compatível pela idade.

—Oh Donabela! O que o tempo fizera com você? Comovi-me ao lembrar que ela era a mãe de Helena.

Mas em minhas memórias ela era tão bela, cheia de charme e simpatia, agora o que lhe restara além deste olhar tristonho?

—Você conhece a vítima? Perguntou o enfermeiro.

—Conhecida de infância –Respondi rapidamente- Mas qual o problema dela?

—Teve um AVC ao fazer compras.

—Leve-a para a emergência imediatamente. Ordenei verificando sua pressão.

Quase a perdemos, mas conseguimos salvá-la, depois que a paciente foi posta para recuperação Rute chegou até mim e disse:

—Tem uma moça na recepção querendo notícias da senhora.

Deveria ser Helena com toda certeza, meu coração estava acelerado e logo a ansiedade tomou conta, era uma história inacabada, apesar de tudo que aconteceu entre nós, eu ainda sentia algo muito forte.

—Eu vou lá falar com ela. Respondi para Rute percebendo que ela nem estava prestando atenção em mim.

Passando pelo corredor minha mente parecia que estava contra mim. Será que ela iria me reconhecer depois de tanto tempo? Será que ela ainda sentia algo por mim? Será que ela está compromissada? São tantas dúvidas, mas junto com o final do corredor elas acabaram. Vi de longe uma jovem sentada na cadeira, mas tinha cabelos pretos, até onde eu me recordava Helena era loira.

—Você é filha da senhora que teve AVC? Perguntei indiferente para observar sua reação.

—Sim, sou eu – Me respondeu a jovem retirando as mãos da cabeça e pondo-se de pé, foi quando percebi que se tratava de Ângela. Uma decepção enorme atacou meu coração, mas o foco era para Donabela — Como minha mãe está?

—Está em recuperação, terá de ficar mais dois dias para observação, mas acredito que será preciso apenas por precaução. Respondi ainda agindo como um desconhecido.

—Obrigada...

Ela virou um pouco o rosto como se estivesse tentando me reconhecer, percebendo que não conseguiria lembrar, leu em meu crachá.

—David! Há quanto tempo? Falou feliz ao me reconhecer e veio me abraçar.

—Ângela! Fiquei preocupado se você não iria me reconhecer. Comentei durante o abraço.

—Sempre sendo um bobo não é? Passamos o começo da adolescência juntos. Disse Ângela bem específica.

—Tem notícia de mais alguém? Perguntei com muita saudade dos meus amigos.

—Está falando dos meninos que jogavam bola com você na praça não é? –Relembrou Ângela- Tenho notícias do Papa-léguas.

—Ele ainda tem esse apelido?! -Falei surpreso- Já se passou dez anos.

—Correndo daquele jeito, não tinha como esquecer. Mas agora ele não está mais em forma, trabalha como publicitário.

—Que legal! Você ainda mantém contato com ele?

—Mais que isso. Sou noiva dele! Disse Ângela com um sorriso ao erguer a mão e ao lado da face me mostrando o anel de noivado.

—Quando vocês vão se casar?

—Daqui a três meses, mas não se preocupe, nós vamos conseguir um convite para você.

—Pode deixar, eu irei. Vai ter mais alguém conhecido lá?

—Sim. Há alguns dias atrás nós encontramos com a Dona Elza.

—Sempre que jogávamos bola alguém chutava a bola para seu jardim. Comentei este fato passado que sempre causava muita confusão.

—Ela perguntou se o Carlos iria roubar as rosas para o meu buquê -Começamos a rir- O Carlos só foi me contar essa história há pouco tempo.

—Ele contou como surgiu o apelido de Papa-léguas?

—Contou.

Então nós passamos a rir muito, foi quando algumas pessoas passaram por nós nos olhando de um modo estranho.

—Só porque estamos num hospital não podemos rir? Questionou Ângela com o pessoal que passaram por nós, que não gostaram nem um pouco do que ela falou.

—Eles estão certos, sua mãe está aqui.

—Mas se você está cuidando dela, não há com o que se preocupar.

Fiquei um pouco sem jeito, mas logo perguntei por quem mais me interessava saber. Ângela que não falava nada me obrigou então a perguntar:

—E sua irmã como está?

—Helena vai bem, viajando a trabalho.

—Ela sempre gostou da liberdade.

—Mas e você? Perguntou-me mudando rapidamente o foco da conversa.

Coloquei as mãos nos bolsos e pensei no que falar.

—Me formei faz um ano e consegui um emprego por aqui. Respondi.

—David! Chamou-me um homem que tinha entrado na sala de recepção.

Quando o vi caminhando em minha direção percebi que se tratava de Carlos, que já vinha com braços abertos.

—Papa-léguas.

—Ali Babá.

—Está certo, já entendi Carlos. Falei ao lembrar o apelido que recebi também pelo mesmo motivo.

—Como vai meu velho amigo?

—Muito bem e você?

—Enchi a cara e acabei ficando noivo.

Nós dois rimos e Ângela disse:

—Então bebe de novo quando fomos nos casar.

—Está vendo? Nem nos casamos e já está me dando ordens.

—Só não vale correr. Ironizei.

—Continua o mesmo hein? Falou Carlos ao entender a ironia.

—Algumas coisas nunca mudam.

—E a minha sogra com está?

—Está bem. Só vai passar alguns dias para observação. Expliquei seu estado clínico.

—David eu posso ver minha mãe? Perguntou Ângela preocupada com ela.

—Ela está inconsciente.

—Tudo bem. Apenas vê-la já será suficiente para mim.

—Bem, se é assim. Por aqui! Falei os levando até o quarto.

Abri a porta, mas deixei que eles entrassem primeiro, Ângela ficou mais próxima da mãe e segurou com as duas mãos a mão de sua genitora.

—Se lembra como era Donabela? Perguntou Carlos.

—Ela era tão jovem, até parecia que lhe faltava alguns anos. Respondi.

—Depois que você se foi houve muitos problemas no casamento dela -Comentou Carlos – Vamos sair daqui? Detesto hospitais, eles sempre estão repletos de tristeza — Reclamou se aproximando da noiva e continuando a falar – Nós vamos esperar lá fora está bem? E a beijou na testa.

—Está bem. Concordou Ângela.

Carlos então foi até o lado de fora do hospital onde se encostou à parede e puxou uma carteira de cigarros.

—Você fuma? Perguntei estarrecido.

—Não venha me dar uma bronca como todo mundo! Retrucou Carlos pondo o cigarro na boca e o acendendo com um isqueiro.

—Você sabe muito bem todos os males à saúde que isso causa. O que mais você precisa para parar?

—Eu ganho muito bem como publicitário, mas é uma vida estressante e corrida, fumo para relaxar. Tentou se justificar.

Ele virou o rosto na direção oposta a mim e assoprou aquela fumaça que já estava me incomodando.

—Eu sou seu amigo e acima de tudo sou médico, você está se matando desta forma.

—Eu não vou parar doutor. Disse Carlos assoprando para mim um pouco da fumaça.

—Isso faz mal para mim também. Reclamei passando a mão pela fumaça tentando diluí-la no ar.

—Continua o mesmo protetor de sempre.

—Eu não sabia que era errado tentar ajudar meu amigo.

—Isso tem haver com a promessa que fez para Helena?

—Não! –Falei até de uma maneira grosseira- Não tem nada haver com a Helena. Reneguei duramente.

—Está na cara que você ainda gosta dela.

—Já faz tempo. Isso não tem mais importância e você tocou nesse assunto.

—Não sei. Mas depois que você partiu ela ficou arrasada e sem ninguém para ajudá-la.

—Quer fazer eu me sentir culpado? Não tive culpa se fui obrigado a me mudar –Suspirei, depois de alguns instantes e com um aperto no coração, lhe perguntei- Ela sofreu muito?

—No final tudo se tornou muito difícil, mas acabou rápido. Porém não tem como negar que ela sentiu sua falta.

—Eu também senti a dela, mas ela continuou sua vida assim como eu. Helena nunca foi de se prender a algo, muito menos a alguém. Expliquei com o olhar perdido para a rua.

—Não estou falando disso. Quero dizer que ela continuou sem você porque no fim, não tinha escolha.

—E onde ela está agora?

—Viajando a trabalho, mas vem pra cá daqui a dois dias.

—Ângela não me contou isso. Intriguei-me com este detalhe.

—Talvez tenha se esquecido. Mas você ainda quer tentar a sorte? Perguntou Carlos de uma maneira estranha batendo com a ponta do dedo no cigarro.

—Não sei se devo. Hesitei.

—Não sei se isso é destino, ou se é Deus, mas seja lá o que for você tem que aproveitar essa chance. Eu soube que ela terminou com o namorado já tem alguns meses. Disse-me Carlos tudo que eu precisava saber.

—Ela está bem. Disse Ângela se juntando a nós e nos interrompendo.

—Minha sogra é forte, vai sair dessa. Disse Carlos jogando fora o cigarro sem que sua noiva percebesse.

—Amanhã venho vê-la novamente. Disse Ângela.

Despedimo-nos e eu voltei para meu trabalho, apesar de tentar não consegui pensar em como seria rever Helena, já havia um conhecido paciente para eu cuidar.

—Como é que vai Alan? Perguntei examinando o paciente.

—Ainda estou com aquelas dores nas costas Doutor.

—Me chame de David, já faz tempo que eu cuido de você.

—Está bem David e o que você acha que são essas dores?

—Devem ser inchaço, não se preocupe, mas vou passar um analgésico e pedir um exame para ter certeza.

—Obrigado David.

Depois de examiná-lo fui para o quarto ao lado.

—Rosa! Como vai minha guerreira? Perguntei examinando sua pressão e ficando preocupado.

—Uma velha como eu, meus dias já estão contados. Disse a mulher tristonha.

—Os meus também, mas eu não sei quando vai ser minha hora e nem a sua. Então eu acho melhor você sorrir por quem te ama. Falei ao ver que sua filha voltava para o quarto.

Morena de cabelos longos e cacheados era muito bonita, mas a rotina do hospital a deixava debilitada.

—Como está minha mãe?

—Ótima! Só pressão baixa, mas um remédio vai ajudar.

—Quando ela vai ter alta?

—Sinceramente eu não sei. A cirurgia foi delicada e ela ainda não está apresentando uma melhora significativa.

Ela olhou para baixo com o olhar perdido.

—Ela ficará bem. Tentei animá-la, porém, fui embora logo em seguida.

—Como estão os pacientes? Perguntou-me Rute lendo o prontuário.

—Bem. Com exceção de Rosa que estava com pressão baixa. Respondi me apoiando no balcão de costas e com os cotovelos, cruzando os dedos das mãos.

—Ela já está em idade avançada, sabe que a qualquer momento... Comentou Rute sendo interrompida por mim.

—Eu sei. Resistir contra esta conversa.

—David! –Ela pareceu brigar comigo- ela já está na velhice, a qualquer momento chegará a hora dela e você tem que entender isso. Insistiu Rute tentando me mostrar o óbvio.

Fiquei pensando nisso mais tarde, em casa. E ela tinha razão. Por mais que eu tente, não posso cuidar para sempre, chegara a hora que...

—Já acabou seu plantão? Ela perguntou interrompendo meus pensamentos.

—Já. Vou para casa daqui a pouco.

—Descanse e não se preocupe tanto, você é um médico e sabe melhor que ninguém como a vida é frágil.

Rute já estava perto dos quarenta anos, quinze anos trabalhando, era uma mulher experiente, sabia do que falava.

—Está bem. Reconheci que estava certa.

Ela pegou alguns materiais e foi para os leitos.